Juntes somos mais fortes: lutar contra a transfobia e contra o conservadorismo dentro do movimento LGBTQIAPN+ é urgente!

No mês da Visibilidade Trans o SOS Corpo entrevista Samantha Vallentine, presidenta da Maria Daniela, militante da Nova Associação das Travestis e Pessoas Trans de Pernambuco (NATRAPE), sobre a transfobia dentro do movimento LGBTQIAPN+ e a contribuição histórica do movimento trans para a conquista de direitos para toda a comunidade.

Lara Buitron

Em alusão ao mês da Visibilidade Trans, o SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia preparou uma série de duas entrevistas com as transfeministas Maria Daniela, da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA), e Samantha Vallentine, da Nova Associação de Travestis e Pessoas Trans de Pernambuco (NATRAPE). As entrevistas analisam a mais recente tentativa de segregação transfóbica no interior do movimento LGBTQIAPN+. Embora ataques transexcludentes não sejam novidade, o contexto atual de fortalecimento do fascismo e do fundamentalismo religioso tem impulsionado a institucionalização da transfobia em escala internacional.

Em setembro do ano passado, um vídeo da recém-criada organização LGB International viralizou no X, superando 13 mil visualizações. No conteúdo, o grupo propõe a criação de um movimento internacional restrito a lésbicas, gays e bissexuais, excluindo pessoas trans, queer, pansexuais, assexuais e não binárias. Apesar de atuar em defesa de pautas alinhadas a um lobby anti-direitos da população trans, a organização afirma não ser transfóbica, definindo-se como um movimento voltado exclusivamente à defesa dos direitos de pessoas LGB cisgênero.

A LGB International surgiu no Reino Unido como uma organização local e, atualmente, atua como uma federação com filiados em 18 países, incluindo o Brasil, por meio da Aliança LGB Brasil. Embora a entidade declare publicamente não ser transfóbica, documentos produzidos por sua representação no país revelam posições contrárias a direitos da população trans: são contrárias às cotas para pessoas trans, ao uso do banheiro de acordo com a identidade de gênero e defendem o sexo biológico — nos termos “macho” e “fêmea” — como principal constituinte das identidades LGBs.

“Existe nisso tudo uma relação também racial, uma relação também hierárquica, uma disputa aí por poder e nessa disputa me parece que, na perspectiva desses movimentos segregacionistas, vale entregar os corpos de pessoas trans e travestis aos leões no Brasil.” reflete Samantha. 

Nesses documentos, tanto internacionais quanto brasileiros, as organizações utilizam uma retórica conservadora para atacar os direitos das pessoas trans, recorrendo a expressões como “combater a ideologia de gênero” e tratando o conceito de gênero como uma “invenção” que reforçaria o patriarcado e os estereótipos. Ignoram, porém, dois pontos fundamentais: primeiro, que não existe ideologia de gênero — trata-se de uma invenção da direita para atacar os direitos das mulheres e das pessoas LGBTQIAPN+ como um todo; segundo, que gênero é uma categoria analítica, e não um instrumento do patriarcado. Essa categoria foi formulada pelo movimento feminista justamente para explicar as relações sociais entre homens e mulheres.

Esses movimentos recorrem constantemente à ciência, baseando-se exclusivamente na biologia para explicar as relações sociais. No entanto, ignoram que a teoria social também é ciência e que é por meio da análise crítica da realidade que se investigam as causas das relações sociais. Essa perspectiva é fundamental para compreender não apenas o patriarcado, mas também o racismo e o capitalismo. Ignoram, ainda, que o patriarcado, o racismo, o colonialismo, o nazismo e as violências perpetradas contra a população LGBTQIAPN+ utilizaram, por séculos, as ciências exatas — especialmente a biologia — para sustentar a subalternização e a exploração de corpos não hegemônicos.

Na segunda matéria da série, o SOS Corpo entrevista Samantha Vallentine, para aprofundar a análise sobre as causas e os objetivos de grupos segregacionistas no interior do movimento LGBTQIAPN+. Travesti negra e moradora do Morro da Conceição, no Recife, a atual presidenta da Nova Associação das Travestis e Pessoas Trans de Pernambuco (NATRAPE) é mestranda de antropologia pela UFPE e se prepara para ingressar no doutorado. A NATRAPE atua há mais de dez anos no enfrentamento à transfobia e na defesa de políticas afirmativas e de direitos para pessoas trans e travestis em todo o estado, especialmente nas áreas de educação, moradia, trabalho e emprego, atualmente, a organização concentra sua atuação na promoção da empregabilidade, entendendo o acesso ao trabalho formal como eixo central para a garantia de dignidade e a superação da precariedade histórica vivida por essa população.


SOS Corpo – Os ataques transfóbicos dentro do próprio movimento LGBTQIAPN+ não são novidade, porém estamos em um momento onde existe um tipo de “orgulho” transfóbico na saída do armário dos movimentos LGBs, quais seriam as motivações para esse embate público nesse momento do mundo? A quem interessa a divisão do movimento?

Samantha Vallentine – É interessantíssimo a gente pensar que isso não é de hoje, na antropologia, por exemplo (eu sou mestranda em antropologia pela UFPE e também estou aprovada no doutorado), escrevendo minha dissertação eu vou vendo como os movimentos sociais vão se consolidando, como foi se construindo a história dos movimento sociais. E é a partir da etnografia de Carrara e Carvalho que a gente vai vendo que dentro das assembleias da Constituinte de 1988 existiam narrativas de um grupo de homossexuais, que nem vem ao caso o nome do grupo, diziam que nós atrapalhávamos, que a sociedade brasileira estavam se confundindo, que as travestis atrapalhavam a garantia de políticas públicas. Eram as travestis naquele momento que podiam atrapalhar um processo de efetivação, de construção de políticas públicas, porque na época se propagava que as travestis e pessoas trans vivam, pelas esquinas das ruas de Rio de Janeiro e de São Paulo, como pederastas – que era uma palavra da época – e que a gente trocava sexo por dinheiro, nunca era sobre sobrevivência, sobre a luta, era sempre sobre uma moralidade aplicada a esses corpos. Então, historicamente, a gente já tem um movimento mais de homossexuais, de gays, se colocando contra a aproximação e contra qualquer tipo de inclusão de pessoas trans e travestis. 
A gente sempre teve um conservadorismo dentro do movimento LGBTQIAPN+ e esse levante LGB é um levante que resgata historicamente isso, porque parece que é um movimento que tá sempre à espreita. Tá sempre à espreita e no momento, num contexto em onde a gente vive de uma extrema direita muito mais pulsante, de um neonazismo e fascismo muito aguçado, o que é que acontece? Esses movimentos se sentem ainda mais fortalecidos para fazer essa segregação, é quase que um apartheid. 
E é muito triste. Inclusive podemos fazer comparações históricas: a gente vai a história do nazismo, da Alemanha, alguns judeus (não todos, obviamente, porque o genocídio estava acontecendo com eles, a partir dos corpos e das vivências do povo judeu) ajudavam o regime nazista em troca de algumas coisas, alguns ajudaram Hitler a colocar o seu próprio povo dentro da câmara de gás e no final das contas também foram mortos depois pelo próprio regime nazista. Então, infelizmente, na história da humanidade a gente tem traidores. Traidores das suas próprias vivências e experiências, pensando que vão se safar. Jessé Sousa fala uma coisa muito interessante que é sobre o pobre de direita, que o pobre de direita é aquela pessoa que tenta aderir a ideologia dominante para que se sinta pertencente a essa galera, para que se sinta pertencente à elite, mas nunca vai ser. Esse grupo é LGB aderem à ideologia heterocisnormativa, pensando que irão se safar se acontecer algum regime conservador, conservadorismo que o tempo todo nós estamos tentando combater a partir da democracia e garantir algum tipo de liberdade para nossa população, mas essa galera pensa que em um regime autoritário eles vão estar livres. Se acontecer de uma nova ditadura militar ser instaurada no Brasil ou outro regime ditatorial, um evangelistão, por exemplo, acontecer, que essa galera vai tá livre porque eles perfomatizam. Eles performam a ideologia heterocis normativa.
Eles não são gays afeminados, não são lésbicas desafeminadas, existe uma moralidade muito grande e a gente não pode, obviamente, também tirar da análise a dimensão do cristianismo no Brasil,  do avanço da religião neopentecostal, das igrejas nas periferias, inclusive, onde estão boa parte da comunidade LGBTQIAPN+.
Esses vários fatores podem explicar, em conjunto, como a gente tem aí um levante novamente desse conservadorismo LGB, esse conservadorismo que faz esse apartheid LGB. Então, essa série de coisas faz com que esses grupos se sintam à vontade para sair do armário. A gente tem aí uma trans de direita, a Barcllay, que é uma gata de extrema direita, que é uma travesti branca – que a gente precisa entender também esse recorte racial – que performa muito a cisgeneridade e que ela se coloca aí como uma travesti de direita, bolsonarista. Essas pessoas pensam que elas vão se safar por alguma dimensão porque elas estão aderindo à ideologia dominante heterocisnormativa.

SOS Corpo – O que a aliança LGB afirma é que a separação de Lésbicas, Gays e Bissexuais das identidades de gênero é necessária porque identidade de gênero e sexualidade estariam em esferas diferentes da luta, fixando na genitália o foco do desejo LGB (consequentemente da luta) e afirmando que “performance” de gênero não deveria estar em questão. Essa é uma afirmação que, além de biologizante, apaga a história de resistência da comunidade trans, sua colaboração com a conquista de direitos de toda a população LGBTQIAPN+, vocês podem contar um pouco pra gente sobre a história do movimento trans no Brasil? Por que somos mais fortes juntes?  

Samantha Vallentine –Essa é uma questão que é bastante interessante, tanto do ponto de vista dessa reprodução da extrema direita de vincular sexo biológico o tempo todo a gênero. Como diz Jaqueline de Jesus, isso é o cissexismo, um sistema que opera a partir do sexo biológico e impossibilita qualquer pessoa de ser outra coisa que não cisgênero. Isso é um problema estrutural, que a gente precisa enfrentar, e aí é como se esse movimento LGB entregasse isso ao conservadorismo, entregasse isso à cisgeneridade, à heterocisnormatividade, ao sistema. Eles querem dizer assim: “Ó, se depender de nós, pessoas LGBs, se depender desse movimento, podem fazer o que vocês quiserem”.
Então, são traidores, são pessoas traidoras, mas há muita luta e muita resistência e há também outras pessoas LGBs que não compactuam com isso, mas esses grupos LGBs segregacionistas jogam fora todo um processo da história do movimento trans, da luta de figuras como Silva Rivera, Marsha P. Johnson, como Xica Monicongo e outras. Nós fomos pioneiras nas paradas LGBT’s, era a gente que colocava a cara nas ruas para defender todo o movimento.
Na década de 1990, com a chamada “peste gay”, a epidemia de AIDS, tinham travestis, como a Brenda Lee, que acolhia inclusive homossexuais na época, diferentemente das famílias cisgêneras, que deixavam as pessoas homossexuais morrerem nos quartos dos fundos das casas de suas famílias, foram as travestis que acolheram homossexuais. E nesse contexto nós nos organizamos, a partir dos encontros nacionais de travestis e pessoas trans, no sentido de se organizar para enfrentar e pensar estratégias de políticas de saúde e de trabalho.
A gente tem a ASTRAL (Associação de Travestis e Liberados) na época, que era uma das instituições que trabalhavam nessa perspectiva, e que vira a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) depois dos anos 2000 e se desdobra na Rede Trans, a gente tem aí esses protagonismos.
A política integral LGBT foi criada a partir da campanha “Me chame do pelo meu nome”, também gerada a partir desses encontros nacionais, foi também a partir da provocação do movimento trans ao Supremo Tribunal Federal, em 2019, que a LGBTQIAfobia foi criminalizada no Brasil e foi a ANTRA, junto com outras instituições que provocou, tendo em vista a negligência do poder legislativo nacional de criar uma lei de combate à LGBTQIAfobia. O movimento trans não diz: “Ó, a gente quer que só a transfobia seja criminalizada”, é diferente, a gente tem esse olhar coletivo.

SOS Corpo – O movimento trans é acusado por esse pessoal de fortalecer os estereótipos de gênero, o que ignora a opressão sofrida pela comunidade trans justamente por quebrar as expectativas cisgêneras de comportamento. Quais as reflexões do movimento sobre esse argumento simplista e vazio?

Samantha Vallentine –  A transgerenidade avança e não compactua, ela rompe com esse pacto da cisgeneridade que está muito atrelada muitas vezes à misoginia de certos homossexuais,  a gente tem visto muitos gays que são misóginos e por que não transfóbicos também, né?
Se tem nojo de mulheres cis imagina de travestis e pessoas trans. 

SOS Corpo – Em seus documentos a Aliança LGB e a LGB International atacam os direitos conquistados pela comunidade trans: como as cotas, a equiparação da transfobia à lei do racismo, criticam a luta por banheiros unissex, apoiaram a tentativa do CFM de proibir o acesso aos bloqueadores hormonais por crianças trans… Mesmo falando sobre isso tudo (e mais) eles dizem que não são organizações transfóbicas, porém se utilizam dos mesmos espantalhos retóricos da extrema direita, o que isso significa para vocês? 

Samantha Vallentine – Talvez parte dessas instituições que hoje querem fazer essa ruptura com a identidade de gênero, tenham ganhado muito dinheiro com os projetos internacionais e os recursos internacionais que eram destinados a ONG’s, instituições e associações com projetos para pessoas trans e travestis e os coordenadores eram gays e lésbicas, em sua maioria brancos.
Talvez, esses movimentos não vejam mais sentido econômico nisso, porque nós começamos a protagonizar e encabeçar espaços que são muito importantes, é uma travesti a protagonista hoje do movimento LGBTQIAPN+ no Brasil. Então talvez, essa galera não estivesse preparada para o nosso protagonismo.
Existe nisso tudo uma relação também racial, uma relação também hierárquica, uma disputa aí por poder e nessa disputa me parece que, na perspectiva desses movimentos segregacionistas, vale entregar os corpos de pessoas trans e travestis aos leões no Brasil. 

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