Vamos conversar sobre o tempo?

Não podemos acrescentar dias a nossa vida, mas podemos acrescentar vida aos nossos dias.

Cora Coralina

As agendas estão lotadas, quem tem um emprego, tá trabalhando o tempo todo, quem não tem, tá correndo atrás, tá na luta! A comida é fast-food, é no microondas, qualquer coisa, é no meio da rua – num dá tempo nem de comer! É o tempo que tá comendo a gente. Tudo pra ontem! No ar a gente respira esse sentimento opressivo de urgência, a falta de tempo é asfixiante. 

Convidamos você a parar e pensar conosco. Quem se atreve a chamar esse curso FONTES E VEREDAS sobre o TEMPO, além de responsável por nos conduzir na reflexão, é a Maria Betânia Ávila. Pesquisadora do tempo há um tempo já, Betânia conta que foram as mulheres do trabalho doméstico remunerado sua inspiração para pesquisar a fundo esse tema e, diz ela, que “o feminismo me trouxe essa percepção, interesse e essa visão crítica”.

“Então, há uma angústia sobre o tempo muito grande na fala das mulheres, na narrativa das suas experiências na sua vida cotidiana, nas suas trajetórias profissionais que está muito ligada a essa coisa das mulheres estarem no mundo do trabalho com a responsabilidade pelo trabalho produtivo e reprodutivo, e ligada a essa disponibilidade das mulheres para o cuidado com os outros como se fosse isso uma atribuição da sua própria existência”, afirma Betânia.

Ela explica que isso torna muito tensa e invisível a relação das mulheres com o tempo: “As mulheres estão sempre falando da falta de tempo ‘tô sem tempo pra mim, como se o tempo tivesse totalmente fora do seu controle, do seu próprio desejo, da sua própria definição”, explica. Para ela, uma frase absolutamente lapidar vem de uma pesquisa sobre o trabalho doméstico das trabalhadoras domésticas remuneradas que exercem esta função em domicílios de outras pessoas, mas, como muitas de nós mulheres, também são trabalhadoras domésticas do trabalho gratuito em suas próprias casas. Numa pesquisa sobre organização da vida cotidiana entre esses dois trabalhos “eu coloquei uma questão para ela: E o tempo pra você? Esse tempo absolutamente seu que você faz dele o que você quiser? E ela me responde: ‘Um tempo pra mim? Um tempo meu? E esse tempo existe?’”

Por isso Betânia e o SOS Corpo convidam para refletir sobre o tempo e suas dimensões, sobre por onde anda esse tempo que nos andam roubando, sobre esse tempo que, na verdade, não anda, voa – e o que vai com ele é nossa condição de sujeitos/as pensantes, com capacidade de escolher o que fazer do nosso tempo e das nossas vidas. Isso, mesmo, não devemos criar ilusões: não é o tempo apenas que está sendo levado, é também as condições para nossa existência. Esse tempo está sendo roubado, acreditem em Betânia Ávila. Ela diz que “o capitalismo sobrevive de tornar invisível o que é o próprio centro da sua exploração”.  Há um plano por trás de toda essa aceleração do cotidiano, um plano de crescimento econômico, um plano de acumulação de riquezas.

Uma das tramas do capitalismo é tentar nos convencer de que tempo é dinheiro, quanto mais produzirmos em menos tempo, melhor. Mas, nessa relação acelerada de produtividade, entre trabalhador/as e os/ donos dos meios de produção, quem sai ganhando com isso é apenas um. De nós trabalhadores/as, o nosso tempo, a nossa terra e a nossa existência estão sendo exploradas e subtraídas para geração de lucro dos donos do meio de produção. Quando tudo é pra ontem, quando não se tem espaço para respeitar o tempo adequado dos trabalhos, quando a equipe está defasada e você tem que trabalhar o dobro – é o tempo da nossa vida que está sendo apropriado.

“Um tempo que parece tão farto propiciado pelas tecnologias, mas não é. Você acha que ganhou muito tempo quando chega em casa à meia noite e vai fazer as suas transferências bancárias, quando, na verdade, você está trabalhando para o mercado financeiro. Isso tudo para ter uma forma de vida onde você está ganhando dinheiro, gastando dinheiro e a tua própria existência está sendo consumida nisso: no produzir e consumir”, reflete Ávila.

Betânia Ávila no Seminario Igualdad, Genero y No Discriminación, no Paraguai. Foto: Divulgação CDE

É com o tempo que fazemos a nossa vida, é no tecido do tempo em que costuramos a nossa existência. Por isso mesmo, um curso sobre o tempo, pois temos que “aprofundar nosso conhecimento feminista sobre o tempo, sobre como se organiza a vida social, mas também como organizamos a nossa própria vida. Quando falamos de tempo, estamos falando da história do mundo, da organização do mundo e da nossa vida e da nossa existência. Então, por isso, esse elemento do tempo tem que se transformar numa questão mais importante para nós, feministas”, conclui.

Ela nos convoca porque como feministas, além de trabalhar para mudar esse sistema em que nós vivemos, temos de pensar outra forma de organizar a vida. “E acho que a gente pode mesmo construir novas experiências, onde não nos rendamos a essa dinâmica. Acho que a gente pode criar outras formas de organizar nosso trabalho muito mais solidários em relação ao tempo cotidiano de cada uma, principalmente com as mulheres que têm filhos/as pequenas, porque elas têm outras necessidades. E são elas nesse sistema de divisão sexual do trabalho que, mesmo trabalhando para ter uma renda, continuam responsáveis pelas crianças e pelo trabalho doméstico”. 

Cronograma de Inscrições

Local: SOS Corpo, Rua Real da Torre, 593, Madalena
Data: 29 a 31 de outubro, das 18h30 às 21h30

Inscrições: de 30/09 a 13/10/2019
Divulgação das selecionadas: 15/10/2019

Inscreva-se aqui: https://forms.gle/oAkp3hg91cPqatN9A

Nasci em tempos rudes. Aceitei contradições, lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo. Aprendi a viver.

Cora Coralina