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Sou Gorda Mas Eu Pulo: conheça o bloco feminista de mulheres negras periféricas contra a gordofobia e o racismo

Foto: Fran Ribeiro/SOS Corpo.

Há 11 anos um bloco de Carnaval corta as ruas do bairro de Passarinho levando resistência, denunciando o racismo e a gordofobia ao som do frevo. O Sou Gorda Mas Eu Pulo sai este ano, mais uma vez, aliando folia e consciência política para marcar o direito das mulheres negras e gordas à alegria e para questionar os padrões estéticos impostos pelo machismo, pelo racismo e pela ideia capitalista de que bem estar e saúde se expressa em corpos magros e brancos.

Organizado na luta e na marra por mulheres que integram o Espaço Mulher – grupo de mulheres que se organizam em torno das pautas raciais, feministas e por melhores condições de vida na comunidade de Passarinho há 21 anos -, o bloco Sou Gorda Mas Eu Pulo surgiu depois de uma conversa entre três amigas lá em 2009, que questionavam a falta da presença de mulheres negras e gordas no Carnaval.

“O bloco surgiu porque a gente sempre quis fazer um bloco de carnaval. Aí a ideia veio de uma conversa da gente, perguntando onde estavam as mulheres gordas, que quando saiam nas escolas de samba, estavam sempre no meio do desfile ou estavam na ala das baianas, mas nunca eram vistas na frente dos desfiles. E a gente foi conversando e identificando onde esses corpos gordos estavam. Era na rua, vendendo cerveja, por trás do isopor. E horas depois da conversa, uma delas soltou ‘ah, minha filha, eu sou gorda, mas eu pulo’, contou Edicleia Santos.

Com a ideia ressoando na mente, a proposta de nome para o bloco foi apresentada na reunião do Espaço Mulher às integrantes do grupo, que se identificaram de imediato. “Quase todas nós somos gordas e trazemos muito forte nas nossas atividades a questão racial, que é uma questão que nós enquanto um grupo de mulheres negras periféricas, e que faz uma discussão muito forte sobre como a violência racista interfere nas nossas vidas na cidade”, explicou Edicleia.

Através de apoios de parcerias de pequenos comerciantes do bairro e de organizações dos movimentos sociais, a mulherada conseguiu colocar o bloco na rua, com orquestra de frevo, carro de som e muita alegria. O percurso é quase sempre o mesmo: concentração em frente a sede do Espaço Mulher e o arrastão segue descendo e subindo as ruas do bairro, atraindo, sobretudo, uma mar de mulheres e crianças, de variadas idades. O clima familiar foi o que atraiu Joelma Faustino, de 50 anos, que hoje integra o Espaço Mulher.

“Já faz 10 anos que eu brinco nesse bloco, o mesmo tempo que estou aqui no grupo. Eu não saio no Galo e em nenhum outro bloco, só nesse. É um bloco familiar, não tem empurra-empurra e como eu sou deficiente física, eu tenho medo do pessoal me derrubar e eu cair. E elas não, uma apoia a outra, uma brinca, uma cuida, entendeu? É uma família. Eu adoro. No meu primeiro ano eu chorei de emoção, porque eu desfilei aqui dentro de Passarinho. Quando começa a tocar a orquestra ali fora, começa a encher de gente. Minha família vem, meus netos vem. Minha neta no ano passado brincou tanto que fez até dois calos no pé e teve que ir na cacunda…eu continuei brincando, foi muito gostoso”, contou com empolgação.

Uma alegria que carrega resistência, mas também liberdade. A beleza sutil do Sou Gorda Mas Eu Pulo, além do nome certeiro, se expressa no desejo das mulheres de poderem se sentir bem com seus corpos, de serem vistas como são, sem rótulos, sem padrões estéticos impossíveis de serem alcançados por qualquer mulher, sem imagens de controle, sem racismo e sem sexismo. O bloco permite que elas sejam apenas mulheres no livre exercício de brincar juntas, em coletivo, com suas crias.

É essa sensação que atraiu Maria Lenilda, que sai a primeira vez no bloco este ano. Moradora de Passarinho, Lena, como também é conhecida, fala que o nome sugestivo atrai quem se sente representada. “Estou ansiosa que chegue o dia da saída do bloco, quero conhecer e participar. Eu achei ótimo esse nome, Sou Gorda Mas Eu Pulo, porque me toca né? Eu gostei muito porque é contra o preconceito, tem muito preconceito contra pessoas gordas nesse mundo. E a gente participando dessa folia vai ser muito bom. Levar o bloco pra rua pra quebrar um pouco os preconceitos. A gente quer se vestir do jeito que a gente quer, do jeito que a gente gosta”, contou.

“Carnaval na periferia é carnaval da resistência”

Além da vanguarda de trazer para o centro da folia a discriminação racista e a gordofobia, o Sou Gorda Mas Eu Pulo é um dos blocos na cidade de Recife que tem um caráter político latente, a exemplo da importunação e assédio sexual, que estão nas pautas que marcam a ação feminista do bloco.

“Tem também, a questão Não é não!, os homens precisam nos respeitar. Nada de agarrar à força e tentar beijar. Se a mulher não quer, ela não quer. Beijar a gente à força não pode, tem que respeitar”, contou Márcia, de 51 anos, também uma das organizadoras do bloco.

“A gente tá na folia, o Carnaval é uma festa maravilhosa, mas a gente tem que brincar com consciência. E é nessa consciência que a gente vai falando sobre as questões das mulheres pretas, da conjuntura política que tá aí, das pessoas que estão perdendo suas aposentadorias…então, o contexto geral do Brasil a gente também tem que falar sobre isso no Carnaval. Aqui é onde a gente brinca e faz política”, explicou Edicleia Santos.

É preciso democratizar o Carnaval!

De acordo com as mulheres do Espaço Mulher, Passarinho já foi um bairro com tradição dos blocos populares e também já contou com uma estrutura pública na praça, que recebia atrações musicais – isso em um tempo muito específico de gestões petistas na prefeitura do Recife, que chegou a levar, durante o carnaval, um pólo descentralizado para o bairro. Contudo, com o passar das gestões, o bairro foi novamente esquecido, e os blocos que resistiam, foram se acabando com o passar dos anos, restando só o Sou Gorda Mas Eu Pulo.

“A gente não tem carnaval na comunidade. Muitas pessoas não tem nem o dinheiro de ir na cidade, imagina ir brincar o Carnaval ou ir em outro canto qualquer. Essa é também uma das questões importantes da existência desse bloco para a comunidade. O Carnaval não foi feito para o povo preto, o carnaval foi feito para a elite”, criticou Edicleia.

“Tem algumas comunidades que ainda tem seus pólos, mas Passarinho foi um dos primeiros que o pólo não veio mais. E as pessoas vão pra onde? Quem não tem para onde ir faz sua brincadeira na frente de casa, com sua família. É nesse sentido também que a gente resiste e coloca o bloco todo ano na rua”, complementou.

Sem apoios, em 2020 o Sou Gorda Mas Eu Pulo vai sair na força das mulheres de Passarinho em reivindicar o Carnaval na periferia. Cola com elas! O bloco sai na terça-feira de Carnaval (25), com concentração a partir das 15h na sede do Espaço Mulher, que fica na Rua Jandaia, 05.

Bota na agenda e não perde esse blocos!