Construindo futuros feministas, justos e sustentáveis
Como construir futuros feministas, justos e sustentáveis, diante da crise socioambiental que o mundo enfrenta hoje? No estado de Pernambuco, as alterações climáticas já se fazem sentir no cotidiano da população, em especial das mulheres negras, indígenas, quilombolas e empobrecidas. Atualmente, pensar sobre o meio ambiente tem se tornado uma fonte de bastante angústia, sendo cada vez mais necessário mobilizar afetos de esperança e resistência para enfrentar a exploração irrefreada da natureza e criar outros destinos possíveis para a civilização.

Instigadas por essa e outras questões, mulheres de diversos territórios, do litoral ao Sertão de Pernambuco, se reuniram para discutir o cenário socioambiental do estado. O evento, organizado pelo SOS Corpo – Instituto Feminista pela Democracia, aconteceu no SINDSPREV entre os dias 3 e 4 de setembro, e reuniu representações de várias organizações e movimentos sociais. Esse encontro marca mais uma etapa de um processo amplo de articulação e pesquisa, que objetiva enraizar o debate socioambiental dentro dos movimentos feministas, ao mesmo tempo em que busca tensionar as discussões nos movimentos sociais mistos levando em conta a realidade das mulheres, em uma perspectiva antissistêmica. O projeto propõe a construção de um diagnóstico participativo, buscando mapear como estão as condições de vida e trabalho das mulheres frente à crise socioambiental nas diferentes regiões de Pernambuco e quais as estratégias encontradas para enfrentar os problemas identificados. A ideia é que o diagnóstico possa servir de subsídio para que os movimentos sociais construam processos de luta e incidam na conjuntura política, durante e após as eleições.
Dado o cenário extremamente preocupante, cresce a mobilização da sociedade civil, dos governos e até mesmo do setor privado em torno das mudanças climáticas e suas implicações. Entretanto, se o movimento feminista está preocupado porque entende os impactos da crise socioambiental na vida das pessoas – principalmente das mulheres –, dos animais e da natureza como um todo, os grandes empresários voltam suas atenções exclusivamente para suas próprias famílias ou para os reflexos nos negócios e na economia. A maioria das elaborações sobre o tema não parte de uma análise crítica e radical, muitas vezes reforçam o sistema capitalista, racista e patriarcal que produziu a crise em primeiro lugar.
Sendo assim, o diferencial desse trabalho é articular os problemas socioambientais de Pernambuco ao modelo de desenvolvimento predatório capitalista, buscando desnaturalizar “tragédias”, a degradação do meio ambiente e o acesso desigual aos bens naturais. Considerando, ainda, a imbricação do capitalismo com o patriarcado e o racismo, o diagnóstico procurou se debruçar não apenas na constatação de que esses problemas atingem mais intensamente as mulheres negras e empobrecidas, mas tenta desvelar de que maneira a divisão sexual do trabalho, a violência e a precarização das condições de vida nas periferias, habitada majoritariamente por essa população, produzem as injustiças socioambientais. Por fim, tem como objetivo final contribuir para o envolvimento dos movimentos sociais feministas e mistos em torno do tema, entendendo o poder da mobilização social para a transformação da realidade.
Percurso pedagógico para um diagnóstico socioambiental participativo
A equipe pedagógica, formada por Analba Brazão, Carmen Silva, Bruna Pires e Rivane Arantes, foi responsável pela condução do projeto, que começou com uma reunião online com os movimentos sociais mobilizados. Até o momento, participaram do processo: Ameciclo, Articulação Nacional das Pescadoras (ANP), Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), Casa da Mulher do Nordeste, Cidadania Feminina, Costurando Moda com Direitos, Espaço Mulher, Fórum de Mulheres de Pernambuco, Grupo Mulher Maravilha, Quilombo Conceição das Crioulas, Liberdade Vamo Simbora e Rede de Mulheres Negras de Pernambuco. Nessa primeira reunião, foi apresentada a proposta metodológica, muito bem recebida pelas mulheres presentes.
A segunda etapa, conduzida pelos próprios grupos participantes, foi a realização de reuniões preparatórias nos territórios nos quais os movimentos convidados se inserem. A partir de um roteiro metodológico elaborado pelo SOS Corpo, as militantes discutiram sobre as regiões de Pernambuco, identificando os principais problemas socioambientais, de que maneira a vida das mulheres é afetada, as formas de trabalho dominantes na região e as medidas adotadas pelos governos e pelas mulheres para enfrentar os problemas identificados. Foram realizados inúmeros encontros na Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata, Agreste e Sertão pernambucanos, que geraram uma riqueza de informações sobre a realidade socioambiental do estado, implicando as mulheres na reflexão sobre o tema e na produção de conhecimento.
Em seguida, foi realizado o encontro estadual com a participação de representantes dos movimentos citados, que trouxeram o acumulado nos territórios e se comprometeram com a continuidade do debate em seus grupos após o evento. Durante dois dias de imersão, as participantes trocaram experiências sobre os diferentes territórios aos quais pertencem, identificando, entre as particularidades locais, uma série de semelhanças. A metodologia utilizada possibilitou a reflexão crítica e criativa, que trouxe a ação política feminista como alternativa à crise socioambiental. As discussões foram sistematizadas graficamente pela artista Luiza Morgado. Além disso, uma comissão, formada pela educadora Bruna Pires e pelas participantes Maria Angélica Dantas, do Fórum de Mulheres de Pernambuco, e Yullianna Cybelle, da Rede de Mulheres Negras, elaborou uma carta-síntese com os aprendizados coletivos, que está reproduzida a seguir. O processo de publicação do diagnóstico participativo e de incidência política continuará em curso, tendo como horizonte o envolvimento do movimento feminista como parte indispensável da construção de um futuro sustentável e justo para todos.






Carta-síntese de aprendizados
SINDSPREV, 04 de setembro de 2026
Queridas companheiras de luta,
Nos últimos dois dias, estivemos reunidas para construir um diagnóstico socioambiental de Pernambuco, considerando as experiências de nós, mulheres urbanas, rurais e das águas, em nossos territórios. O conhecimento que elaboramos coletivamente aqui tem os dois pés fincados no nosso cotidiano – em casa e no trabalho, mas também na política e na luta como militantes feministas. Antes de chegarmos aqui, começamos o debate nos nossos movimentos em reuniões preparatórias… E agora que estamos finalizando esse encontro, temos a missão de dar continuidade à luta por justiça socioambiental, instigando nossa militância feminista a partir das questões que conversamos.
O nosso ponto de partida é o feminismo popular. Isso significa reconhecer que o mundo é organizado por relações de classe, raça e gênero. Nós vivemos em um sistema que separa em polos antagônicos e hierarquiza: homens e mulheres; brancos e negros/indígenas/amarelos; humanidade e o restante da natureza. São essas relações de dominação, exploração e opressão que organizam o trabalho, distribuem de forma injusta as riquezas e produzem desigualdades que definem quem acessa direitos e quem permanece mais exposto às diferentes formas de violência. A crise ambiental não é natural, nem acidental! Está relacionada a um modelo de desenvolvimento marcado pelo capitalismo racista e patriarcal, que promove a degradação da natureza, dos territórios e dos povos. Essa lógica predatória, focada na acumulação desenfreada de dinheiro, foi responsável pela destruição de biomas, pela poluição do ar e das águas, pela extinção de diversas espécies de plantas e animais e, enfim, pelo colapso climático que vivemos hoje.
Percebemos que nós mulheres compartilhamos desafios em comum nas diferentes regiões de Pernambuco. O Porto de Suape, as grandes construtoras na RMR, os condomínios e resorts no litoral, a agropecuária na Zona da Mata, as usinas eólicas e solares, a mineração na Chapada do Araripe e em Conceição das Crioulas, o polo têxtil no Agreste e o polo gesseiro no Sertão… Todos esses megaempreendimentos, que muitas vezes são promovidos pelo capital estrangeiro, prometem renda e emprego, mas na verdade enganam a população, expulsam comunidades de seus territórios e interditam os nossos modos de vida. A riqueza que é gerada não é distribuída para nós. Além disso, grandes obras geram o aumento exponencial da circulação de homens e caminhoneiros, o que, por sua vez, se reflete no recrudescimento da violência e exploração sexual de meninas e mulheresnessas regiões.
Enquanto isso, essas empresas poluem cada vez mais os rios, o ar, espalham veneno com drones nas nossas plantações e desmatam as florestas, o que atinge a fauna, a flora, e também a nossa saúde, porque provoca adoecimento físico e mental. Na nossa perspectiva, os bens comuns – o ar, a água, a terra – deveriam ser direitos acessados por todos, em equilíbrio com o resto da natureza. Entretanto, o que vemos é a transformação desses bens em mercadorias, em ativos que podem ser comprados na bolsa de valores. Somos contra a financeirização da vida e do meio ambiente!
Outro ponto que percebemos enquanto conversávamos é que sobre nós mulheres, em especial as mulheres negras, indígenas e empobrecidas, recai o maior fardo do sistema capitalista racista e patriarcal, que é um grande monstro de três cabeças. Em contextos de múltiplas crises, incluindo a crise socioambiental como uma faceta da crise econômica, política, cultural e subjetiva que vivemos hoje, somos nós as mais afetadas. Por exemplo, notamos que, do litoral ao Sertão do Araripe, a água não chega para todas as pessoas. Vimos que enquanto grandes fábricas gastam quantidades absurdas de água e os prédios perfuram poços artesianos ilegais que contaminam os lençóis freáticos, a maioria de nós vive o racionamento hídrico. A água é uma questão política e de justiça social. E quando falta água na torneira, somos nós mulheres que precisamos caminhar longas distâncias, acordar de madrugada para encher tonéis ou colocar baldes para captar água da chuva. Essa sobrecarga física e psicológica acontece por causa da divisão sexual e racial do trabalho, que faz com que o trabalho doméstico, de cuidados e de reprodução da vida cotidiana não seja distribuído igualmente entre as pessoas da família, o Estado e a sociedade como um todo.
Conversamos sobre como a crise climática chegou num contexto que já era desigual e injusto. Vimos que, no estado inteiro, o nosso trabalho está cada vez mais informal e precarizado, desde a costura no Agreste até a pesca artesanal no litoral e Sertão, que é atingida pela poluição dos rios. Nos sentimos cada dia mais estafadas com o trabalho doméstico e de cuidados, que aumenta quando não existem creches e quando fecham as escolas rurais – ou seja, quando as políticas públicas não funcionam. As condições de moradia também são desiguais em todas as regiões de Pernambuco. Percebemos que em vários locais fomos expulsas dos nossos territórios e empurradas para áreas de risco, seja por conta dos aluguéis que aumentam devido à especulação imobiliária, seja por causa da instalação de usinas eólicas e solares, da mineração ou do agronegócio que invade nossas terras.
Sendo assim, quando as mudanças climáticas provocam fortes chuvas ou secas mais intensas, isso não atinge todo mundo da mesma forma. Por exemplo, as inundações e deslizamentos de terra todo ano provocam a morte de inúmeras pessoas no estado. Se nos perguntamos quem são as pessoas diretamente afetadas por esse problema, rapidamente notamos marcadores de classe, raça e gênero que nos revelam o peso dos sistemas de opressão na forma como a população pernambucana vivencia as chuvas. Enquanto para uns as precipitações causam, no máximo, transtorno no deslocamento e trânsito; para outros, uma tempestade pode custar a própria vida. Mais uma vez, as mulheres negras, maioria nas periferias, são as mais prejudicadas.
Diante da crise climática, surgem várias iniciativas do setor privado que dizem que vão resolver o problema e se intitulam “capitalismo verde”. Entretanto, vimos que essas propostas são enganosas e reforçam as injustiças socioambientais, como é o caso da transição energética. Sabemos que precisamos diminuir a emissão de carbono, e a energia eólica e solar são opções que podem ser sustentáveis e menos agressivas para o meio ambiente. Entretanto, as usinas eólicas e solares têm se instalado através da retirada de populações de seus territórios, onde se torna impossível de viver por causa do barulho constante de turbinas e do calor gerado pelas placas solares. Até os animais migram para outros locais, enquanto as terras são desmatadas e se tornam improdutivas. Para piorar, essa energia toda não é produzida para quem mora aqui, que continua pagando contas caras. O transporte da energia pro Sudeste e Sul do país depende de torres de transmissão, que são construídas atravessando terras indígenas e quilombolas e causam danos no solo e para a população.
Não paramos na constatação dos problemas. Entendemos que as desigualdades de gênero, raça e classe não são fatos da natureza. Nós mulheres não somos apenas vítimas da crise socioambiental: somos protagonistas da resistência e da transformação, defendendo nossos territórios e construindo alternativas para uma sociedade que valorize a vida acima da exploração. Diante da desresponsabilização do Estado no enfrentamento das injustiças socioambientais e do avanço do setor privado predatório, nós respondemos e continuaremos a responder com luta! Em Monte Verde, em Passarinho, em Vitória, em Palmares, as quilombolas em Conceição das Crioulas, nos territórios indígenas, em Caetés, as costureiras em Caruaru, as pescadoras no litoral e no Sertão… enfim, as mulheres em cada canto desse estado. Percebemos que somos nós, militantes feministas e os movimentos sociais que construímos, que possibilitamos o fortalecimento de redes de solidariedade, a denúncia das injustiças e a luta por direitos.
A agroecologia foi trazida como um projeto político de enfrentamento do agronegócio, a partir de uma perspectiva feminista antissistêmica. Por um lado, a monocultura focaliza a exportação dos produtos agrícolas, promovendo a criação de desertos verdes, desmatamento, degradação do solo e da água e insegurança alimentar. Já a agroecologia preza pela circularidade e diversidade de espécies – o que ajuda a manter a qualidade da terra – e pela economia solidária, pela valorização e autonomia do trabalho das mulheres e dos quintais produtivos. Outra estratégia que tem sido utilizada pelos movimentos de luta por moradia, como o MTST, são as cozinhas solidárias, que promovem a distribuição de refeições nas comunidades. Iniciativas como essas, construídas pelos movimentos sociais, provocaram o Estado e se tornaram política pública no âmbito federal. Isso mostra a centralidade da organização coletiva na transformação da vida. Ainda assim, precisamos continuar a luta pela ampliação de direitos. Nesse sentido, também apareceram propostas relacionadas à mobilidade urbana que, através da Coalizão Triplo Zero, têm incidido em projetos legislativos para reformular o transporte público no Brasil.
Concluímos dizendo que as injustiças que enfrentamos em Pernambuco assumem formatos diferentes em cada território, mas estão conectadas com os problemas do mundo. Denunciamos que a crise climática é consequência do sistema capitalista racista e patriarcal. Portanto, a solução passa necessariamente por uma mudança radical da sociedade e pelo enfrentamento desse modelo de desenvolvimento. Apresentamos outro projeto político, que se opõe à lógica predatória dos megaempreendimentos, porque entende que a natureza não está apartada da nossa vida. Através do feminismo popular, propomos a defesa do bem viver, a responsabilização do Estado e das empresas pelo enfrentamento da emergência climática, o compartilhamento e o direito aos bens comuns, em consonância também com as necessidades do restante da natureza. Nós mulheres, já estamos adiando o fim do mundo faz tempo. Convidamos todas a continuarem o debate em seus movimentos, pensando estratégias coletivas e fortalecendo a luta por justiça socioambiental!



