Pelo direito à memória como ato da luta política feminista

Dossiê Memórias: Trajetória de Resistências Arquivo SOS Corpo

Estamos vivendo no contexto brasileiro, uma tentativa do apagamento da memória da resistência política e da leitura crítica sobre o período que durou 21 anos e no qual, pela ação do aparato estatal, foram assassinadas mais de 430 pessoas, parte destas ainda desaparecidas políticos. Período em que o Estado levou à prisão de forma ilícita, marcado por torturas praticadas contra mais de 20 mil pessoas. Essa história instaurada no Brasil sob um golpe, o golpe de 31 de março de 1964, sob a frágil democracia brasileira,  sofre agora uma tentativa de revesti-la de uma qualidade “revolucionária” quando, na verdade, representa um crime humanitário ainda impune no Brasil.

A decisão do governo federal em “comemorar” os 55 anos do golpe de 64 é um atentado a memória, a história. Estão tentando recontar os fatos apagando a violência institucional praticada por militares de uma época marcada por inúmeras violações, sob a justificativa de restabelecer a ordem e contra o crescimento da esquerda no Brasil, e parte do movimento de resistência democrática na América Latina. Essa celebração representa uma ofensiva, uma tomada do poder contra o desenvolvimento do pensamento de esquerda e movimento político que se contrapunha ao conservadorismo, e parte da saída da classe dominante, burguesa, militares, foi resolver a “crise” por um golpe de estado que deixou sua marca sangrenta na história. Não há nada de revolucionário nisto. As ideias conservadoras, nacionalistas voltam agora reposicionadas por uma nova direita que prega o ódio ao diferente. Parte desta estratégia é o apagamento da memória social, da militância, dos sujeitos políticos que contestaram o regime ditatorial, instaurado em 64.

Dossiê Memórias: Trajetória de Resistências Arquivo SOS Corpo

A iniciativa do governo federal instaurou um positivo debate na sociedade com o posicionamento de várias organizações (MPF-PFDC/ OAB/ MNDH, dentre outros) sobre como isso contribui para fragilizar ainda mais o cenário democrático brasileiro, minimizando os efeitos perversos, negativos deste período, que aportam consequências em dias atuais, deixando sua herança autoritária, sexista, hierarquizada, que tem como resultado a sub-representação na política. A ditadura militar nos deixou, sobretudo, uma herança que alija o sujeito político da história. Comemorá-la significa transformar  em inimigos da nação as vítimas de torturas, estupros e assassinatos cometidos pelo próprio Estado!

Dossiê Memórias: Trajetória de Resistências Arquivo SOS Corpo

Para o movimento feminista contar essa história, fazendo, obviamente, uma crítica ao estado de exceção e policial de 21 anos de ditadura militar , é necessário reafirmar que as mulheres estiveram presentes nesta história como protagonista da ação política de resistência. E que 55 anos depois, ao recontar essa história, precisamos agregar o fato de que, na luta contra os valores fundamentalistas, nós mulheres também nos colocamos do lado da história que defendia um projeto societário com igualdade de gênero, e que sobretudo promovesse a autonomia e liberdade das mulheres em todas as dimensões da vida social.

Dossiê Memórias: Trajetória de Resistências Arquivo SOS Corpo

Então, há 9 anos, como parte da sua estratégia de fortalecimento organizativo e da luta do movimento feminista o SOS Corpo – Instituto Feminista para Democracia –  tornou público o dossiê Memórias: Trajetória de Resistências como símbolo da luta das mulheres e em tornar visível uma parte da história da ação política feminista em tempos de estado ditatorial. Essa memória está sistematizada nos Cadernos de Crítica Feminista, de dezembro de 2010. E por esta ocasião relançamos o Dossiê para afirmar que nossa luta é pelo direito à memória e à verdade como movimento dinâmico da história. “ Ditadura nunca mais!”

Ano IV/ Número 3 / Dez. 2010

Revista Nº 3 para DOWNLOAD

Memórias Trajetórias de Resistência

Nova forma de pensar e fazer política
Rosalina de Santa Cruz Leite
O feminismo no cotidiano das prisões
Amelinha Teles
Da luta de resistência à ditadura ao feminismo
Criméia Alice Schmidt de Almeida
As relações de gênero entre mães e filhas/os na solidão da tortura
Eleonora Menicucci de Oliveira
Presas políticas no Recife
Entrevista Lilian Celiberti: A democracia é um projeto sempre inacabado
Verônica Ferreira e Rivane Arantes