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Brutalidade vezes trinta – o caso do estupro coletivo de Santa Cruz-RJ

Analba Brazão*

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Por mim, por nós e por todas! Esta insígnia do movimento feminista torna-se cada vez mais necessária.

Ontem à noite, quando li a noticia do estupro coletivo que uma jovem tinha sofrido na cidade do Rio de Janeiro, fiquei indignada, enojada e muito revoltada. Como é necessária e urgente a luta feminista pelo fim da violência contra nós mulheres! Como é necessária a nossa luta contra esta cultura do estupro que está cada vez mais se naturalizando.

Uma luta do movimento feminista e de mulheres que já soma 40 anos no Brasil, no decorrer da qual ainda nos deparamos com essas atrocidades, que nos chocam e nos maltratam.

Como é necessário continuarmos afirmando que a violência contra as mulheres é a forma mais perversa e concreta da dominação da opressão patriarcal, que atinge a nós mulheres, em diversos contextos, durante toda a vida!

Temos notícias, todos os dias, de casos de estupro pelo Brasil afora. Nas ruas, nas universidades, nas casas, nos bares, nas festas, em ônibus, em táxi, metrô… Tanto em lugares públicos, como em lugares privados. Temos notícias de estupros cometidos em festas, de estupros corretivos contra mulheres lésbicas – com o sentido de “corrigir” a sua orientação sexual. E temos tido notícias de estupros coletivos, também ocorridos em vários lugares do Brasil.

Hoje nos deparamos com este caso terrível, que aconteceu no Rio de Janeiro. Uma jovem foi estuprada por trinta homens e, se não bastasse toda esta dor, ela ainda foi exposta covardemente nas redes sociais e apresentada como um troféu. Seu corpo foi apresentado como “coisa”.  Ali, eles mostraram todo o poder do macho!  Ela foi estuprada por trinta, mas violentada por muitos mais, por todos que assistiram este  vídeo e tiveram gozo com ele.

Li comentários de quem assistiu ao vídeo, qualificando esses homens como animais, doentes, loucos e monstros. Não, eles não são doentes, nem são animais. Eles são machistas e se acham donos dos corpos de nós, mulheres.

Não basta só violentar, eles foram mais adiante: mostraram o seu feito!

Este crime é semelhante a outro crime de grande repercussão mundial, ocorrido em 2012. O caso da jovem estudante de medicina na Índia, Jyoti Singh, que também sofreu um estupro coletivo dentro de um ônibus, por seis homens. Nesse caso, foram arrancadas suas vísceras, antes de a jogarem na rua, deixando-a num estado tão crítico que não resistiu ao tratamento e morreu 13 dias depois. O fato gerou, por dois meses, várias manifestações na Índia. A população, principalmente as mulheres, foram às ruas protestar. Eles, os assassinos, diziam que ela tinha pedido para que isso ocorresse, pelo fato de estar na rua, ainda que acompanhada por um homem, mas à noite.

O estupro coletivo tem ocorrido em diversas partes do mundo. E continuará ocorrendo enquanto não for barrada esta cultura do estupro.  Não há como fugirmos dos dados. Temos que divulgá-los e transformá-los em efeito de luta.

Os dados notificados em 2014, no oitavo Anuário Nacional de Segurança Pública, não demonstra a realidade como um todo, já que se trata de um crime muitas vezes silenciado. Mesmo assim, são aberrantes, pois dizem que a cada 10 minutos uma pessoa é estuprada no Brasil. E o que é mais impactante: isso parece não causar revolta na população.

O alarmante é saber que o que aconteceu com Jyoti  e com esta adolescente no Rio de Janeiro demonstra que o estupro coletivo pode ocorrer em qualquer lugar. Se nos basearmos nos altos índices de estupro e de abuso sexual sofridos por meninas e mulheres no Brasil, sabemos que aqui estamos demasiadamente vulneráveis.

Temos que protestar, temos que ir às ruas e cobrar a imediata prisão destes trinta estupradores.

Não admitimos que nossos corpos sejam violados, sejam maltratados e, como diz uma das palavras de (des)ordem feminista: “Nosso Corpo nosso território! Na guerra e na paz, o corpo é meu , não se maltrata, não se viola, não se mata!”

– – – – (*) Analba Brazão Teixeira é militante da Articulação de Mulheres Brasileiras / Forum de mulheres de Pernambuco e educadora do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia

 

Foto: Carta Capital