RACISMO MATA! Sejamos radicais na luta antirracista.

*Por Analba Brazão 

Os dados divulgados esta semana pelo Atlas da Violência 2018 reafirmam o que temos dito. O Racismo mata! A morte de negros e negras é três vezes maior que a de brancos e brancas. 71,1% das pessoas assassinadas no Brasil por ano têm cor: são negras! Isso confirma o que há muito tem sido dito – o Brasil segue operando o genocídio do povo negro, especialmente dos jovens negros, do contrário, como se explica que a cada ano são assassinados 33.590 jovens negros (média de um jovem negro assassinado a cada 23 minutos), um número equivalente a um cenário de guerra civil? Para nós é inequívoco.

O que está por trás dessas mortes chama-se Racismo, um sistema de poder e uma ideologia que não extermina apenas jovens negros, mas alveja diretamente as vidas das mulheres negras, suas mães, irmãs, companheiras e amigas, cujo sofrimento e lutas são invisíveis aos olhos da sociedade, no limite, alcança toda a comunidade negra, já que seus jovens não mais terão direito a viver um futuro.

Os dados se referem a 2016, ano em que se instalou o golpe político/judiciário/midiático no Brasil, e demonstram como a cruel realidade do aumento em 23% de assassinatos de pessoas negras no país tem relação direta com o Racismo estrutural instalado na nossa sociedade e constitutivo de nossas instituições, uma engrenagem refinada com o golpe institucional. Confirmam ainda, o quanto a desigualdade racial, principalmente no campo da segurança pública, também determina a vulnerabilidade do povo negro. Com o golpe, temos visto a olho nu, como a sociedade e as forças sociais se sentem liberadas para serem racistas.

O Racismo estrutura as relações e a vida social de todas as pessoas, causando sofrimento às pessoas negras, que são a maioria da população brasileira, e trazendo benefícios às pessoas brancas. Logo, enfrentar esse mal é responsabilidade de toda a sociedade, não só das pessoas negras. Mas, por que então estes dados estarrecedores não conseguem mobilizar a sociedade brasileira? Será que as vidas negras não importam mesmo e/ou são descartáveis? Por que estes dados não nos convocam com radicalidade? Estamos falando de vidas. Vidas que têm sustentado este país com seu trabalho, com sua cultura, com seus corpos. Vamos surfar nesta onda de banalizar a violência racista que mata TODOS os dias? Qual é a parte da nossa responsabilidade, enquanto sociedade civil? Qual a responsabilidade do Estado?

Não é novidade que no Brasil a população negra é a maior vítima das diferentes formas de violência. A violência se aprofunda, e isso é fato nas populações que já sofrem desigualdades socioeconômicas, para as quais se acumulam as opressões, a exploração e consequentemente a violência, como é o caso da população negra e das mulheres negras em especial. O que se pergunta é: por que não causa comoção social? Quantas chacinas têm acontecido nas periferias das cidades, cujas vítimas são todas pretas, e não há comoção, não há repercussão? Quantos mais homens e mulheres negros precisarão morrer para que nossa sociedade perceba e se revolte com o que está acontecendo?

Em relação às mulheres negras os dados não são mais amenos. Os assassinatos têm se agravado a cada dia. 4.645 mulheres foram assassinadas em 2016 no país e a taxa desses assassinatos também é maior entre as mulheres negras, que aumentou em 5,3%, enquanto das mulheres não negras a taxa foi de 3,1% (Atlas da violência 2018).

Esses dados também revelam que a articulação entre Racismo, sexismo e pobreza não explica apenas as mortes de jovens negros, mas também, potencializam as violências sofridas pelas mulheres negras. Além destas serem as maiores vítimas em todas as modalidades da violência contra as mulheres (feminicídios, violência doméstica e estupros) são também, maioria das mulheres mortas pela mão do Estado, reiterando a informação de que o Racismo também se faz bem presente nas operações policiais (Atlas da Violência 2017)

Temos dito ainda que com o golpe tanto o Racismo, quanto a violência contra nós mulheres, têm se evidenciado, têm se aprofundado, e estes dados trazem esta confirmação. Numa situação de perdas de direitos constantes, na verdade, de derrocada dos direitos, como as que estamos vivendo, quem mais perde são as pessoas que estão na base da pirâmide da desigualdade de classe, de raça e de gênero, e essas são as mulheres negras. Os dados abaixo confirmam essa realidade e o descaso com que o Estado tem atuado:

·         O quadruplicamento das taxas de encarceramento de mulheres, em comparação aos homens, o Brasil é o 5 º país que mais encarcera mulheres no mundo, sendo de maior incidência entre as mulheres negras (68% das encarceradas são negras, e as de PE 81% – Infopen);

·         O trabalho doméstico é a maior ocupação de mulheres negras – das negras ocupadas, 17,7% eram domésticas (PNAD 2014) e das mulheres ocupadas nesse trabalho, 65% eram negras;

·         A sub-representação no Congresso Nacional – dos 513 parlamentares, 52 são mulheres, das quais apenas 7 são mulheres negras (considerando que o número de candidaturas foi quase o mesmo entre elas);

·         40% dos lares já são chefiados por mulheres sendo que a maioria desses eram de lares negros.

Reafirmamos, esses dados são revoltantes. Confirmam o Racismo em toda sua força, em todos os seus sentidos e, muito além do que bem denuncia Elza Soares: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, não é só a carne mais barata, é a carne que é mais esmagada, mais violentada, mais explorada, mais oprimida. É a tentativa de apagamento social real. A pergunta que se faz necessária então é – por que não conseguimos mobilizar a revolta? Como qualificar estes dados? Informar só pra informar? Denunciar só pra denunciar? De quem é a responsabilidade? Como criar a consciência de que o Racismo é algo que destrói a vida da população negra. Há vidas que valem e vidas que não valem? Por que uma chacina que mata de uma vez, vários jovens negros, não provoca a mesma comoção que um assassinato de uma pessoa branca? Que se passa conosco?

Reafirmamos, enquanto feministas antirracistas,  que precisamos ir além das denúncias. Precisamos nos movimentar. Precisamos reafirmar que o enfrentamento ao Racismo é uma tarefa de todas as pessoas, independente de sua cor de pele. Os movimentos negros têm lutado desde sempre contra o Racismo e é necessário que o restante da sociedade também assumam sua responsabilidade na luta contra esse mal. Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista!

Por todos os negros e negras que neste país nunca puderam ser o que são.

 

*Analba Brazão é antropóloga e educadora do Instituto Feminista para a Democracia SOS Corpo