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Entrevista: “No governo Bolsonaro, as demandas da agenda da ‘família’ absorveram as angústias das ações ‘antigênero’”

Isabela Kalil, antropóloga que estuda o conservadorismo nas periferias de São Paulo, lança estudo sobre políticas antigênero no país e fala sobre o espaço das pautas progressistas no Brasil de Bolsonaro

Kalil: “desdemocratização” e família dão o tom do Brasil de 2020 | Foto: Divulgação

Por Maria Martha Bruno/ Gênero e Número

Desde pouco antes da eleição de Jair Bolsonaro, Isabela Kalil tornou-se uma voz recorrente em análises para entender o que levou o ex-capitão a chegar ao Planalto e estabelecer uma política que há alguns anos já estava sendo gestada no país. A antropóloga da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) há alguns anos estuda nas periferias de São Paulo o lastro popular que a uma agenda conservadora que o governo atual coloca em prática. Esta semana ela lança o estudo sobre políticas antigênero “Brasil – A catástrofe perfeita?”, escrito com Sonia Correia, coordenadora do Observatório de Sexualidade e Política/ Sexuality Policy Watch (SPW).  

“O país vive o que muitos autores chamam de processo de ‘desdemocratização’ – que é uma forma de esvaziamento dos mecanismos democráticos sem necessariamente haver um golpe de Estado ou uma ruptura institucional explícita. É uma pesquisa que trata do esvaziamento da democracia no Brasil ao considerar a atuação de forças religiosas de diferentes segmentos, interesses econômicos, ativismos conservadores e interesses transnacionais em um processo de redução do espaço democrático com o fortalecimento da extrema direita no Brasil nas décadas de 2000 e 2010”, ela explica.

Em entrevista à Gênero e Número, Kalil fala sobre as perspectivas das pautas de gênero e raça no governo Bolsonaro, a relação do governo com as mulheres e aposta na manutenção da agenda antigênero, anticomunistas e antipetistas nas eleições de 2020.

No Brasil de Bolsonaro, qual o lugar da agenda racial e de gênero nas periferias?  

Ao longo do primeiro ano do governo Bolsonaro, é possível identificar que tanto a agenda racial quanto a agenda de gênero foram absorvidas, de certa forma, pela agenda da “família”. Não houve o desaparecimento completo das pautas de gênero e raça, mas estas foram ressignificadas. Neste sentido, “família” é uma categoria chave capaz de catalisar demandas sociais muito sensíveis, tais como segurança, saúde e educação, sendo atravessada por questões de classe, raça, gênero e geração. Logo, ao defender a “família”, o que está em jogo não é apenas a mobilização de um modelo abstrato ou meramente conceitual. Para além de certo discurso vazio e abstrato sobre família, o que está em questão são pautas que pertencem à vida cotidiana, como o medo de que os filhos não tenham uma educação vista como “ideologizada” (que reconheça desigualdades como as de gênero, raça e classe). Estes foram os casos das acusações de “ideologia de gênero” na educação ou ainda o fortalecimento do projeto Escola Sem Partido. A mobilização da categoria “família” é utilizada inclusive para defender a flexibilização do uso de armas, que tem como uma das mais recorrentes justificativas exatamente a proteção da casa, dos filhos e da família.

Qual o tamanho da agenda antigênero entre os bolsonaristas após as eleições de 2018? Permanece o medo (que você havia identificado durante a campanha) de questões como a “ideologia de gênero” e a sexualização de crianças?

A agenda antigênero é uma agenda de longa data e é também uma pauta muita cara ao conservadorismo em âmbito internacional. O que ocorre é que devemos estar atentos para o modo como esta pauta é utilizada. O seu tamanho irá depender de algumas circunstâncias. Esta agenda foi muito utilizada na campanha de 2018 e permanece muito forte, mas agora ela está “fria”, digamos. Isso ocorreu porque as demandas relacionadas à agenda da “família” catalisaram boa parte das angústias e as ânsias mobilizadas em torno das ações “antigênero”.O medo do “gênero” permanece, mas está adormecido e deu lugar à esperança e ao otimismo trazido pela agenda da “família”, que está em curso, embora de maneira relativamente discreta. Um modo de medir isto é olhar para as controvérsias em torno do governo neste primeiro ano. Houve períodos de crise com demissões de cargos e exonerações em diversos setores, mas com poucas controvérsias envolvendo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, liderado por Damares Alves. E mesmo quando há controvérsias, logo são abafadas por outras crises dentro do governo em outros âmbitos. Na comparação com outros ministérios e ministros, Damares segue firme, forte e com apoio popular. 

Bolsonaro se apresenta para suas eleitoras como o homem que confia nas mulheres para atuarem em seu governo. Neste sentido, novamente a figura de Damares é importante. E, mais recentemente, a indicação de Regina Duarte para a Secretaria de Cultura. A nomeação da atriz é uma forma de trazer uma personalidade com um perfil parecido com o de Damares para compor o governo.

Pode apontar as principais características das mulheres que você acompanha em sua pesquisa sobre a extrema-direita e suas diferenças em relação aos homens? 

O apoio das mulheres foi o último angariado pela campanha bolsonarista, nas últimas fases da corrida eleitoral. Houve um minucioso trabalho durante a campanha para desvincular a imagem do candidato de aparições em que sua conduta estava ligada a atitudes misóginas e machistas. Como contraponto, sua campanha apresentou para mulheres de diferentes gerações um outro aspecto de sua personalidade, conseguindo vincular sua imagem à condutas positivas de “bom pai”, “bom marido”, etc. Aos poucos, a adesão das mulheres ao candidato ganhou fôlego, pois o candidato que elas conheciam estava relacionado a estes aspectos positivos de defesa das mulheres e da família. O que ocorre hoje é que as mulheres conservadoras ganharam um papel mais autônomo dentro do bolsonarismo. No ano de 2019, acompanhei alguns protestos conservadores em que as principais lideranças eram de mulheres. Ao contrário dos homens apoiadores, que têm uma espécie de identificação prestigiosa com o candidato, as mulheres permanecem mais fiéis às pautas conservadoras, de modo que poderiam apoiar outros candidatos com o perfil parecido com o de Bolsonaro, desde que tenham veemência na defesa de pautas de interesse dessas mulheres. Ou seja, aquilo que podemos chamar de bolsonarismo depende menos da figura do presidente no caso das mulheres. Outra questão importante é que Bolsonaro se apresenta para suas eleitoras como o homem que confia nas mulheres para atuarem em seu governo. Neste sentido, novamente a figura de Damares é importante. E, mais recentemente, a indicação de Regina Duarte para a Secretaria de Cultura. A nomeação da atriz é uma forma de trazer uma personalidade com um perfil parecido com o de Damares para compor o governo.

Pesquisa do ano passado do Datafolha mostrou a alta aprovação da ministra Damares Alves entre setores populares. Sua figura também tem forte apelo junto a mulheres conservadoras e “mães de família”. Ela ainda toca em temas caros à esquerda, como pautas dos LGBT+s. Pode analisar a importância da ministra para o atual governo? Ela seria uma figura “imbatível” no Brasil de 2020, alinhada aos anseios da maioria da população?

Damares Alves é uma das personalidades mais fortalecidas do governo Bolsonaro, ao lado dos ministros Sergio Moro e Paulo Guedes, sendo que Damares e Moro têm mais apoio entre as camadas populares. Além disso, ela recebe apoio das mulheres e conta com a força dos movimentos conservadores e religiosos. Outro ponto importante é que Damares se utiliza de um discurso não apenas pró-família, mas também pró-mulheres e pró-LGBT+. A questão é como estas categorias estão em jogo. Trata-se de uma visão seletiva sobre o que se define como família e quais famílias deveriam ser beneficiárias de políticas públicas. São todas as mulheres? Também não. Apenas aquelas que estão dentro do espectro das definições de “cidadão de bem”. O mesmo para pessoas LGBT+. De um lado, Damares se coloca como uma defensora dos direitos humanos, mas, ao mesmo tempo, fala da necessidade de se fazer uma “releitura sobre o que são direitos humanos”. Nesta releitura, por exemplo, a palavra “gênero” passa a ser suprimida, assim como temas ligados à sexualidade.

É preciso entender que dentro da “família” habitam também as pautas mais caras para a esquerda, como as questões de gênero, sexualidade, raça, desigualdade, religião e até meio ambiente. É possível incluir pautas progressistas dentro desta agenda da “família”, mas há pouco sendo feito neste sentido.

Muito se fala do afastamento da esquerda das periferias e “setores de base”. Há espaço para a penetração da agenda progressista entre os conservadores das camadas mais pobres do país? Qual deveria ser a abordagem para isso?

Sim, há espaço, mas é preciso que os setores progressistas estejam atentos para as pautas que são caras para estes setores da população. Uma dessas pautas, é a agenda da “família”, como já apontei. Embora esta pauta tenha sido capturada pelo bolsonarismo, é uma questão que vale ser vista com mais cuidado. Embora o uso do termo esteja impregnado de sentidos conservadores, ele ainda tem o potencial de ser explorado. É preciso entender que dentro da “família” habitam também as pautas mais caras para a esquerda, como as questões de gênero, sexualidade, raça, desigualdade, religião e até meio ambiente. É possível incluir pautas progressistas dentro desta agenda da “família”, mas há pouco sendo feito neste sentido.

[+] Leia também: Reino Sagrado da Desinformação: mídia, religião e política no Brasil 

Acredita que, com a ascensão do conservadorismo ao Poder Executivo, a esquerda já conseguiu entender os evangélicos e todas as suas particularidades, inclusive passando a respeitá-los mais? Ou este processo ainda está no início?

É preciso entender não apenas os evangélicos, mas a força que as religiões têm como um todo na vida das pessoas. Religião não é apenas ir para a igreja ou templo rezar. A religião atravessa a vida cotidiana de diferentes maneiras. A partir da religião se formam redes de colaboração, de apoio, de sociabilidade, de afetos, de consumo, de empregabilidade, de educação, de saúde. O segundo ponto é que, embora uma parte importante do conservadorismo tenha sido protagonizado pelos evangélicos, há muito que se entender do conservadorismo católico que atua de maneira mais silenciosa e hierarquizada há décadas. Entender o poder comunicacional dessas religiões e como elas pautam grande parte do debate público é um movimento que está começando entre os setores de esquerda, mas é preciso ainda uma boa estratégia de imersão neste campo. Neste ponto, a experiência das pesquisas antropológicas nos mostra que não tem como separar a religião das demandas da vida cotidiana dos sujeitos. 

Quais ações e agendas da extrema-direita (e do governo Bolsonaro) merecem mais atenção?

É difícil de estabelecer uma hierarquia entre essas agendas ou ações, exatamente porque estas atuam de modo, digamos, rotativo. Faz parte da estratégia do governo dar este caráter rotacional às suas agendas exatamente como forma de lidar com a própria intensidade gerada pelas controvérsias e polêmicas. A esse respeito, acho importante destacar que a agenda de costumes e a agenda econômica são parte do mesmo projeto. Mas não apenas porque se somam, mas porque são interdependentes. Só é possível levar adiante um projeto de austeridade econômica que se volta contra os próprios interesses dos apoiadores de Bolsonaro se estas pessoas forem convencidas de que elas não serão afetadas em razão de terem uma conduta moral correta. É aí que a agenda de costumes entra. Assim, eu não destacaria uma agenda específica, aliás, separar as agendas é um problema.  

Apesar da queda na aprovação do governo e de um primeiro ano tumultuado no noticiário, acredita que a figura de Jair Bolsonaro sofreu algum arranhão entre seus eleitores? 

Acredito que sim, alguns de seus apoiadores tendem a ser muito pragmáticos, se identificam com as pautas do presidente e com sua personalidade, mas estão de ouvidos e olhos abertos para outros potenciais representantes de projetos similares. E há concorrentes potenciais, entre eles podemos citar Wilson Witzel, o ministro Sergio Moro e, em certo sentido especialmente no campo religioso, a própria Damares Alves, como figuras que podem concorrer pelo protagonismo nos setores conservadores. Outra insatisfação é que Bolsonaro ainda não conseguiu emplacar um projeto de impacto no setor de segurança pública, uma de suas promessas de campanha. E mesmo a principal ação do governo passou a ser referida como o pacote anticrime de Moro (e não de Bolsonaro). 

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As eleições de 2020 repetirão a tendência conservadora e de direita de 2018? Estamos apenas no início deste ciclo? 

Acredito que alguns dispositivos irão se repetir, uns com mais forças e outros com menos. É possível que vejamos na próxima eleição a retomada de pautas antigênero, anticomunistas e antipetistas, por exemplo. Mas também é possível identificar novos conservadorismos emergentes, sobretudo um conservadorismo expresso com relação à segurança pública e o medo da violência urbana, por exemplo. Também é possível especular que os setores conservadores testem personalidades ainda não conhecidas pelos eleitores, mas com protagonismo no ativismo de movimentos conservadores. 

*Maria Martha Bruno é editora da Gênero e Número