Representante de PPM conhece ações do SOS Corpo

Nos dias 12, 13 e 14 de março, o SOS Corpo recebeu Zélia Feitosa, representante da agência de cooperação internacional Pão Para o Mundo (Bröt die Welt), que conheceu de perto as ações do Instituto.

Fran Ribeiro

Nos dias 12, 13 e 14 de março, o SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia recebeu em sua sede na cidade do Recife, capital pernambucana, a visita de Zélia Feitosa, representante da agência de cooperação internacional Pão Para o Mundo (Bröt die Welt). 

Agência ligada ao Ministério Federal da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento da Alemanha (BMZ), Pão Para o Mundo (PPM) é uma organização que integra a política para o desenvolvimento de ações em países parceiros do Sul Global, com foco em sustentabilidade, redução de desigualdades e transformação social. PPM financia organizações que focam ações de defesa de direitos humanos, justiça socioambiental, direitos das mulheres e meninas, populações LGBTQIAPN+ e povos tradicionais, sobretudo da América Latina e África, mas também em países do Norte Global. 

A visita de Zélia Feitosa veio para reafirmar uma parceria de anos entre o Instituto e PPM, que financia parte da ação institucional do SOS Corpo, com aporte de recursos para a execução de nossas práticas de trabalho em educação, pesquisa, comunicação e ação política junto a movimentos sociais diversos e organizações da sociedade civil parceiras. O foco das nossas ações está, principalmente, no fortalecimento da ação política do movimento feminista na luta por direitos das mulheres. Nossa atuação é marcada pelo diálogo e construção junto a movimentos que fazem a luta em territórios da Região Metropolitana do Recife, outras regiões do estado de Pernambuco, a nível nacional e na América Latina e Caribe. 

Ação Cultural Feminista: espaço de diálogo e fomento de ideias 

Na noite do dia 12 de março, a representante de PPM pode participar do debate da Ação Cultural Feminista (ACF), uma atividade e espaço de ação política-cultural do SOS Corpo. É através das ACFs que aportamos discussões que impactam a vida cotidiana da cidade e ampliamos a perspectiva feminista antissitêmica em diálogo com um público mais alargado. A ACF daquela noite marcou o lançamento do livro de poemas À Mente que Sabe, de uma das artistas negras multilinguagens mais proeminentes da cena cultural de Recife, Bell Puã. 

Público lotou a sede do SOS Corpo na primeira Ação Cultural Feminista de 2026. Foto: Fran Ribeiro/SOS Corpo

A noite foi de um diálogo afetuoso sobre feminismo antirracista, literatura, escrita de mulheres negras e escrevivências que caracterizam as experiências de mulheres diversas, marcadas pela raça e pelo racismo nas relações sociais e interpessoais. Leia mais sobre aqui: ACF tem diálogo sobre literatura, feminismo antirracista e escrita de mulheres negras

Reunião com a equipe do SOS Corpo e análise da conjuntura do Brasil e Alemanha

Na sexta-feira, dia 13 de março, aconteceu uma reunião entre a representante de PPM com a equipe técnica do SOS Corpo. Foi um momento de integração, apresentação e boas vindas, seguida de duas rodadas de análises de conjuntura, uma com foco na conjuntura política do Brasil e os desafios para o feminismo e a outra, sobre a situação da conjuntura na Alemanha e os desafios para a cooperação internacional diante do cenário geopolítico.

Foram compartilhadas as preocupações sobre o contexto de intensificação da ação da extrema-direita e os riscos de ascensão do fascismo no Brasil diante do ano eleitoral, o aprofundamento da violência contra as mulheres e o discurso de ódio antifeminista nas redes sociais, parlamentos e os efeitos sobre a vida. Análise avaliou ainda os assédios e violações que o governo Trump tem infligido na América do Sul e que ameaçam a estabilidade da região, como os ataques à soberania da Venezuela e os interesses sobre as Terras Raras no nosso país. 

Da Europa, especialmente da Alemanha, o cenário é de preocupação também com o avanço da extrema-direita, a crise do estado de bem-estar social no continente, o impacto na economia proveniente num momento de guerras, que tem provocado uma redução de recursos das agências e que pode representar riscos para a política de cooperação internacional e para a continuidade do financiamento de projetos em países parceiros, como o Brasil. 

A crise democrática que atinge os dois países está marcada pelo acúmulo de força numa nova quadra de crise do sistema capitalista, impulsionada pela tensão geopolítica, ascensão do regime fascista e da política da extrema-direita em diferentes continentes do mundo. A rodada de análise de conjuntura foi um momento de compartilhar e analisarmos juntas ambos contextos, as implicações para a política de cooperação internacional e o lugar da perspectiva feminista como princípio nas agências diante da conjuntura. 

A visita da oficial de programa de PPM ao SOS Corpo foi a oportunidade de termos acesso a análises externas sobre esse contexto do mundo, as preocupações sobre o que acontece na Europa e dos impactos para a relação com organizações do Sul Global, que são apoiadas por agências de cooperação que captam recursos de países daquele continente. Para Rivane Arantes, da Coordenação Colegiada do SOS Corpo, além de estreitar relações, a vista possibilita uma visão mais ampliada sobre o que acontece lá, mas também de saber que há preocupações externas sobre o que se passa no Brasil. 

“A importância desta visita para o SOS Corpo foi para nos ajudar a situar, a partir da perspectiva de quem mora e trabalha na Alemanha, do que está acontecendo na Europa. Saber um pouco da realidade, uma vez que avança a extrema direita e a sociedade está, inclusive, numa perspectiva de se tornar mais fascista, já que as eleições por lá estão com o forte indício da possibilidade de vitória da extrema direita. Mas ao mesmo tempo, apesar do cenário de tensão e riscos que podem impactar a política de cooperação em um contexto de crescimento de políticas anti-gênero, da misoginia e do discurso antifeminista por aqui e por lá, é alvissareiro saber que há, por parte da agência Pão para o Mundo, um reforço de implementação e ampliação de sua política de gênero, no momento que se aprova um capítulo que trata da questão LGBTQIA+. Diante desse contexto do mundo, haver um reforço da política de gênero de uma organização de cooperação, mesmo que ela esteja com menos recurso do que tinha antes para financiar, é um bom sinal e a gente espera que haja impactos por aqui”, disse a coordenadora de relações institucionais do SOS Corpo. 

Encontro entre organizações e movimentos parceiros apoiados por SOS Corpo com PPM

Já na manhã do sábado, 14 de março, o último dia da passagem de Zélia Feitosa pelo SOS Corpo, promovemos o encontro entre organizações e movimentos sociais parceiros que são apoiados de maneira direta e indireta pelas ações do Instituto, com a oficial de programa de PPM. 

O momento foi de olharmos para nossa atuação no fortalecimento da ação feminista em Pernambuco, da articulação com movimentos e organizações que atuam em âmbito nacional, dialogar sobre os desafios da luta no dia a dia e no enfrentamento ao contexto de aprofundamento da crise democrática, além de refletirmos coletivamente sobre o momento de crescimento da extrema-direita no mundo, os impactos da conjuntura para a democracia e na ação dos movimentos na luta por direitos. 

Estiveram presentes representantes da Casa da Mulher do Nordeste, Grupo Curumim, GTP+,  Sindoméstico/PE, Fórum de Mulheres de Pernambuco, Coletivo Mulher Vida, MTST, RENFA, Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Articulação Nacional das Pescadoras, Espaço Mulher de Passarinho, Cooperativa Costurando Moda com Direitos, Coletivo Mangueiras, AMAS LGBT e Coletivo Juremas. 

Com um mapa do Brasil e de Pernambuco no quadro, a coordenação do SOS Corpo, que mediou a roda de conversa “nós e nossas lutas”, conduziu uma visualização para que Zélia pudesse entender um pouco mais sobre onde se localizam as atuações e quais as lutas que cada movimento e organizações presentes fazem em seus territórios.  

Direitos sexuais e direitos reprodutivos, acesso à direitos básicos, reconhecimento e regulamentação profissional, direito à cidade, justiça socioambiental, econômica e climática, direitos trabalhistas, proteção social, enfrentamento a violência contra as mulheres, luta pelo fim do feminicídio, lesbocídio e transfeminicídio, enfrentamento ao racismo, ao fundamentalismo e ao racismo religioso, política de drogas e redução de danos, são algumas das pautas e lutas que os movimentos e organizações constroem no cotidiano nos territórios. 

Cada representante pode apresentar seu movimento ou organização, falar sobre as lutas, apontar quais os principais desafios para a efetivação das conquistas e avanços na busca de direitos. Foi o momento onde também falaram sobre a relação com o SOS Corpo, tudo, aos ouvidos atentos da oficial de programa de PPM. 

“Acho que é um desafio muito grande, porque as cidades não são feitas para mulheres, principalmente mulheres negras, mulheres trans. Acho que as pessoas que circulam na cidade tratam o nosso corpo como algo público, são quase colonizadores, querendo botar várias bandeirinhas nos nossos corpos, em forma de violência, de querer mandar, ter algum domínio sobre a gente, isso em todos os territórios. E também tem o desafio da reconstrução do país. O governo Bolsonaro foi um governo que tirou muito das mulheres, diminuindo recursos e políticas públicas voltadas para nos atender. Isso interfere justamente dentro dos territórios mais fragilizados”, destacou Paloma Luna, militante do MTST.

“O Fórum de Mulheres de Pernambuco é um movimento feminista, antipatriarcal, antirracista, anticapitalista que já tem mais de 35 anos. O movimento se pauta a partir de várias lutas, uma delas é a por justiça reprodutiva, por autodeterminação reprodutiva e direitos sexuais e reprodutivos. Atuamos muito fortemente também no enfrentamento à violência contra as mulheres, nós temos presenciado não só na região metropolitana de Recife, nem só em Pernambuco e nem só no Brasil, mas em vários lugares do mundo, o aumento dos feminicídios, uma violência extrema muito associada ao avanço neoliberal e também a discursos extremamente misóginos. Um dos desafios diante desse contexto de avanço neoliberal, é a questão do engajamento. Enquanto movimentos sociais feministas, por um lado temos visto o aumento do uso da palavra feminista, sobretudo na internet, mas ao mesmo tempo, a gente tem tido dificuldade para mobilizar e manter vivo e orgânico o movimento feminista popular. E sem financiamento, as ações para o engajamento se limitam e limitam a ação do movimento feminista em defesa da democracia”, analisou Bruna Lira, militante do FMPE. 

“Eu acho que o SOS Corpo tem um papel importante, porque ele serve de inspiração, de farol e de refúgio. É o lugar pra quando a gente tá desesperada e diz, ‘não sei o que fazer, vou lá perguntar’. São essas organizações que se eu não souber o que fazer, eu vou lá, sabe? Não quer dizer que se tem a resposta, mas pelo menos a gente pode se desesperar junta. Eu acho que isso é importante também pra gente poder lidar com situações complexas e aqui é esse lugar de diálogo”, destacou Priscila Gadelha, militante da RENFA. 

Para Zélia Feitosa, o momento de encontro com movimentos e organizações feministas parceiras do SOS Corpo possibilitou a visualização da diversidade do trabalho do Instituto, a forma como apoiamos o trabalho de base do movimento feminista, além dos múltiplos campos de luta que atuamos em diferentes territórios. 

“Foi interessante perceber a importância do SOS Corpo como um elo entre todos esses grupos e também do SOS Corpo ser um espaço aberto, não só para organizações da sociedade civil, mas também para grupos com atividades culturais, também com fundo político”, destacou a representante de PPM. 

Sobre o contexto de crise na cooperação internacional com as tensões geopolíticas, Zélia enfatizou que mesmo diante desse cenário, é importante que as agências de cooperação compreendam a importância de manter e ampliar os financiamentos para as ações por transformação social, sobretudo, diante de um momento onde a impressão é de que todas as conquistas das últimas décadas estão se desmoronando, no Brasil e em outros países parceiros de PPM. 

“Estamos enfrentando todos esses desafios. E estamos tentando achar soluções junto com vocês, para a gente desenhar novas estratégias e continuar o nosso trabalho, porque é justamente isso que as forças antiprogressistas querem. Que é enfraquecer o nosso trabalho e a gente não pode deixar que isso aconteça. Vamos achar caminhos e soluções”, afirmou. 

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