As periferias tem o direito de se proteger do coronavírus

O Estado deve tomar medidas urgentes para garantir água para todos

Com a intensificação dos casos do novo coronavírus em Pernambuco e o início da transmissão sustentada no Estado, a Articulação Recife de Luta vem a público cobrar ações efetivas do Governo do Estado frente ao desabastecimento de água imposto de forma contínua às populações das favelas e bairros de baixa renda na cidade do Recife e na Região Metropolitana. É rotina o grande número de dias sem água, esperando que o fornecimento seja retomado durante algumas horas, que são usadas para encher os recipientes disponíveis na casa. Através desta nota, reivindicamos a suspensão imediata do racionamento e a adoção de medidas específicas para que haja água na torneira de todas as casas nas periferias diariamente.

Essas regiões sofrem historicamente com graves problemas de infraestrutura básica, como falta de esgoto, moradia precária, adensamento excessivo e falta de água. Essa falta de água não é por coincidência: o estado pratica uma priorização territorial de quem recebe água na torneira todos os dias e quem passa até 10 dias sem água em casa. Enquanto os bairros ricos da cidade sequer sabem que o racionamento existe, as famílias pobres pelejam todos os dias para guardar água em casa e distribuir seu uso na rotina de lavar prato, roupa, limpar a casa, tomar banho e dar descarga. Paratibe, em Paulista, recebe água 01 vez por semana, assim como Ouro Preto, em Olinda.  Em Igarassu, nenhum bairro recebe fornecimento de água constante, a Saramandaia, por exemplo, chega a passar 10 dias sem receber água. Na Ilha de Deus, no Recife, já faltou água por 6 semanas. A UR2 está há 15 dias sem água. O Alto da Bela Vista já regista 02 meses sem receber água.

“No calendário da Compesa, eles dizem que Paratibe recebe água a cada dois dias, mas na realidade a gente passa 10 a 15 dias sem receber água”, relata Núbia Lima, moradora de Paulista. É inadmissível que o Estado continue praticando o racionamento de água nas periferias ao mesmo tempo em que recomenda à população um cuidado redobrado com a higiene para evitar a propagação do COVID-19. Esse desabastecimento se dá também através do não-fornecimento de carros-pipa em locais onde a Compesa está realizando obras ou onde os sistemas são isolados. A manutenção do racionamento e do desabastecimento está colocando em sérios riscos nossa população mais vulnerável. A mesma população que não tem condições de trabalhar de casa ou de parar de trabalhar, pois depende do dinheiro de cada jornada para garantir o seu sustento e de sua família, e que sofre as consequências da falta de estrutura urbana na saúde, com inúmeros casos de tuberculose, pneumonia e outras doenças respiratórias altamente concentrados nestas localidades.

Para além de interromper o racionamento de água, é essencial que se exija que a COMPESA não suspenda o fornecimento de água por falta de pagamento. Essa conta é uma responsabilidade do Estado, que precisa garantir que a população tenha os meios para se prevenir do COVID-19 e diminuir o impacto da pandemia nas favelas. Nos casos em que o fornecimento está interrompido para manutenção do sistema de abastecimento, o Estado precisa garantir o abastecimento por carros-pipa, ação que pode ser simplificada com a criação de um aplicativo específico da Compesa para que as comunidades possam registrar e acompanhar a solicitação.

Articulação Recife de Luta, 19 de março de 2020.

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