Nota de Repúdio à fala de Raquel Lyra sobre esterilização compulsória
No ultimo dia 20 de setembro, começou a ser veiculado um vídeo em que a candidata à reeleição ao governo de Pernambuco, Raquel Lyra do PSD, afirmava que uma mulher deveria ser esterilizada sem o seu conhecimento, nem consentimento numa maternidade do SUS.

No último dia 20 de setembro, começou a ser veiculado um vídeo em que a candidata à reeleição ao governo de Pernambuco, Raquel Lyra do PSD, afirmava que uma mulher deveria ser esterilizada sem o seu conhecimento, nem consentimento numa maternidade do SUS.
A fala da governadora não traz espanto para o movimento feminista. Ela revela um pensamento controlista e tutelador sobre o corpo das mulheres, sobretudo das mulheres negras e pobres que predominou durante todos os quatro anos do seu atual governo, pois não avançamos em termos de garantia dos direitos reprodutivos das mulheres no âmbito estadual e só não retrocedermos ainda mais por que nós, militantes feministas, estivemos atentas e aguerridas para barrar os retrocessos que a sua base governista tentou implementar no âmbito da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, com projetos que buscavam submeter mulheres que necessitavam do aborto legal a sessões de tortura psicológica.
Esta fala da governadora Raquel Lyra nos revolta, pois naturaliza a violência contra nós, mulheres, que temos nossos corpos violados e violentados pelos homens e pelo Estado. O mesmo discurso racista e patriarcal acionado pela governadora é o que também produz as violências obstétricas e violências domésticas contra nós, mulheres, e culmina com mortes maternas evitáveis e feminicídios que também poderiam ser evitados.
A política de esterilização compulsória é herança de um projeto político eugenista que teve muita força no período da ditadura civil-militar entre as décadas de 70 e 80 como política de Estado, focada na esterilização em massa de mulheres negras, pobres e indígenas no Brasil, que foi fortemente enfrentado pelo movimento feminista. Nós, do SOS Corpo surgimos neste contexto, para enfrentar este tipo de política que violava os direitos e a autonomia das mulheres. Por isso, viemos aqui reafirmar que este é um discurso antigo e o traço de uma perspectiva política fascista que marcou o desenvolvimento do país e que está presente na ideia e nas falas de políticos ligados à extrema-direita e ao fundamentalismo e que responsabiliza as mulheres pela pobreza e pela sua própria desgraça.
É absurdo que uma governadora, candidata a que se diz do lado das mulheres e que se coloca como defensora da maternidade não tenha garantido um amplo acesso ao planejamento reprodutivo das mulheres e das pessoas que gestam ao longo dos últimos quatro anos. Precisamos destacar que na região de Garanhuns onde ela fez esta fala absurda é uma região em que as mulheres tem uma baixa qualidade do pré-natal, muitas vezes tem o acesso negado aos serviços de parto pela falta de médicos disponíveis para o cuidado e os indicadores de morte materna mostram que os motivos das mortes de mulheres gravidas ou que morrem em decorrência de uma gravidez, parto ou aborto naquela região de saúde, tem relação com a falta de oferta de cuidado, chegando ao óbito.
Por isso, não basta ter um hospital bonito se não temos profissionais para cuidar das mulheres com qualidade.
Ou seja, se a governadora realmente fosse comprometida com o que diz ser, teria garantido a disponibilização de métodos contraceptivos a escolha das mulheres nas unidades de saúde, o acesso à educação sexual integral em todas as escolas da rede estadual e a ampliação de serviços de aborto legal em todo o estado para todas as mulheres e meninas que necessitarem. Planejamento reprodutivo se faz com políticas públicas articuladas de forma intersetorial, com centralidade no direito de escolha e não através de violência. A esterilização compulsória é violência contra as mulheres, com requintes de racismo e ódio de classe.
Mas, a pergunta que fica é: A quem serve o trabalho da governadora Raquel Lyra? Que mulheres ela representa e diz defender?
No âmbito do 28 de setembro, mês de luta pela Legalização do Aborto na América Latina e no Brasil, repudiamos a fala da candidata a reeleição ao governo do Estado de Pernambuco e reafirmamos a importância de votarmos em quem verdadeiramente defende a vida e os direitos das mulheres, meninas e pessoas que gestam.
Seguimos firmes na defesa da autodeterminação reprodutiva de todas as mulheres e pessoas que gestam para que não sejamos mais interrompidas, de nenhuma forma!
Recife, 21 de setembro de 2026
SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia



