34º Encontro Nacional de Mulheres de La Plata: Outro mundo é possível

Durante os últimos quatro anos, as organizações feministas argentinas cumpriram um papel muito importante na resistência e contenção das populações mais vulneráveis, e chegaram fortalecidas a um encontro cujo lugar próximo à capital foi estratégico para assegurar um grande público. Ainda assim, nada foi capaz de prever que trataria da maior mobilização feminista da história da América Latina.

Por Soledad Castro Lazaroff , em Cuerpos Políticos, na Revista Bravas| Tradução Larissa Brainer.

O processo de assembleia com os quais os feminismo argentinos planejaram o 34º Encontro Nacional de Mulheres que ocorreu este ano (2019) em La Plata, na província de Buenos Aires, foi marcado pela campanha eleitoral na qual Frente de Todos, liderada por Alberto Fernández, buscava derrotar o governo de Mauricio Macri. Na maioria das reuniões que aconteceram em todo o país, foi enfatizada a necessidade do movimento fortalecer suas alianças para combater as medidas neoliberais do governo de Cambiemos, que resultaram em um estado de emergência social muito grave. Durante os últimos quatro anos, as organizações feministas argentinas cumpriram um papel muito importante na resistência e contenção das populações mais vulneráveis, e chegaram fortalecidas a um encontro cujo lugar próximo à capital foi estratégico para assegurar um grande público. Ainda assim, nada foi capaz de prever que trataria da maior mobilização feminista da história da América Latina: mais de meio milhão de mulheres e dissidências estiveram em La Plata para celebrar o encontro, apesar da falta de recursos do Estado e da chuva torrencial que acompanhou as atividades durante todo o primeiro dia.

Muitos coletivos, de forma autogestionada, juntaram dinheiro durante meses para poder participar. Dos rincões mais recônditos da América Latina, as participantes chegaram como puderam e se instalaram em escolas e edifícios públicos de toda a cidade, que a comissão organizadora havia organizado anteriormente. Também estavam cheios os hotéis, e os alojamentos oferecidos em aplicativos como AirBnb; algumas, inclusive, acamparam nas ruas. Nesse fim de semana, La Plata se tornou a cidade dos feminismos: milhares e milhares de grupos, maiores, menores, mais barulhentos ou silenciosos, e de todas as idades e procedências, ocuparam os espaços públicos. A certeza de que estava cheio de companheiras e companheires por aqui e ali modificou a maneira que os corpos habitavam as ruas. As atividades se desenvolveram em uma convivência harmônica, de imensa liberdade, que, no entanto, nunca ocultou as tensões que estavam sendo vividas. Os feminismos argentinos não escondem seus conflitos embaixo do tapete, porém não por isso, deixam de compreender a necessidade de consolidar encontros de massa que nutram e fortaleçam a capacidade de resistência de todas as companheiras que, ao retornar aos seus territórios, devem enfrentar, muitas vezes, realidades terrivelmente hostis.

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Horizontalidade e organização

O encontro estava pensado para contar com uma cerimônia de abertura que foi impossível realizar devido à chuva torrencial. De toda forma, mulheres e dissidências começaram a encontrar-se em distintos centros culturais e pontos de referência para comer algo, se verem, armar suas barraquinhas e postos em algum lugar protegido. Era muito engraçado ver os diversos grupos caminharem pela rua debaixo de sacos plásticos e guarda-chuvas. Ao mesmo tempo, uma espécie de encontro alternativo acontecia entre as identidades trans, travestis e não-bináries, que com o microfone aberto começaram a compartilhar opiniões e depoimentos para discutir a conjuntura, reafirmar ideias, gerar pensamento coletivo. Em todos os espaços se respirava um clima de celebração contagioso, temperado pela abundância de corpos diversos, cores e sabores. Nos postos de comida de rua, muitas mulheres vendiam produtos típicos, e também eram abundantes os pratos veganos, ideais para o consumo das feministas antiespecistas.

Uma das provas do nível de organização e comunicação conseguido foi a existência de um app para celulares que se o instalava, contava com toda a informação necessária: horários, lugares, mapas, transporte. A partir do meio-dia começaram as oficinas, que têm a particularidade de não serem coordenadas por especialistas ou vozes especialmente autorizadas: cria-se uma lista de oradores, quem participa vai intervindo e é feito um registro para continuar o trabalho no dia seguinte. Mais de 87 oficinas foram realizadas ao mesmo tempo em toda a cidade, algumas replicadas em três ou quatro grupos dentro da mesma oficina: falamos em torno de 500 pessoas, ou mais, conversando e construindo conhecimento de modo horizontal. Os temas foram variadíssimos, congregando pessoas por áreas de interesse e permitindo a maior pluralidade possível dentro de debates que têm uma duração aproximada de três horas por sessão. Não são instâncias de formação vinculadas a associações e redes de trabalho e se redigem pronunciamentos claros sobre diversas questões vinculadas à conjuntura argentina e do continente latinoamericano.

Ser e nomear

Uma das discussões mais importantes que aconteceram teve a ver com a atitude da comissão organizadoras de não renomear o Encontro levando em conta as diversidades sexuais e a pluralidade das nações participantes, mesmo quando na assembleia final de Chubut, o ano anterior, se havia votado pela mudança de nome. A insistência em manter o nome “Encontro Nacional de Mulheres” tem dois problemas fundamentais: é incongruente com o reconhecimento que fazem grande parte dos feminismos com relação à condição de vários povos originários que não querem declarar-se parte do Estado da Nação Argentina, e não reflete a inclusão no movimento de outras pessoas que não são mulheres. Por esse motivo, vários dos materiais não-oficiais que se compartilhavam nas ruas utilizavam outro nome: “34º Encontro Plurinacional de Mulheres, Lésbicas, Travestis, Trans, Bissexuais e Não-binárias”.

Foi um tema discutido em quase todas as atividades e que apareceu em cada microfone aberto. Era evidente que a enorme maioria das participantes estava preocupada pela falta de reconhecimento à mudança de nome decidida no encontro anterior. Além disso, a presença de milhares de mulheres migrantes e de outros países da América Latina tornava ainda mais absurda a decisão de não nomear a experiência de acordo com o que se estava vivendo

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Feminismos do prazer

As atividades culturais foram constantes. A música, a dança, a poesia, a literatura e o teatro são as linguagens mais importantes do encontro, além da intervenção performática que cada uma faz no próprio corpo, o que gera toda uma dimensão artística em si mesma. A sensação de estar em meio a tudo isso se parece a de ir atravessando uma espécie de parque da resistência para encontrar centenas de milhares de maneiras de transformar o medo e o ódio em beleza coletiva, em representação simbólica que transforma a vida. Uma característica muito importante é a existência de um monte de expressões que partem de linguagens locais e as transformam em outra coisa: malambos* feministas, tangos feministas, ritmos andinos, murgas, e tambores interpretados por mulheres e ressignificados contra o patriarcado. É um procedimento reciclado que atravessa a tudo: até a marcha peronista tem uma versão feminista centrada na figura de Eva Perón (emoldurada pela luta pelo aborto legal, seguro e gratuito). Nesse sentido, é impressionante comprovar como conseguiram dialogar com tradições mais populares, o que lhes permite não ter que unir-se de forma irremediável e única com formas simbólicas, consignas e costumes provenientes dos feminismos hegemônicos do norte global.

De sua parte, as economias feministas mostram sua potência na implantação dos diferentes postos de venda e troca que as mulheres colocam sob a lógica clássica das feiras e dos mercados de rua, de maneira horizontal e colaborativa.

Novo e velho, todo ao mesmo

O movimento feminista plurinacional e dissidente mistura tudo: utiliza dispositivos de coordenação e trabalho que provêm das identidades políticas e culturais mais diversas. Há assembleias, clãs, feiras e desfiles; debates, rituais corporais, rodas, oficinas, papos e exposições. Não existe a rigidez nos métodos de trabalho: o conceito de montar experiências “situadas” dá lugar a uma diversidade imensa na hora de encontrar modos de colocar o corpo na escuta das e des demais.

Baseado nisso, houve marchas, uma contra os travesticídios e outra que constitui uma das instâncias mais importantes e multitudinárias de todo o Encontro: a marcha de encerramento. Aí, 600 mil pessoas se encontraram para protagonizar um momento comum e alinhar-se contra a violência e pelo aborto legal, seguro e gratuito. Entre elas, chamava a atenção a coluna de adolescentes secundaristas, que marcharam todas juntas, com seus 14, 15, 16 anos. Porém, em geral, a mistura de idades e procedências das pessoas dava conta de uma multiplicidade infinita, digna de celebração por sua complexidade e potência.

É impossível descrever a sensação de estar perdida em meio a esse mar de mulheres, lésbicas, travestis, trans, bissexuais e não-binárias reclamando sua liberdade, suas condições de vida, seu direito de decidir sobre seus corpos. É uma vivência que se aloja na alma, como condição de possibilidade, porque permite passar pelo corpo, ainda que seja por poucos dias, as imagens, os cheiros e as formas de caminhar outro mundo possível. Este tipo de Encontros não somente sonham esse outro mundo, mas também o constroem, como se fosse um belo e necessário jogo, que jogamos porque sabemos que precisamos dele para sonhar e lutar as batalhas de cada dia, de cada hora, em nossas vidas.

Os transeuntes e vizinhos de La Plata também tiveram que, sim ou sim, conhecer esse outro mundo. Era muito difícil ser indiferente à intervenção política que os corpos produziram na cidade. Os corpos, o único que temos, nosso instrumento de luta por excelência, porque somos pobres, mas estamos juntas.

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