Tudo que atinge a classe trabalhadora como um todo atinge mais as mulheres

 Publicado originalmente em Marco Zero Conteúdo

adalgisasaberturaMilitante feminista há mais de duas décadas, a educadora e socióloga Carmen Silva – do SOS Corpo e do Fórum Pernambucano de Mulheres – está desesperançosa com as eleições que se aproximam. “Não há possibilidade de um governo comprometido com as causas sociais sem a revogação das medidas do golpe”, diz, citando a PEC dos Gastos e as reformas trabalhista e da previdência (esta, ainda sem data de votação). Carmen também vê com desconfiança o crescimento de candidatas “feministas”.  “A direita, assim como o mercado, está tentando se apoderar do nome feminismo, e não da pauta”, aponta. Na entrevista ao projeto Adalgisas, ela fala sobre as propostas que interessam às mulheres nessas eleições.

Qual sua expectativa para essas eleições?
Primeiro, estou esperando que as eleições aconteçam. Porque não está seguro completamente que se viabilize as eleições. Tudo indica que sim, mas as eleições, eu acho, são um caminho para conferir legitimidade para a agenda do golpe. Para eles poderem continuar com essa agenda de desmonte do Estado, dos direitos, das políticas públicas garantidoras de direitos, de uma forma legal. De terem sido aprovados em uma eleição. Eu acho que ainda corre risco. Tudo indica que as forças golpistas vão se unir em torno da candidatura de Alckmin. Mas se a candidatura dele não decolar…pode ser que Alckmin se aproxime mais do discurso de Bolsonaro, para pegar eleitores dele. O que é bastante grave.

Quais as diferenças para as mulheres das candidaturas de Alckmin e Bolsonaro?
Para as mulheres, a candidatura de Alckmin é gravíssima. Ele é da Opus Dei, uma organização católica de extrema-direita. Então não é politicamente muito distante de Bolsonaro nos assuntos que se referem às mulheres. Sendo que Bolsonaro diz isso com a maior transparência, e Alckmin não. São candidaturas temerárias. Espero que tenha eleições e que uma coalizão de centro-esquerda possa ser vitoriosa. Essa é uma esperança otimista. Continuo com muita apreensão de que não vai ter eleições.

E o que esperar de uma candidatura de esquerda ou centro-esquerda?
Do ponto de vista do Fórum de Mulheres de Pernambuco, uma candidatura de esquerda ou centro-esquerda, tanto para o executivo quanto para o legislativo, deve se comprometer com a revogação das medidas do golpe. Mesmo ganhando uma candidatura de centro-esquerda, ou até centro-direita, em ambos os casos não há possibilidade real de governo de centro mantendo as medidas do golpe. Você tem 20 anos com redução de gastos sociais, você tem a reforma trabalhista com perdas de direitos que eram desde a década de 30, você tem a entrega da mineração, a entrega do pré-sal, a reforma da previdência que deve ser votada logo após as eleições… Então um governo nesse contexto, com essas novas legislações, não pode ser um governo nem de centro. Ou revoga-se isso, ou não há possibilidade de governo nem de centro. Pode até se eleger pela centro-esquerda, mas vai fazer um governo de direita.

E que medidas atingem mais as mulheres?
Tudo que atinge a classe trabalhadora como um todo atinge mais as mulheres. Porque antes do golpe nós mulheres já éramos 70% do trabalho informal. Ou seja, do trabalho sem direitos trabalhistas. E se tiram os direitos trabalhistas quem fica mais prejudicado? Quem já não tinha, cai. Na medida que uma mulher tem um trabalho com direitos, é bancária ou professora, e ela perde isso, reduz as condições dela de vida, vai cortar onde? Vai demitir a empregada, que já estava lá sem direitos. Ela vai deixar de fazer roupa na costureira, vai deixar de comprar no comércio informal… Então o desemprego é grave para quem tinha emprego, e mais grave ainda para quem já não tinha emprego. Estamos vendo o aumento da população de rua a olhos vistos no Recife. Você vê famílias completas morando nas ruas, e há tempos nós não víamos isso dessa forma. Quem já era vulnerável, fica mais vulnerável ainda.

Na eleição estadual, em que  pautas o Fórum de Mulheres de Pernambuco está mais focada?
Não vamos fazer uma plataforma de políticas públicas. Se o governo quiser fazer políticas para as mulheres, basta ver o resultado das últimas conferências. Não precisa que a gente diga que são necessários serviços de atendimento contra a violência, que é preciso serviços para o aborto legal, que está tudo quebrado. Que é preciso políticas de geração de emprego e renda, que é preciso atenção à saúde da mulher, que é preciso que um governo, que seja minimamente democrático, se colocar contra a Escola Sem Partido – (projeto que) está não só nas esferas nacional e estadual, mas aprovando leis municipais que proíbem a discussão de pautas de gênero e sexualidade nas escolas. E em alguns casos a história da África. Para a candidatura que quiser discutir a pauta feminista a gente tem uma plataforma muito mais ousada. Uma plataforma de enfrentamento ao racismo, ao capitalismo, de legalização do aborto, uma plataforma muito mais ampla. Mas se quiser só implantar políticas públicas, é só consultar as conferências. Não se trata de fazer hoje uma plataforma para ver qual candidatura se comprometerá. Uma candidatura que se comprometa com as mulheres tem onde buscar essas informações (neste ano, foi feito um documento de posição no contexto eleitoral).

Você vislumbra algum sinal de mudança nas candidaturas para o governo?
O que se pode esperar do mesmo? Desta coligação com Paulo Câmara e que tem de sobrepeso Jarbas Vasconcelos. O PCdoB esteve no governo Paulo Câmara desde sempre. Ter uma mulher como vice (Luciana Santos, do PCdoB) não garante compromissos com a agenda feminista antirracista, anticapitalista. Luciana tem tido boas posturas na Câmara Federal em relação às votações que dizem respeito às questões das mulheres. Mas acho que ela vai pesar tanto quanto o PCdoB pesa na prefeitura do Recife. Nada. Em termos de implantação de políticas públicas, não pesa na agenda. Humberto Costa historicamente também se posicionou favoravelmente a várias pautas feministas. Mas recentemente tem feito movimentações dentro do partido que são contrárias ao aprofundamento da luta social. Foi bonito ver a militância petista tentando emplacar uma candidatura própria. Marília Arraes simbolizou uma retomada do PT às suas raízes e à militância histórica, aos movimentos sociais. Foi uma simbolização, porque ela própria não tem essa história. Mas foi muito importante.

Você acha que é possível ter um feminismo de direita?
Acho que não. A direita, assim como o mercado, está tentando se apoderar do nome “feminismo”, e não da pauta, porque o feminismo está com muita presença nas redes sociais, muitos novos coletivos organizados. Como sempre, a direita e o mercado tentam abocanhar o que ganha força massiva justamente para desmobilizar sua pauta. Uma jovem que vê o feminismo na internet e se identifica. Não é diferente do que acontecia há 20 anos quando a gente fazia uma roda de conversa com 20 mulheres sobre violência ou sexualidade e depois falava sobre feminismo. Era comum alguém dizer “se isso é feminismo, eu sempre fui feminista”. Hoje isso ocorre em uma escala muito maior pelas redes sociais. Só que ela ás vezes nem sabe onde encontrar um feminismo presencial. Um feminismo que reúna mulheres para lutar. Aí vai na Riachuelo e tem uma camiseta com dizeres feministas e ela vai lá e compra. Ela não vai ter uma análise crítica de que o mercado está se aproveitando disso. O comércio tenta capturar esse sentimento de revolta que todas mulheres temos por viver em uma sociedade patriarcal. Então o comércio tenta se abocanhar disso e a direita também. Alckmin coloca uma mulher para vice, porque precisa de uma mulher, mas é uma mulher de ultra-direita. Não é uma mulher feminista. O feminismo é um movimento social contra a ordem. O feminismo tem uma trajetória histórica que merece ser respeitada. Essa tentativa de gerar confusão entre ser mulher e ser feminista é uma tentativa da direita e do mercado, que andam sempre juntos. Há homens que têm uma pauta mais feminista do que uma mulher que seja comprometida com o status quo. Nem todas as mulheres são feministas. Se todas fossem, já teríamos feito uma revolução.

O feminismo também fez com que partidos de esquerda abrissem mais espaço para as mulheres. O PSol em Pernambuco está com uma chapa majoritária só com mulheres. É algo significativo, porque os partidos de esquerda nunca fizeram isso. E por que fazem agora? Porque o feminismo cresceu muito e eles estão tentando dialogar com esse crescimento. Então, ao mesmo tempo em que a direita tenta se apropriar e desviar as pautas, a esquerda se vê obrigada a dialogar com o movimento, porque não tem alternativa. Candidaturas de esquerda estão se colocando a partir do feminismo. Cresceu muito o número de candidaturas identificadas com o feminismo.

E nem sempre é um feminismo que vem da militância.
Só poderemos avaliar mesmo na medida que for se aproximando das eleições e ver em que medida se sustenta a pauta. O debate que estamos levando no mês de setembro é o da legalização do aborto. Candidaturas que não se comprometam com isso e tergiversem, obviamente não têm viés feminista. Candidaturas que não se comprometam com o combate do racismo, não têm compromisso com o feminismo. Dá para sacar essas incoerências no período eleitoral. Porque fica tudo muito transparente.

Essa vai ser uma campanha muito curta para deixar clara as posições.
E muito arriscada por isso. Porque qualquer golpe no estilo Rede Globo, é muito rápido e não dá tempo de desconstruir. Lembro na campanha de 1989 e Collor era a zebra, não era nada antes da eleição, cresceu no estilo de combate ao marajás, que sempre pega em épocas de crise. Lula se descompensou no debate (ao ser questionado se havia proposto aborto a uma ex-companheira), porque aquilo não era uma questão resolvida para ele. A Globo se aproveitou e fez um Jornal Nacional no dia seguinte com ele em situação vexatória. O período eleitoral também serve para deixar muito clara as posições de cada um.

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