SOS Corpo participa de reunião do Fórum de Participação Social com o Governo Federal
No da 24 de abril de 2026 o SOS Corpo participou de reunião com o Governo Federal, na ocasião do evento Governo do Brasil na Rua, onde o Fórum de Participação Social de Pernambuco foi convidado para dialogar sobre as políticas públicas federais com representantes da Secretaria Geral da República, Ministério do Desenvolvimento Social, Ministério da Igualdade Racial e do Governo do Estado de Pernambuco.

Desde a criação do Fórum de Participação Social de Pernambuco (FPS-PE), em 2025, o SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia o integra. O FPS-PE é uma instância criada pelo Governo Federal, a gerida pela pasta de Participação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República, para viabilizar a participação de movimentos sociais e sociedade civil na formulação, implementação e monitoramento de políticas públicas, promovendo a educação popular e a territorialização dessas ações. O Fórum está presente em vinte e seis estados e o Distrito Federal e é composto por diversos Movimentos Sociais, inclusive o Movimento Feminista.
Como parte das atribuições do Fórum está o diálogo direto com o Governo Federal e seus representantes, por isso no dia 24 de abril de 2026, durante o evento Governo do Brasil na Rua, nossa representante no FPS-PE, Lara Buitron, participou de uma reunião com representantes de diversos Ministérios e do Governo do Estado. A reunião teve como objetivo o diálogo e apresentação das políticas prioritárias para o conjunto do Fórum e quais as dificuldades que o FPS-PE tem enfrentado para viabilizar seu funcionamento pleno.
O SOS Corpo participou da construção de um documento, onde foi sistematizado os debates feitos dentro do FPS-PE, e foi instado para falar sobre o fim da escala 6×1 na reunião. Trazemos na íntegra o documento entregue ao Ministro Guilherme Boulos e a fala preparada por Lara Buitron, comunicadora e educadora do SOS Corpo, para a ocasião da reunião do Fórum de Participação Social no evento Governo do Brasil na Rua:
Nós, do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, integrante deste Fórum de Participação Social, sabemos e saudamos os esforços feitos pelo Governo Federal para o fim da escala 6×1 no Brasil, posicionando o Governo Lula ao lado dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. Gostaríamos de reafirmar que, segundo nossa Constituição Federal, todo cidadão brasileiro tem direito a uma vida digna e por isso é essencial que o Estado Brasileiro conceda as condições básicas para tal, incluindo não só os direitos sociais fundamentais citados na constituição, mas também o direito ao tempo. Toda a população brasileira deve ter direito ao tempo de descanso, ao lazer, à construção de sua subjetividade e do seu pensamento. Mas como isso é possível quando se vive apenas para o trabalho? A luta contra a escala 6×1 é uma luta por uma vida que seja, verdadeiramente, digna, é a luta pelo tempo.
A luta pela diminuição da carga horária de trabalho é uma das mais antigas lutas da classe trabalhadora, ela não é uma novidade. Porém, vivemos no Brasil um processo de precarização das condições de vida, do mercado de trabalho e, desde o golpe contra a Presidenta Dilma, dos direitos sociais e das políticas públicas. Apesar dos esforços do Governo Lula entendemos que nos últimos dez anos tivemos uma precarização geral das condições de vida e que, por isso, a luta por tempo se torna cada vez mais necessária.
A situação das mulheres é ainda mais grave, visto que existe uma jornada de trabalho intermitente, onde além da exploração do trabalho produtivo, ou seja, do trabalho que produz coisas e serviços que são pagos (ainda que mal pagos), também temos nosso trabalho reprodutivo explorado pelo capitalismo. É preciso que a reprodução da vida seja garantida para que o sistema possa permanecer, isso depende da força de trabalho das mulheres, trabalho esse que é invisibilizado e, quase sempre, não é remunerado (e quando agregado valor, é muito mal pago). Todas as mulheres deste país sabem muito bem que tipo de trabalho é, o trabalho reprodutivo é o trabalho de cuidar das crianças, idosos e doentes, de limpar a casa, de fazer a comida, lavar roupa. Sem estarem alimentados, sem roupa limpa, sem reposição de trabalhadores, o capitalismo não consegue produzir. Somos ensinadas desde criança que é esse trabalho faz parte da nossa natureza, porém sabemos que isso não é verdade e gostaríamos de reiterar que o patriarcado se apropria de nossa força de trabalho não remunerada para que o sistema capitalista possa se manter e crescer em cima da exploração de nossos corpos, é essa a divisão sexual do trabalho.
Compreendemos que, claro, o mundo do trabalho também é dividido a partir da raça, Hoje, mesmo 138 anos depois da abolição da escravidão, são tão violentas quanto óbvias as marcas do racismo na sociedade brasileira, sendo uma delas a divisão racial do trabalho, que colocou as pessoas negras e indígenas nos piores e mais mal pagos empregos. E é pela junção nefasta das estruturas patriarcal e racista que são as mulheres negras as que acabam com menos tempo para si, muitas vezes é o trabalho reprodutivo remunerado que garante a sobrevivência dessas mulheres e, sabemos, como o trabalho doméstico é desvalorizado nesse país, além do fato de que ele se torna infinito para essas mulheres, pois ele também permanece dentro de suas casas.
É o trabalho das mulheres que sustenta o mundo, por isso também compreendemos que é necessário que a discussão do fim da jornada 6×1 passe, necessariamente, pelo debate de gênero. Desejamos vida plena às mulheres brasileiras, isso significa que queremos que os direitos ao lazer, ao tempo livre, à educação e a construção de si sejam evidenciados nessa discussão. Muitas vezes nossos próprios companheiros de luta (e também o Governo Federal) acabam por reproduzir a ideia de que temos que lutar pelo fim da escala 6×1 para que as mulheres passem mais tempo com suas famílias, porém reafirmamos: o tempo das mulheres é o tempo do trabalho. Trabalhamos dentro e fora de nossas casas, o trabalho doméstico não é valorizado, visibilizado e, muito menos, reconhecido como trabalho, porém sem ele o mundo do trabalho não se sustentaria em pé.
Por fim, saudamos novamente os esforços do Governo Federal em melhorar a vida de brasileiras, brasileires e brasileiros, compreendemos as dificuldades dessa conjuntura e os desafios de se fazer política quando temos o pior congresso nacional da história, porém reafirmamos a urgência de lutar contra a jornada 6×1 e a necessidade urgente da construção e fortalecimento de um diálogo nítido e aberto com os movimentos sociais, em especial com o movimento feminista.




