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Agrotóxicos: Recife lidera ranking nacional de intoxicação [“De olho nos ruralistas”]

Quantidade de veneno quadruplicou na PB; no PI, relação entre consumo de veneno e área plantada quintuplicou entre 2007 e 2013.

Por Inês Castilho* (“De olho nos ruralistas)

 

O volume de agrotóxicos por área plantada dobrou na região Nordeste em sete anos, saltando de 5,47 para 10,61 quilos por hectare (kg/ha) entre 2007 e 2013. A quantidade consumida aumentou de 70 mil toneladas em 2007 a 123 mil toneladas em 2013, enquanto a área plantada teve redução, de 12,8 milhões de hectares em 2007 para 11,6 milhões/ha em 2013. A incidência de intoxicações passou de 1,56 para 5,39 casos por 100 mil habitantes no período, um aumento que não é proporcional e sugere subnotificação.

A relação entre volume de veneno e área plantada, em alguns estados, revela a intensificação: em 2012, era de 31,45 kg/ha em Alagoas e 20,57 kg/ha no Maranhão; em 2013, de 19,75 kg/ha no Ceará. A comercialização de agrotóxicos, de 123 mi toneladas, correspondeu a 10% do consumo legal no país, sendo a Bahia o estado da região que mais aplicou veneno (45,9%), seguido do Ceará (21,9%) e do Maranhão (14,1%).

Recife foi o município com a maior incidência de intoxicações por agrotóxicos entre 2011 e 2014, com 1.818 casos, seguido de São Paulo, com 1.264, e Fortaleza, com 955.

Os dados são do relatório nacional 2016 do programa de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, do Ministério da Saúde, que traz a incidência de intoxicações por agrotóxicos e dados da comercialização de veneno por área plantada no Brasil entre 2007 e 2013.

O site “De Olho nos Ruralistas” publica desde segunda-feira (31/10) uma série com abordagem regional desses dados. Confira aqui as informações sobre a região Sudeste: “Intoxicações por agrotóxico quadruplicam no Sudeste; donas de casa estão entre principais vítimas“. Aqui, os dados sobre a região Sul: “Região Sul consome 23% dos agrotóxicos do país; Paraná só perde para SP e MT“.

 

Soja explica consumo na Bahia

A Bahia é o estado que mais consumiu agrotóxicos no período estudado, mais de 56 milhões de quilos. O oeste baiano é uma das regiões que mais utilizam o veneno, em lavouras de soja, milho e algodão. Apesar de ser o sétimo maior consumidor no país e aplicar 12 kg de veneno por hectare de área plantada, a incidência de intoxicações em 2013 foi inferior à de estados da região com menor volume de agrotóxicos por área plantada.

No Ceará, a relação entre consumo de agrotóxicos por área plantada triplicou entre 2007 e 2013, passando de 6,62 a 19,75 kg/ha. A incidência de intoxicações foi de 1,91 para 4,86. Em 2013, o comércio de agrotóxicos mais que dobrou no estado, passando de 12 mil toneladas para 27 mil toneladas em menos de um ano.

O Piauí quase quintuplicou o consumo de agrotóxicos em praticamente a mesma área plantada, entre 2007 e 2013. A relação entre volume de veneno e área plantada passou de 1,90 kg/ha para 6,73 kg/ha. A curva de casos de intoxicação, contudo, foi muito mais branda: de 1,06 a 3,3 casos por 100 mil habitantes no período.

Também em Pernambuco o aumento de casos de intoxicação não corresponde ao crescimento do consumo de agrotóxicos: passou de 7 casos, em 2007, para 11 casos por 100 mil habitantes em 2013, enquanto o volume de veneno por área plantada mais que dobrou, de 3,48 kg/ha, em 2007, para 8,60 kg/ha, em 2013.

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Em Alagoas, cana-de-açúcar

De 2011 para 2012 houve um aumento brutal no volume de agrotóxicos em Alagoas: passou de 3,7 mil toneladas para 16,5 mil toneladas. De 2012 para 2013, embora tenha caído para 3,6 mil toneladas o volume consumido, dobrou o número de casos de intoxicação, passando de 6,03 para 12,39 por 100 mil habitantes. A cana-de-açúcar é responsável por 82% da produção agrícola no estado.

Na Paraíba, o volume de agrotóxicos quadruplicou entre 2007 e 2013 (de 372 toneladas para 1,4 mil toneladas), enquanto a área plantada foi reduzida à metade (de 600 mil hectares para 311 mil hectares). De 2010 a 2013, as notificações de intoxicação passaram de 0,37 a 5,06, abaixo da média de todas as regiões do país (com exceção da Região Norte em 2013).

No Maranhão houve um aumento brutal do volume de veneno comercializado entre 2011 e 2012, de 13 mil toneladas para 38 mil toneladas. A relação por área plantada cresceu de 7,32 para 20,57 kg/ha. Em 2013, esses números caíram para 17 mil toneladas e 9,26 kg/ha. Apesar de sua magnitude, a incidência de intoxicações não passou de 0,63 caso em 2012 e 1,07 caso por 100 ml habitantes em 2013 – em subnotificação flagrante.

Também em Sergipe se verifica o processo de intensificação agrícola, com aplicação do triplo de agrotóxicos – de 479 toneladas em 2007 a 1,2 mil toneladas em 2013, com um pico de 1,5 mil toneladas em 2011. A área plantada foi reduzida no período, de 404 mil hectares em 2007 a 386 mil ha em 2013. Os casos de intoxicação foram de 0,05 para 5,37 casos por 100 mil habitantes no período.

No Rio Grande do Norte, processo semelhante: aumenta o volume de veneno, de 510 toneladas para 706 toneladas entre 2007 e 2013, e diminui a área plantada, de 470 mil hectares para 327 mil ha. O número de casos notificados passa de 0,10 em 2007 para 1,24 em 2013.

 

Leia matéria original publicada em De olho nos Ruralistas: clique aqui

(*) Inês Castilho é jornalista e cineasta, estudou Ciências Sociais na USP e foi editora de meio ambiente da revista “Visão”, editora do semanário “Shopping News”, editora do jornal “Mulherio” e cofundadora do “Nós Mulheres”. Realizadora dos curtas-metragens “Histerias” e “Mulheres da Boca”, integra desde 2012 a equipe do “Outras Palavras”. É repórter, redatora e tradutora em “De Olho Nos Ruralistas”.