ACF tem diálogo sobre literatura, feminismo antirracista e escrita de mulheres negras

Com a sede lotada, o Instituto testemunhou uma das noites mais belas que já vivenciamos por aqui, regado a muita reflexão crítica, poesia, literatura, ação feminista antirracista e escrita afetiva e corajosa de mulheres negras. 

Fran Ribeiro e Rivane Arantes

A primeira Ação Cultural Feminista do SOS Corpo em 2026 convidou a artista multilinguagens Bell Puã, que lançou seu quinto livro autoral, À Mente que Sabe, na última quinta-feira, 12 de março. 

Com a sede lotada, o Instituto Feminista para a Democracia testemunhou uma das noites mais belas que já vivenciamos por aqui, regado a muita reflexão crítica, poesia, literatura, ação feminista antirracista e escrita afetiva e corajosa de mulheres negras, que colocam em palavras as dores, raivas, amores e a cura para experiências que marcam nossas vidas de maneira concreta e abstrata. 

É na escrita de si que as mulheres negras se aproximam de tantas outras e ampliam o sentido de pertencimento ao traduzir em palavras, traços tão íntimos e peculiares de nossas subjetividades e escrevivências cotidianas. 

Abrindo a noite de diálogo, a pesquisadora e educadora do SOS Corpo, Rivane Arantes, apresentou um texto que articula feminismo antirracista e literatura, para refletir sobre a escrita de mulheres negras e dialogar com a obra de Bell Puã. Você pode ler essa reflexão logo abaixo.

Feminismo antirracista e literatura: a escrita de si e do mundo a partir das mulheres negras

Rivane Arantes[1]

Há muito aprendi vivendo o que o feminismo e Paulo Freire elaborou lá atrás, de que só a luta muda a vida, ou seja, só a ação organizada e histórica das oprimidas e oprimidos e das exploradas e explorados desta terra é que muda o mundo. Mas, estamos em tempos de crer, e em tempos de crer, a ancestralidade que me trouxe até aqui e a pegada decolonial que sustenta o feminismo antirracista que tento viver, me faz crer também nas palavras. Sem dúvida, elas – as palavras, têm muito poder!   

Bell Puã e Rivane Arantes, num papo sobre literatura, feminismo antirracista e escritas de si. Foto: Fran Ribeiro/SOS Corpo

Para o nosso povo negro, contar histórias, contar nossas histórias, colher, e depois plantar a palavra falada, foi uma das estratégias que nos permitiram chegar até aqui. Elas – as palavras, atravessaram não somente o Atlântico (negro), mas o tempo, os séculos e os corações – sobretudo os duros… como água, contra a corrente, batendo nas pedras, inundando tudo, apontando a mentira da história única, da voz universal, e fazendo viver quando a ordem era deixar morrer.

Alguém disse, e eu concordo, que as vozes de mulheres negras são como contas de um colar que tecem liberdades[2]. E é por isso que elas podem ser facas que cortam, linhas que tecem, aquarelas até, que traduzem paisagens ou imaginam imaginações. Pois bem, para mim, as escritoras negras parecem que manuseiam as palavras, inclusive as escritas, como quem prepara uma boa comida. Passo a passo, sem pressa, com um toque deliberado de cada tempero, sob o desejo oculto de que elas passem de mão em mão… fazem como quem planta.

Mas a modelam também, na força da raiva ou, mesmo, nas ondas dos amores – não aqueles românticos, piegas ou possessivos, aqueles que nos fazem encolher para caber, mas aqueles que chispam fogo e coam ventos na peneira – amor de vontade, que dá e exige trabalho, que bebe a mudança como refrigério num copo com gelo e limão.

Então, para contrariar o plano, nós mulheres negras resistimos ao passado escravocrata, ao presente violento, cínico e fascista, e à tentativa de apagão do futuro. Nós combinamos de não morrer, né não! E aqui estamos nós, a despeito de tudo, VIVAS!

Nossa estratégia? Muitas! Mas vou me ater apenas a uma – ocupar o território “proibido” das palavras, inclusive as escritas – a prosa, o verso, o conto, a crônica, o cordel, o haikai, a ficção enfim, para fazer justiça – l i t e r a l m e n t e com nossas mãos ou, como bem diz Conceição Evaristo, para “estilhaçar as máscaras do silêncio[3]” racista, que até hoje, em maior ou menor proporção, impõem o apagamento a nossas letras, o silêncio a nossas vozes e o vazio à nossa história.

Quando a mulher negra encontra a escritora negra, suas palavras, suas escritas buscam dar lugar ao questionamento “quem é a mulher negra”? Ou, melhor, “quem somos nós, mulheres negras”? “Como é nosso mundo?” E nisso, reelaboram o que é uma mulher, a partir de uma subjetividade afrocentrada. E, ao tomar a experiência e o vivido como sumo de sua escrita – as “escrevivências”[4], as escritoras negras denunciam aquilo que a sociedade racista patriarcal teima em ocultar – as situações de violência impostas aos sujeitos negros até os nossos dias, assim como a resistência e a contribuição desse mesmo povo, nos territórios ainda colonizados.

Então, parece que escrever, inclusive como literatura e ficção, para nós mulheres negras, mais que uma ação diletante, de fruição, é um ato político, um compromisso ancestral, um engajamento no futuro, uma forma de produzir mundos.

Será que é por isso, que no mais das vezes ou muitas vezes, essas mulheres que escrevem, escrevem como quem sangra? Isso é coisa pra Bell Puã responder…

Penso que é, também, através da escrita literária, que é igualmente responsável pela produção de representações sobre os sujeitos e suas histórias, pela movimentação portanto, da e na cultura, que a escrita de mulheres negras dialoga com o passado, reescrevendo-o e humanizando-o, buscando entender o sentido de suas vidas, ao mesmo tempo em que se inscrevem no mundo a partir de suas próprias premissas e tecem veredas para o futuro, interrogando-o.

Aprendi isso com Conceição Evaristo[5], e é ela também quem diz que nessa escrita, a mulher negra deixa de ser o corpo-mulher-negra do “outro” como objeto a ser descrito, para se impor como sujeito-mulher-negra que se descreve, a partir de uma subjetividade própria. Daí que não se trata somente de uma escrita de si, mas da vivência de uma comunidade inteira e, de maneira alguma, e isso é o mais importante, suas escritas não podem ser tecidas e lidas como “histórias para ninar os da casa grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos”[6], é por isso que corta e que sangra…

Então, a literatura de mulheres negras num país misógino, racializado, racista e cada vez mais antifeminista como o Brasil, não somente questiona o que é uma mulher, negra, por assim dizer, como abala inclusive, a noção do que é comumente pensado como literatura no país.

Mais do que aproximações entre discursos literário e social, a literatura feita por mulheres negras propõe inverter a posição do sujeito negro na história, sobretudo das mulheres negras, borrando ou desfazendo-se da imagem desumanizada do passado e reconstruindo outra identidade[7]; objetiva denunciar as violências impostas até o presente a essa população, assim como a resgatar e produzir memórias, celebrar a ancestralidade e imaginar mundos, futuros desejados, algo somente franqueado aos “instituídos de humanidade”. E por fim, mas não menos importante, a literatura de mulheres negras é instrumento para a educação em relações raciais e ferramenta de resistência e luta contra o patriarcado racista capitalista que nos fere de morte todos os dias.

Que essas mulheres, como Bell Puã, cultivem suas pretas palavras como quem rega um baobá, árvore sagrada para o povo negro. Que a ancestralidade e o espírito de justiça sejam fortaleza e guiem-nas na difícil travessia de disputar as palavras e todo seu universo cultural, como vereda para enfrentar a indiferença do mundo! Pois como nos anima Audre Lorde[8],

(…) poesia não é um luxo. É uma necessidade vital da nossa existência. Ela cria o tipo de luz sob a qual baseamos nossas esperanças e nossos sonhos de sobrevivência e mudança, primeiro como linguagem, depois como ideia, e então como ação mais tangível (…).


[1] Rivane Arantes é educadora, pesquisadora e membra da Coordenação Colegiada do SOS Corpo. Graduada em Direito, mestra em Direitos Humanos pela UFPE e doutoranda em Sociologia na UFPE. É militante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Fórum de Mulheres de Pernambuco/Articulação de Mulheres Brasileiras e integrante do CLADEM.  Este texto foi apresentado na Ação Cultural Feminista do SOS Corpo durante lançamento do livro “A mente que sabe” de Bell Puã, Recife, março/2026.

[2] PALMEIRA, Francineide Santos. Escritoras negras e representações de insurgência. Fazendo Gênero 9, Diásporas, diversidades e deslocamentos, 2010. Disponível em www.fg2010.wwc2017.eventos.dype.com.br Acesso em 19.03.26.

[3] EVARISTO, Conceição In: Roda Viva transmitido pela TV Cultura em 6 de setembro de 2021 Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=O2bxQJH-Plk Acessado em 19.03.26.

[4] EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: ALEXANDRE, Marcos Antônio (org). Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza, 2007.

[5] EVARISTO, Conceição. Fêmea fênix. Maria Mulher – Informativo, ano 2, n. 13, 25 jul. 2005.

[6] EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: Alexandre, Marcos A. (org.) Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

[7] Idem.

[8] LORDE, A. “A poesia não é um luxo” In: LORDE, A. Irmã outsider. Trad.: Stephanie Borges. São Paulo: Autêntica, 2019.

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