Escolha bem sua representação no Parlamento

No seu mais recente artigo para a Marco Zero Conteúdo, Carmen Silva fala da oportunidade de avançar no enfrentamento à sub-representação no sistema político brasileiro, no próximo dia 2 de outubro, ampliando a representatividade das mulheres, negros/as, povos indígenas, juventudes e de quem vive do trabalho e não do lucro, ou seja, “colocar as maiorias do povo brasileiro representado no Parlamento”.

Remígio, 12 de março de 2019. Marcha das Margaridas em Remígio, Paraíba. Na foto Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Remígio nos preparativos para a Marcha das Margaridas que acontecerá no dia 14 de março, em homenagem a Marielle Franco. O tema central da marcha de 2019 é racismo. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo

No seu mais recente artigo para a Marco Zero Conteúdo, Carmen Silva fala da oportunidade de avançar no enfrentamento à sub-representação no sistema político brasileiro, no próximo dia 2 de outubro, ampliando a representatividade das mulheres, negros/as, povos indígenas, juventudes e de quem vive do trabalho e não do lucro, ou seja, “colocar as maiorias do povo brasileiro representado no Parlamento”.

Poster em homenagem à vereadora pelo PSOL do Rio de Janeiro Marielle Franco, assassinada em 2018. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo

Por Carmen Silva

Neste 2 de outubro poderemos avançar no enfrentamento da sub-representação no sistema político brasileiro? Sim, porque além de eleger o presidente Lula e por fim nos tempos tenebrosos que vivemos, precisamos ampliar a força política e a representatividade das mulheres, negros/as, povos indígenas, juventudes e de quem vive do trabalho e não do lucro, ou seja, colocar as maiorias do povo brasileiro representadas no Parlamento. Porque é tão importante escolher bem as/os parlamentares que vão nos representar? Simples, para que realmente nos representem. Razão pela qual hoje vou convidar a pensarmos juntas sobre a importância da eleição de deputadas estaduais e federais, e porque devemos escolher entre aqueles e aquelas que são oriundos dos movimentos sociais.

Nós, mulheres, somos 52,7% do eleitorado, mas de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral – TSE, nas eleições de 2020 foram eleitas apenas 12,05% de prefeitas e 16,52% de vereadoras. Nestas mesmas eleições, entre os prefeitos eleitos, somente 32% se declaravam negros. Apesar de sermos a maioria do eleitorado, nós mulheres ocupamos apenas 15% das vagas na Câmara dos Deputados e apenas 12% das vagas no Senado e nenhuma delas é negra. Agora em 2022, ainda segundo o TSE, 178 indígenas são candidatos aos cargos em disputa, o que significa 0,63% dos candidatos. Estes são simples exemplos da sub-representação no nosso sistema político dos segmentos sociais que constituem o povo brasileiro.

O Senado, embora seja a câmara alta do Parlamento federal, é eleito de forma majoritária, ou seja, cada estado da federação tem seus representantes nesta Casa escolhidos pelo eleitorado de forma independente da proporção de eleitores em cada estado. É usado o mesmo método da eleição para o Poder Executivo: majoritário, igual à eleição de governador/a. Significa que uma unidade da federação que possui um pequeno número de eleitores tem o mesmo número de senadores de outra unidade que tem dez vezes mais. Além disso, os/as senadores/as tem 8 anos de mandato, com mudança de parte da turma em cada eleição, o que faz com que este ano cada estado eleja apenas uma pessoa para o Senado, com sua suplência. Já o voto para eleger deputadas é contado de maneira proporcional e a quantidade de vagas é equivalente à quantidade de votantes naquele estado.

Às senadoras e senadores cabe processar e julgar os crimes de responsabilidade de ministros do Supremo Tribunal Federal, de membros do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público, do Procurador-Geral da República e da Advocacia-Geral da União. Além disso, cabe ao Senado avaliar a escolha de pessoas que irão ocupar cargos como os de ministros de tribunais superiores, como do Supremo Tribunal Federal. Mas a sua missão cotidiana é revisar as decisões legislativas da Câmara dos Deputados, tarefa, a meu juízo, desnecessária numa República democrática.

As deputadas e deputados federais atuam na Câmara, em Brasília, e tem como responsabilidades propor, discutir e aprovar leis, que podem alterar até mesmo a Constituição, são as famosas PECs – Propostas de Emendas à Constituição. Além disso, aprovam ou não as medidas provisórias, propostas pelo Presidente da República, e o Orçamento Público, que diz para onde vão ser destinados os recursos arrecadados com os impostos que pagamos. Além de legislar, outras funções são fiscalizar e controlar as ações do Poder Executivo. Para isso, conta com o Tribunal de Contas da União (TCU), órgão responsável por avaliar a aplicação dos recursos públicos. Parlamentares federais também podem solicitar informações a órgãos do governo e aos ministros, que são obrigados a prestar explicações.

A deputada estadual tem funções muito semelhantes, só que no âmbito de cada unidade da federação. As principais tarefas são legislar, ou seja, criar leis, definir o orçamento do estado e fiscalizar a atuação do chefe do Executivo. Nesta campanha, se, por acaso, você escutar que uma das propostas da candidatura é construir mais escolas, saiba que isso não é competência de quem vai ocupar a Assembleia Legislativa, portanto, é uma tentativa de iludir o eleitorado. Agora, se a proposta for criar lei para aumentar o número de creches nos distritos com mais de 10 mil habitantes, sim, isso é possível, basta que a parlamentar proponha um Projeto de Lei – PL e consiga aprovar.

Na Assembleia Legislativa, assim como na Câmara dos Deputados, primeiramente, os projetos são discutidos nas comissões permanentes e só depois eles são enviados para debates e possível aprovação no Plenário. Uma delas é a Comissão de Constituição e Justiça, onde é analisado se o projeto não desrespeita princípios da legislação estadual ou federal, e ele é aprovado ou rejeitado. No caso de rejeição, a tramitação para aí, no caso de aprovação pode ir para alguma comissão específica do tema e, se aprovado, para o plenário para ser decidido por todos os deputados e deputadas. No dia da votação, inclusive, é preciso que haja um número que corresponde a um terço de todos os deputados eleitos para que tenha quórum e aconteça a votação, e que a proposta ganhe apoio da maioria, para ser aprovada. Em todos esses espaços é necessário segurar o debate com fortes argumentos, fazer muita articulação política e também contar com grande pressão popular, ou seja, não é uma missão tão simples quanto parece. Portanto, é preciso escolher parlamentares comprometidas com as nossas lutas, com disposição e muitos posicionamento políticos nítidos para enfrentar estas disputas.

A deputada estadual deve estar ciente de que seu papel também é fiscalizar o Poder Executivo, ou seja, o governador/a e os secretários/as estaduais. Isso acontece através de pedidos de prestação de contas e fiscalização de ações administrativas. Existe também a possibilidade de criação das Comissões Parlamentares de Inquérito – CPIs, que nada mais são do que comissões de parlamentares para investigar possíveis ilícitos na administração, além de receber denúncias e encaminhar processos em caso de crime de responsabilidade cometido pelo/a governador/a do estado.

Disse tudo isso para chamar atenção para a tarefa de escolha de nossas/os representantes no parlamento estadual e federal. Como é sabido, o voto no Brasil é nominal misto. Você vota em uma pessoa, e todos os votos dela serão somados com os votos dos outros candidatos do seu partido ou federação partidária, e se atingir o coeficiente eleitoral (um valor baseado no número de votos válidos), a pessoa mais votada é eleita. A segunda eleita depende da sobra, considerando que outro partido também atingirá o coeficiente e elegerá uma primeira. E assim, sucessivamente.

Tem gente que pensa que votar em quem já tem uma candidatura forte não ajuda muito, mas, dependendo da circunstância, pode ser o contrário. A votação de esquerda para o Parlamento quando é mais dispersa pode fazer com que nenhuma das candidaturas daquela linha política seja eleita. Serve, todavia, para marcar posição e indicar possibilidades em disputas futuras. Daí ser uma decisão, e uma aposta, difícil, quando temos muitas candidaturas representativas de esquerda.

Você pode votar em alho e ajudar a eleger bugalho. Daí a importância de você escolher não apenas o/a candidato/a, mas também o partido e/ou federação ao qual a pessoa está vinculada e qual é o programa que esta agremiação defende. Isso significa que votar na esquerda, em um programa de defesa de direitos, não é apenas uma escolha de uma pessoa a eleger, seja para deputada/o ou para governadora/o, mas também significa escolher a posição política do partido ao qual ela pertence no momento. Escolher quem tem vínculo com as lutas populares por direitos, quem é indicada pelos movimentos sociais que tocam estas lutas, é uma garantia de estar do lado certo da história.

Na eleição para governador/a temos o instituto de dois turnos. Isso facilita muito a tomada de decisão. No primeiro turno você pode escolher com a firmeza de sua posição política, isto é, quem comunga da sua visão de mundo ou mesmo pertence a uma força política que você quer fortalecer, mesmo que esta pessoa não vá ser eleita. E, no segundo turno, que tem caráter plebiscitário, você pode escolher a proposta menos ruim, que mesmo estando em um partido mais à direita se posicione o mais longe possível do bolsonarismo, que receba apoios do centro e da esquerda e assim possa compor um governo mais ao centro, mas suscetível à pressão das demandas populares.

Carmen Silva é socióloga, constrói o SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, é militante do Fórum de Mulheres de Pernambuco e da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.

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