A jornalista e militante feminista vem à Recife para lançar seu livro Contos da Cela 3, que traz de maneira lúdica, histórias do tempo de presa política durante a ditadura militar

No próximo dia 26 de março, a partir das 19h, o SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, inicia a programação de 2025 das Ações Culturais Feministas. Para abrir os trabalhos, vamos começar trazendo para o centro do debate o tema Feminismo e Democracia, com a presença de Maria Amélia de Almeida Teles, importante militante feminista da luta pelos direitos civis do Brasil.
Amelinha Teles é jornalista e escritora e segue sendo um importante nome na resistência diante o fascismo que persiste em rondar a democracia brasileira. Em tempos de debate intenso em todo o Brasil para evitar a anistia dos golpistas do 8 de janeiro de 2022, receber Amelinha Teles na sede do SOS Corpo é reafirmar que os tempos de autoritarismo não acabaram e que relembrar a história da ditadura militar brasileira é manter viva a memória daquelas e daqueles que lutaram até o fim para assegurar um projeto democrático no país.
A Ação Cultural Feminsita – Memórias e Insurgências Feministas será uma noite para celebrar a memória e para aprofundar perspectivas sobre a democracia, direitos das mulheres, processos organizativos e de atuação dos movimentos feministas, com o objetivo de ampliar esse horizonte democrático que vislumbramos e lutamos diariamente para manter.
Além do lançamento do livro Contos da Cela 3 – memórias de uma presa política na ditadura, de Amelinha Teles, também teremos o lançamento de duas recentes publicações das Edições SOS Corpo: Crítica Feminista Radicalizando a Democracia, de autoria coletiva de pesquisadoras do Instituto e Conectando Organização e Atuação Feministas, de Carmen Silva e Silvia Camurça.
Sobre os livros:
Contos da Cela 3 – memórias de uma presa política na ditadura

Lançado em 2024 e co-publicado pelas editoras Ema Livros e Timo, Contos da Cela 3 é um livro que resgata as memórias de Amelinha Teles na época que em que foi presa política, torturada e estuprada nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo entre os anos de 1972 e 1973. Seus dois filhos pequenos, de 4 e 5 anos, foram sequestrados na época e foram obrigados a presenciar a tortura que os pais sofreram pelos agentes da repressão. Como sobreviver aos horrores da prisão e da tortura? Escrevendo e imaginando. Como lidar com as saudades que sentia dos filhos na prisão? Escrevendo e imaginando. O que oferecer a crianças tão pequenas que passaram por uma experiência terrível e que sentiam a falta da mãe que ficou presa? Histórias que elas fossem capazes de entender.
Valendo-se da escrita e de sua capacidade admirável de imaginar – própria daquelas pessoas que lutam por um mundo melhor –, foi pelo lúdico que Amelinha atravessou os momentos mais difíceis de sua vida. As primeiras histórias foram escritas em pedacinhos de papel amassados e contrabandeados entre as celas e posteriormente extraviados. Nas visitas e depois de sair da prisão, as histórias foram contadas às crianças e para sempre preservadas na memória de Amelinha e de sua família. Entre 2022 e 2023, Amelinha, com encorajamento da família e de amigos, resgatou as histórias da prisão e, com toda sensibilidade, escreveu os Contos da Cela Três – memórias de uma presa política na ditadura.
O livro trata com fluidez temas complexos, do autoritarismo à relação entre crianças e pais aprisionados, da impotência diante dos algozes a preconceitos que continuam a assombrar o horizonte. A linguagem e a narração dos contos, no entanto, fazem com que assuntos tão difíceis sejam desenvolvidos com clareza, até mesmo com uma certa leveza. Um dos trunfos de Contos da Cela Três é tratar com saudável deboche as figuras que encarnavam a repressão no mundo real.
A autora irá disponibilizar livros para venda durante o evento.
Conectando Organização e Atuação Feministas

O que mais perturba a ordem dos opressores é exatamente a maior fonte de força dos oprimidos: sua organização e atuação na política. Com essa compreensão que Carmen Silva, socióloga e educadora que integra o coletivo político-profissional SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia e Silvia Camurça, educadora popular, ambas militantes do Fórum de Mulheres de Pernambuco e organizadas na Articulação de Mulheres Brasileiras, trazem nesta publicação perspectivas e elaborações fundamentais para o fortalecimento de movimentos, redes e coletivos feministas no Brasil.
O feminismo, segundo as autoras, é essa perturbação à ordem opressora, chama que incendeia as injustiças do patriarcado racista e capitalista. A publicação conecta o feminismo como movimento social à esforços individuais e coletivos para mover as mulheres na defesa de direitos, da democracia e na transformação do mundo, ao mesmo tempo em que constroem a si mesmas. É o feminismo que está presente nos movimentos sociais de mulheres, nos coletivos locais e virtuais, no trabalho social com mulheres feito por organizações mistas quanto ao sexo, não governamentais, nas secretarias de mulheres de sindicatos, federações e centrais sindicais, nos partidos de esquerda, núcleos acadêmicos entre outros movimentos nos quais as mulheres se organizam.
A partir dessa perspectiva, o livro Conectando Organização e Atuação Feministas, foca nas organizações, articulações e atuação coletiva feminista para enfrentar o sistema que explora e domina as mulheres, a partir de princípios orientadores como a dimensão da autonomia, da autocrítica, do cuidado coletivo e da horizontalidade, para citar alguns. Assim, a publicação se propõe a contribuir para a construção de pontos de partida e de uma linguagem que aproxime as diferentes formas de organização e atuação dos movimentos feministas a partir de parâmetros comuns e que possam fortalecer a ação coletiva dos movimentos sociais para pôr fim às desigualdades e organizar o mundo de forma solidária.
Exemplares da publicação serão distribuídos gratuitamente durante a Ação Cultural Feminista.
Crítica Feminista Radicalizando a Democracia

A publicação reúne artigos que foram aporte de educadoras do SOS Corpo no curso “Espiral: Feminismo, poder e participação política”, atividade pedagógica do Instituto, realizada em maio de 2023. As elaborações partem da compreensão feminista da democracia, entendendo que isso não diz respeito somente à mais participação das mulheres na política institucional, mas que está intimamente atrelada ao pressuposto de que a democracia envolve também aspectos sociais e políticos da vida cotidiana, como a redistribuição do trabalho reprodutivos, justiça reprodutiva, direito a uma vida livre de violência, justiça socioambiental, direitos à moradia digna e condições justas para se viver as cidades, por exemplo.
O livro Crítica Feminista Radicalizando a Democracia reforça que não é possível pensar sobre democracia e sobre os direitos políticos das mulheres, dissociado da reflexão sobre como os aspectos sociais e econômicos determinam as condições de vida das mulheres, especialmente as empobrecidas, negras, indígenas e LBTs. O objetivo da publicação é contribuir para fazer avançar as reflexões e os aprendizados coletivos que tragam força para o enfrentamento da conjuntura e para a transformação social.
São autoras dos artigos Betânia Ávila, Natália Cordeiro, Carmen Silva, Rivane Arantes e Mércia Alves, educadoras e pesquisadoras integrantes do coletivo político profissional do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia.
O lançamento dos livros será seguido de debate com a presença das autoras Amelinha Teles, Carmen Silva, Silvia Camurça, com mediação de Natália Cordeiro. A Ação Cultural Feminista do SOS Corpo acontece no dia 26 de março, quarta-feira, a partir das 19h. Aguardamos vocês.