Pela efetivação de uma rede de enfrentamento à violência contra a mulher

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Grupos de mulheres dos municípios de Água Preta, Joaquim Nabuco, Catende e Palmares se articulam para realização do Fórum de Diálogo Interprofissional, com o objetivo de consolidar uma rede pública e eficaz de serviços voltados para o enfrentamento à violência contra a mulher na Zona da Mata Sul de Pernambuco.
por Nathália D’Emery, integrante do SOS Corpo

De 20 a 23 de julho, acontece em Água Preta, Joaquim Nabuco, Palmares e Catende, o Fórum de Diálogo Interprofissional, com o tema Mulheres Tecendo Rede Contra a Violência. Os quatro municípios da Zona da Mata Sul de Pernambuco são conhecidos por contarem com um movimento de mulheres organizado e atuante, que trabalha o enfrentamento à violência contra a mulher na região. O SOS Corpo e estes grupos são os responsáveis pela articulação do encontro, que pretende reunir profissionais de áreas diversas, como saúde e segurança pública, além de representantes das Coordenadorias e Secretarias da Mulher, de Educação, dos Centros de Referência Especializados da Assistência Social (CREAs) e dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAs).

A ideia é promover diálogos entre os profissionais e as representantes das Associações e Centro de Mulheres, questionando a fragilidade da rede de serviços governamentais responsáveis pelo enfrentamento à violência contra a mulher, como as delegacias, os Centros de Referência de Atendimento, as unidades de saúde, entre outros.

Os municípios da Zona da Mata pernambucana possuem índices alarmantes. Entre 2008 e 2012, os números de óbitos de mulheres por violência nas cidades de Vitória de Santo Antão, Escada e Palmares representaram, por exemplo, 45% de todos os homicídios femininos na Zona da Mata. Entre as questões que unem as articuladoras do encontro, destacam-se a vontade de afinar parcerias e de acessar informações que representem com veracidade o quadro da violência na região, já que estes dados são negados pelo serviço público. “As políticas para as mulheres são implantadas mas não são efetivadas. Chegam aos municípios de forma errônea. Por isso é necessário o controle social, até para que as próprias mulheres saibam que estas políticas existem”, comenta Magal Silva, da Associação das Mulheres de Água Preta.

Já Kakau Luiz, do Grupo de Mulheres Vitória de Serro Azul, de Palmares, aposta na união. “Se formos lá na Secretaria da Mulher, o índice de violência está baixíssimo. Sabemos que isso não é verdade! Queremos uma parceria, que nos escutem, que nos deixem ficar por dentro do que está acontecendo. Vamos até o Hospital Regional de Palmares e não vemos uma entrada por conta da violência causada pelo companheiro. É sempre ‘ela caiu da escada, levou um tombo, estava tirando algo do armário’. Então minha expectativa é que realmente consigamos deixar transparente o que está acontecendo”. Kakau Luiz ainda diz que nos últimos meses houve um enfraquecimento da atuação da Secretaria da Mulher de Palmares e ressalta o esquecimento por parte das políticas públicas. “Só precisam da gente quando é pra fazer mutirão ou para uma inauguração de algo, então convidam o grupo de mulheres. Eles contam com a gente, mas não sinalizam de volta com o que precisamos”. O Fórum de Diálogo Interprofissional vai trazer também depoimentos de mulheres vítimas de violência e que integram os grupos.

Apesar de avanços como a Lei Maria da Penha (Lei Federal 11.340/2006), certos padrões – como agressão por parte do companheiro, silêncio e isolamento, falta de policiamento nas ruas à noite, mulheres que são violentadas e/ou assassinadas por conta do envolvimento dos filhos com o tráfico de drogas – e os números mais recentes têm demonstrado que muito ainda precisa ser feito.

De acordo com o diagnóstico Violência Contra as Mulheres e Redes de Serviço, divulgado em setembro de 2014, pelo SOS Corpo, a viabilização e o fortalecimento da rede de atendimento na Zona da Mata são necessários para se lidar com os casos de violência e incentivar mudanças sociais e culturais que possibilitem a diminuição das desigualdades de gênero e das relações de opressão dos homens com relação às mulheres.

Magal Silva, da Associação das Mulheres de Água Preta, ainda aponta questões machistas e patriarcais, além da atual conjuntura social e do próprio medo como fatores que silenciam as mulheres e as deixam vulneráveis. “A falta de emprego e a educação que não chega a todos os lugares, principalmente, às periferias e zona rural, são fatores decisivos. É importantíssimo levar as mulheres para o campo do debate”, reflete Magal.

Outro ponto que vai ser reivindicado no Fórum de Diálogo Interprofissional é a necessidade de sensibilização por parte dos profissionais. Graça Queiroz, coordenadora da Associação das Mulheres de Catende, questiona o tratamento desigual que as companheiras da Zona Rural recebem em determinados setores. “Às vezes por não saberem quem procurar, às vezes por não saberem se expressar, elas são ignoradas. Sabemos porque vivemos isso no dia a dia em nossas comunidades. O que nos fortalece mais são os grupos, as associações, os centros de mulheres, porque assim ficamos juntas. Nós nos apoiamos, nos orientamos”. E ainda completa: “a maior parte dos nossos gestores é desinformada. Isso é o que vamos cobrar. O encontro vai ser uma oportunidade ótima para mostrar a realidade”.

Com o objetivo de ter dados mais atualizados, o movimento de mulheres do município de Joaquim Nabuco elaborou um questionário que foi encaminhado para as Secretarias de Educação e Saúde, para o CRA, o CREA e delegacias, além da Coordenadoria da Mulher. Eliane Nascimento, do Centro de Mulheres de Joaquim Nabuco, comenta que elas estão fazendo um levantamento sobre a situação das mulheres com relação à violência no município e como estes atores estão contribuindo no processo. “Vamos fazer um relatório colocando os dados e decidimos que três representantes nossas vão fazer falas no Fórum de acordo com este questionário. A proposta é ver com os profissionais quais as formas que podemos encontrar para enfrentar a violência contra as mulheres”, comenta Eliane Nascimento, que espera sair do encontro com um indicativo para a consolidação de uma rede de enfrentamento à violência.

Para isso, é necessário adesão social e apoio político às ações dos grupos de mulheres existentes, que, em muitas localidades, são vozes isoladas na denúncia e atuação frente ao problema. “A importância é mostrar que não estamos sozinhas e que temos nossas parceiras. Estamos na luta sim. Existimos sim. Estamos cobrando sim. Acreditamos que este Fórum vai fortalecer muitas e muitas mulheres”, finaliza Graça Queiroz.

Serviço:

Fórum de Diálogo Interprofissional 

20/07/15 – Em Água Preta, na Escola Estadual João Vicente de Queiroz

21/07/15 – Em Joaquim Nabuco, na Escola Estadual Coronel Alfredo Brandão

22/07/15 – Em Palmares, no Centro de Referência da Mulher

23/07/15 – Em Catende, na Câmara Municipal

Contatos:

Magal Silva (Associação das Mulheres de Água Preta) – (81) 987091084

Eliane Nascimento (Centro de Mulheres de Joaquim Nabuco) – (81) 994525807

Kakau Luiz (Grupo de Muheres Vitória de Serro Azul, de Palmares) – (81) 996773347

Graça Queiroz (Associação das Mulheres de Catende) – (81) 988638454