Memórias do feminismo popular em Pernambuco fortalecem estratégias de luta e construção coletiva
Seminário reuniu organizações históricas do movimento feminista para refletir sobre memória, formação política, renovação geracional e enfrentamento às ofensivas conservadoras

O Seminário Memórias do Feminismo Popular em Pernambuco integra um processo de pesquisa-ação promovido pelo SOS Corpo – Instituto Feminista para Democracia, iniciado no segundo semestre de 2025, em parceria com organizações e redes históricas do feminismo no estado: Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste (MMTR-NE), Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Fórum de Mulheres de Pernambuco (FMPE), Rede de Mulheres Negras de Pernambuco (RMNPE), Mulheres da CUT, Mulheres da FETAPE e Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA).
Inserido nesse percurso coletivo, o seminário se constituiu como espaço político de elaboração de memória, encontro intergeracional e fortalecimento do feminismo popular em Pernambuco, tomando como recorte as últimas quatro décadas (1985–2025). A proposta parte do entendimento de que a memória é um campo de disputa, não apenas um registro do passado, mas uma ferramenta ativa para compreender processos históricos, interpretar conjunturas e projetar estratégias de luta.
Fundamentado em princípios da educação popular e da pesquisa-ação, o seminário articulou reflexão e experiência, valorizando as trajetórias organizativas, as múltiplas formas de atuação, as alianças construídas e também as tensões e conflitos que atravessam o movimento feminista. Ao situar essas memórias nos contextos políticos mais amplos, marcados pela crise multidimensional do capitalismo contemporâneo, pelo avanço da extrema direita, do conservadorismo, dos fundamentalismos religiosos, do racismo e do antifeminismo, o encontro reafirmou o feminismo como prática antissistêmica, comprometida com a transformação das condições de vida e com a construção de horizontes emancipatórios.









Memória, ação coletiva e desafios do presente
O seminário evidenciou a potência histórica e política do feminismo popular em Pernambuco, reafirmando-o como um campo de luta enraizado nas experiências concretas das mulheres, na construção coletiva e na articulação entre memória, ação e projeto de futuro. Ao longo dos painéis, plenárias e atividade coletiva, destacou-se que a memória não é apenas registro do passado, mas ferramenta estratégica de resistência, formação política e fortalecimento identitário, fundamental para enfrentar as disputas de sentido no contexto atual.
As discussões apontaram que o momento presente é marcado por profundas transformações sociais, avanço de forças conservadoras e intensificação das desigualdades, exigindo do feminismo maior capacidade de análise de conjuntura, organização política e incidência estratégica. Nesse cenário, houve convergência em torno da necessidade de fortalecer processos formativos, ampliar a articulação entre movimentos e construir respostas coletivas mais consistentes diante dos desafios contemporâneos.









O feminismo popular foi reafirmado como um projeto político em construção, atravessado por disputas, tensões e pluralidades. Foi destacada a importância de aprofundar sua elaboração teórica e prática, articulando as lutas anticapitalistas, antirracistas e antipatriarcais, e consolidando uma identidade coletiva capaz de reunir diferentes experiências sem apagar suas especificidades. Ao mesmo tempo, evidenciou-se a necessidade de transformar divergências em força política, reconhecendo o conflito como parte constitutiva do movimento.
A renovação geracional e a ampliação dos sujeitos políticos emergiram como desafios centrais. As discussões indicaram a urgência de criar estratégias para envolver juventudes, fortalecer processos intergeracionais e dialogar com novos territórios de atuação, sem perder o vínculo com a memória e os acúmulos históricos do movimento. Nesse processo, também se destacou a importância de repensar práticas internas, ampliando a escuta, a abertura e a partilha de responsabilidades.
Outro eixo fundamental foi a reafirmação da ação coletiva como base do feminismo popular, construída nas ruas, nos territórios, nas experiências cotidianas e nas alianças com outros movimentos sociais. As intervenções apontaram para a necessidade de maior unidade estratégica, capaz de alterar a correlação de forças e disputar projetos de sociedade em um contexto de crescente ofensiva conservadora.









Como principais encaminhamentos, destacaram-se: o fortalecimento da formação política e da análise de conjuntura; o investimento na preservação e ativação da memória como estratégia de luta; a ampliação da articulação entre diferentes correntes feministas e movimentos sociais; o incentivo à participação de novas gerações; e a construção de um feminismo cada vez mais capaz de articular diversidade, unidade e radicalidade política.
Em síntese, o seminário reafirmou o feminismo popular como um movimento vivo, plural e em permanente construção, comprometido com a transformação social e com a construção de um futuro baseado na justiça, na igualdade e na liberdade para todas as mulheres.



