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Mulheres Indígenas de todo Brasil se reúnem em Brasília para denunciar a violência contra seus territórios

Duas mil mulheres de diferentes etnias e de diferentes territórios do Brasil são esperadas para as atividades da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, que acontece entre os dias 9 a 13 de agosto na cidade de Brasília. Com o tema “Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito”, a Marcha é um momento de extrema importância para o marco da organização das mulheres indígenas do Brasil e deve reunir diferentes gerações, línguas, culturas, cosmovisões em um só grito: denunciar o massacre das populações originárias, desde o período colonial até os dias atuais, diante de uma disputa por território contra o sistema neoliberal, racista e patriarcal.

“Vamos estar todas juntas, marchando pelos nossos direitos, pelo nosso território e contra toda essa opressão que hoje a gente tá vivendo, nessa atual conjuntura que nos oprime enquanto mulheres, em especial como mulheres indígenas. Hoje não tá fácil para nós mulheres indígenas e para os indígenas em geral. Então essa Marcha vai ser o grito das mulheres indígenas em prol dos povos indígenas”, explica Merlane Tiriyó, 21 anos, indígena da etnia Tiriyó, estudante de direito e militante da Articulação de Mulheres do Amapá (AMA).

A organização da Marcha das Mulheres Indígenas acontece em meio aos recentes ataques do agronegócio e do latifúndio brasileiro às comunidades indígenas no Norte e no Centro-Oeste do país, como os recentes casos de violência de garimpeiros contra o povo Waiãpi no Amapá, com o assassinato do cacique Emyra Waiãpi, e da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul contra o povo Kinikinawa, que tiverem sua terra invadida em uma operação regrada a muita violência.

Os dois casos citados aconteceram em um intervalo de uma semana e ganhou repercussão internacional. Ecoa pelo mundo a política genocida, excludente e violenta do atual governo brasileiro, que tem como mandatário um apoiador da ditadura, da tortura, da violência e da exploração sem consequências do meio ambiente e das terras indígenas. Jair Bolsonaro (PSL), que ainda durante as eleições se posicionou contra a demarcação de terras indígenas, logo antes do assassinato de Emyra Waiãpi sinalizou a possibilidade de facilitar as operações de garimpo em terras indígenas.

Dentro desse contexto de genocídio, o Fórum de Nacional de Mulheres Indígenas, que têm a Marcha no dia 13 como uma das suas atividades, tem um caráter político muito importante para a luta dos direitos humanos das populações indígenas. Segundo Maria Gavião, militante indígena da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), a expectativa é de reunir as mulheres na capital federal para denunciar o contexto de violação sistemática dos direitos das comunidades. “Nossa expectativa é conseguir que duas mil mulheres cheguem em Brasília, realizar as ações previstas e fazer as denúncias, que esse é o grande objetivo, das ameaças de perdas de direitos, dos territórios, dos corpos e das mentes”, conta.

Fortalecimento do Movimento de Mulheres Indígenas

Além do caráter denunciativo, a Marcha tem como objetivo fortalecer o movimento indígena brasileiro e as organizações das mulheres indígenas em seus locais, estados e a uma articulação nível nacional. Essa é também uma das expectativas compartilhadas por Merlane Tiriyó. Ela que esteve presente na Plenária Nacional da Mulheres Indígenas durante o Acampamento Terra Livre (ATL), ocorrido também em Brasília em abril deste ano, conta como esse momento é histórico para o movimento de mulheres indígenas.

“A Marcha vai significar muito não só para as mulheres indígenas, mas todas as mulheres que vão estar presentes nessa Marcha. Vai fortalecer muito os movimentos indígenas e das mulheres indígenas por estarem participando e se empoderando cada vez mais. Isso é muito importante, a mulher indígena ser empoderada em âmbitos nacionais, estaduais, em qualquer lugar, até mesmo nos cargos que a gente nunca alcançou, mas que aos poucos a gente tá ocupando, espaços que a gente deveria ocupar como mulheres indígenas. Não só como mulher indígena, mas como qualquer mulher né? A gente tem que se apoiar, uma com a outra, pra gente subir juntas”, afirma.

Outro momento que é esperado é a integração das mulheres do campo na Marcha das Mulheres Indígenas, bem como a participação das indígenas na Marcha das Margaridas, que acontece no dia 14 de agosto, também em Brasília. A efervescência do movimento de mulheres no Brasil representa em 2019, com essas duas Marchas, um caminho de resistência contra as atrocidades políticas adotadas pelo atual governo que em seus oito meses de gestão, só para citar um exemplo, já liberou mais 239 agrotóxicos para serem usadas na agricultura em larga escala, substâncias cancerígenas e altamente nocivas que são proibidas em países europeus. Ou ainda, segundo dados divulgados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento da Amazônia em junho de 2019 aumentou 88% em comparação com o mesmo mês em 2018.

“Por ser a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, onde vai reunir mulheres indígenas de diferentes estados desse Brasil e mundo também, a minha expectativa é de união entre as mulheres indígenas e mulheres não-indígenas, por ser uma Marcha que vai se juntar à Marcha das Mulheres Margaridas. Então é a primeira vez que uma coisa assim vai acontecer e é um sentimento bom de estar com elas, na verdade de empoderamento de mim mesma. Me empoderar mais junto com as mulheres. Eu vejo que as mulheres em geral, não só indígenas, quanto mais a gente se junta, somamos mais força juntas. E a gente pode fazer tudo juntas. União de forças, indígenas e não-indígenas”, enalteceu Merlane.

Segundo Analba Brazão, da equipe do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, o apoio dos movimentos de mulheres não-indígenas representa uma aliança importante para a valorização e fortalecimento das mulheres indígenas como sujeitos políticos. “É uma luta coletiva das mulheres por uma vida melhor e sem violência. Devemos fortalecer a organização das mulheres indígenas, sua autonomia, respeitar suas cosmovisões, as diferenças entre as etnias e, sobretudo, a suas formas de pensar e atuar em torno de suas questões. Dentro das nossas diferenças, buscar a unidade na defesa das tradições, dos territórios e dos conhecimentos das populações indígenas, salientou.

“Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito”

Plenária Nacional de Mulheres Indígenas no ATL definiu o mote do tema. Foto: Matheus Alves

A luta das mulheres pela proteção do meio ambiente e dos seus territórios é uma luta compartilhada com todos que formam suas comunidades. A defesa da soberania dos povos, bem como a preservação e manutenção do meio ambiente são os temas-chave que levaram ao tema principal da Marcha. De acordo com Merlane Tiriyó, a Plenária Nacional das Mulheres Indígenas no ATL foi um momento de intensa articulação e foi de onde saiu o sentido político para a realização da Marcha. Ela explica como as mulheres chegaram ao tema.

“No primeiro momento as mulheres indígenas se dividiram por regiões, por organizações e por grupos, onde foram debatidos vários temas. O tema que foi mais consenso entre todas,   em geral, foi a luta pela proteção e manutenção dos nossos territórios, do meio ambiente, de acesso à saúde, a educação…e tudo isso foi falado nos grupos para chegar ao tema da Marcha. E como muitas mulheres falaram sobre o tema do território e cuidado com o meio ambiente, chegaram ao nome que tem tudo a ver”, conta.

Campanha Internacional pelos Territórios

Merlane Tiriyó destacou ainda a conexão do tema da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas do Brasil com a campanha internacional lançada na  plenária do VII Fórum Social Panamazônico e Andino (FOSPA), realizado em Tarapoto, no Peru em 2017. Com o tema “Nossos Corpos, Nossos Territórios”, a campanha nasce da mobilização das mulheres indígenas e amazônicas em suas organizações em aliança com movimentos feministas da América Latina. Ela surge com o objetivo de denunciar a multiplicação das violências contra as defensoras dos territórios e da guinada extrativista, alimentados pelas forças políticas patriarcais, colonialistas e racistas do sistema neoliberal.

“Eu achei muito importante também porque uma coisa que eu ouvi quando participei do encontro de mulheres indígenas lá no Peru foi a campanha das mulheres indígenas de lá. Foi muito bom essa conexão das mulheres indígenas daqui do Brasil e do Peru, que nunca tiveram contato, tiveram essa conexão espiritual, que atravessa a questão e pertencimento de ser mulher indígena”, aponta Merlane.