Vidas Negras Importam

Hoje, no dia da consciência negra, o SOS Corpo disponibiliza gratuitamente o mais novo livro da série Formação Política, escrito pela pesquisadora Rivane Arantes sobre Feminismos, relações sociais e lutas antirracistas. Baixe aqui a publicação: http://bit.ly/FeminismosAntirracistas

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Em Londres, jovem negra participa de manifestação em solidariedade ao movimento Black Lives Matter. Em frente a um cordão composto por homens brancos em fardas policiais na Brixton Roadem, ela segura um cartaz os seguintes dizeres “Sim, todas as vidas importam, mas estamos focados nas vidas do povo preto porque é bem visível que o nosso sistema judicial não sabe disso” (Foto: Jonathan Brady/PA via AP)

Nesse contexto mundial de profundas crises e de reorganização das forças produtivas e sociais, de volta à direita dos blocos hegemônicos que ocupam o poder nas mais diferentes regiões do planeta e diante da reinstalação dos golpes institucionais contra as frágeis experiências democráticas na América Latina, como o ocorrido no Brasil, no Paraguai e em Honduras,pouca mudança houve ou se anuncia à condição de vida e às percepções
sobre o significado das vidas das mulheres negras.

Nós, mulheres negras, somos parte significativa da população mundial e, igualmente, maioria na população brasileira. No entanto, seguimos entre os grupos sociais mais ignorados, subjugados, atacados e não livres do planeta (DAVIS, 2017). Na experiência brasileira, somos as pessoas que estão nas cifras dos piores indicadores sociais; continuamos trabalhando nos empregos mais precários, explorados e desprotegidos; habitamos as áreas de maiores riscos socioambientais; estamos expostas a diferentes situações de violência, fora de casa e no ambiente doméstico, especialmente à criminalidade violenta e às mortes por doenças totalmente evitáveis; já somos a 4ª população carcerária do planeta, depois dos EUA, da China e da Rússia; seguimos sub-representadas nas instâncias de poder político e, neste momento, estamos em extremo risco diante da sanha misógina-conservadora-fascista-racista que insidiosamente se locupleta de nosso trabalho explorado, mal pago e muitas vezes até análogo à escravidão, e nos retribui com a acelerada destituição de nossos direitos humanos, duramente conquistados com a insistente luta de muitas mulheres que nos antecederam.

Cada uma dessas situações e tantas outras, ainda insuficientemente reveladas pelas estatísticas oficiais, sustentam-se na conectividade entre racismo, patriarcado e capitalismo, sistemas de poder que se interpenetram e organizam os processos econômicos, políticos, sociais e culturais, constituindo subjetividades, quer dizer, modos de ser e de fazer, assim como ocorre às estruturas que articulam procedimentos, normas, práticas sociais e institucionais. Essas são circunstâncias que, inevitavelmente, pela experiência de opressão e de exploração, vinculam-nos a tantos outros sujeitos transformados como nós, em “outros/as” (FANON, 1968), para justificar sua localização à margem da sociedade, o seu impedimento de usufruir das riquezas produzidas coletivamente e, sua condição de objeto ou, no limite, de sujeitos de menor valor, espécies de subcidadãos/ãs num mundo, contraditoriamente, que ajudamos a construir e que não subsistirá sem o nosso trabalho.

Certamente por essa situação é que o Movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter), surgido nos EUA e espalhado pelo mundo, tem alertado que as vidas negras importam e, conforme ainda Ângela Davis, quando as vidas das mulheres negras importarem, o mundo será transformado, porque todas as vidas serão reconhecidas. Isso significa que a resistência às formas de opressão e exploração que atingem as mulheres negras é determinante, não somente para romper o ciclo de violência imposto a esses sujeitos mas ainda para transformar as vidas de todas as pessoas que, como nós, estão em situação de subjugação. Foi nesse sentido que se manifestou La Colectiva del Rio Combahee em 1977, uma das iniciativasnegras que já chamavam a atenção para a integração entre os sistemas de poder. Para elas:

“Si las mujeres Negras fueran libres,
esto significaría que todos las demás tendrían que ser libres
ya que nuestra libertad exigiria la destrucción de todos los sistemas de opresión”.
La Colectiva del Rio Combahee

Aqui está o ponto em que a luta antirracista se revela uma ação insurgente, uma “ação perigosa”. É a sua grande potência de enfrentar a “máquina colonizadora” que sobrevive até nossos dias e se insinua, inclusive, nas nossas relações mais íntimas. É a sua capacidade de inverter a lógica de dominação, chegando não somente aos corações e às mentes individuais, mas também ao cerne da lógica colonizadora dos sistemas. É isso que o anúncio de Lilian Ngoyi adverte ainda hoje. É essa a convocação que estamos desafiadas a assumir.

 

Meditações sobre feminismos, relações raciais e lutas antirracistas
Rivane Fabiana de Melo Arantes

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Esta obra foi originalmente publicada no Livro “Relatos, análises e ações no enfrentamento da violência contra as mulheres”, organizado por Cristina Stevens, Edlene Silva, Susane de Oliveira e Valeska Zanello, através da editora Technopolitik em 2017.