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Luta por direitos levou 7 mil mulheres às ruas do centro do Recife

Por Gabriela Falcão*

Os sentimentos de identidade e de comoção contagiaram muitas das 7 mil mulheres que foram às ruas do Recife neste 8 de Março, segundo estimativa dos movimentos sociais.

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Na concentração do ato unificado “É Pela Vida das Mulheres”, no Parque 13 de Maio, já se via uma pluralidade de espaços e de sujeitos políticos: rodas de diálogo sobre diversos temas, como violência, saúde, aborto, trabalho, mulheres negras; oficinas de cartazes e a animação da batucada feminista composta por um coletivo de mulheres militantes do Fórum de Mulheres de Pernambuco, Levante Popular da Juventude e Marcha Mundial de Mulheres.

As mulheres fizeram o percurso até a Praça do Derby e encerraram com uma ciranda feminista. Durante o trajeto da passeata, via-se pessoas de diferentes gerações, desde crianças a idosas: todas unidas em torno de seus desejos de mudanças e da luta pela igualdade de gênero. O lema “Feminismo é a ideia radical de que mulher é gente” mostrou o quanto o espaço fez sentido. Na concepção da feminista cicloativista Emanoela Bernadino, “Esse espaço, para mim, significa muita coisa. Significa coisas que eu já gritava antes de ser mãe e, agora, sendo mãe e sendo mulher, gritar pela liberdade porque eu acho que a gente acaba ficando muito sobrecarregada por ser mãe e a gente vive a ideia de que por ser mãe você tem que assumir tudo e isso cansa a gente e eu não quero estar apática nisso”. Ela levou a filha de um ano ao ato, pois acredita que ela, um dia, vai entender toda essa luta e a importância de se gritar por mais direitos.

As mulheres gritaram o “não” ao machismo, ao racismo, à lesbofobia, à transfobia e às diversas formas de discriminação e desigualdades de gênero. Suas palavras de desordem ecoaram numa das principais vias do Recife, a avenida Conde da Boa Vista, que ganhou as frases feministas estampadas em suas paredes, como: “Ser uma mãe é uma escolha”, “Por uma consciência negra e feminista”, “Lugar de mulher é onde ela quiser”, “Aborto público, seguro e legal é direito de toda mulher”, dentre outras.

Uma das organizadoras do evento, que faz parte da Secretaria de Mulheres da Central Única dos Trabalhadores, Liana Araújo, relatou: “Estou muito feliz porque eu acho que as mulheres foram plenas na felicidade de estar nas ruas dizendo o que não gostam, o que não querem, o que querem mudar”. Na roda de diálogo em que participou, entre as diversas que aconteceram durante a concentração no Parque 13 de Maio, Liana conversou com pescadoras e mulheres que trabalham passando o jogo do bicho, que denunciaram os assédios sexuais e as dificuldades que passam no cotidiano do trabalho por serem mulheres. “São companheiras invisibilizadas no mundo do trabalho”, apontou.

O ato agregou também mulheres do meio rural, vindas de diversas partes do Estado, por meio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Pernambuco (Fetape). Para a diretora de mulheres deste órgão, Genuzi Marques, “Esse ato vem para que a gente possa se somar aos outros movimentos para fortalecer a luta das mulheres, a luta pela igualdade, pela permanência dos direitos já conquistados e dizer que nós somos totalmente contra qualquer tipo de preconceito e a toda forma de violência”. Ela espera que essa parceria seja cada vez mais forte, pois, juntas, a capacidade se torna maior para ampliar tudo o que já se tem conquistado.

Para Andresa Santos, que faz parte do Levante Popular da Juventude e que integrou a batucada do ato, o que mais alegra ao sair às ruas é ver outras mulheres que estão na luta diária e que, mesmo sem usar o feminismo ou estar nos movimentos sociais, estão se colocando como mulheres frente ao contexto social. Ela se emocionou ao dizer que viu uma motorista de ônibus durante o percurso e que ela acenou para as demais.

A estudante de Letras Rhaíssa Ribeiro estava indo para a Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire) quando se deparou com a mobilização e gostou do que viu. Disse que acredita que agregou muita gente que passava pelo local. “A gente quer a nossa liberdade porque passamos por cada uma!”. Ela contou que sempre sentiu vontade de se aproximar de algum grupo feminista, mas não teve oportunidade e que faz estágio em comunidades e vê o quanto as mulheres são responsabilizadas pela criação dos filhos e vivem sobrecarregadas.

Preparação

O ato unificado É Pela Vida das Mulheres começou a ser construído em janeiro e contou com a participação ativa de 15 organizações de coletivos e movimentos mistos e feministas. A ideia, desde o começo, era que o protagonismo fosse das mulheres e que se pudesse mostrar à sociedade as violações dos direitos, por exemplo, à saúde integral, à política de combate à violência e ao trabalho. Isso acontece num contexto de retrocessos das conquistas por conta do Congresso Nacional ser marcado pela bancada mais conservadora desde 1964 e que ameaça drasticamente os direitos das mulheres. O exemplo que está mais em evidência disso o Projeto de Lei 5069/13, de autoria de Eduardo Cunha, que dificulta o acesso das vítimas de estupro ao aborto garantido pela lei e, mais grave ainda, pune os profissionais de saúde que prestarem qualquer atendimento a essas mulheres.

O primeiro 8 de Março pós Primavera Feminista, que caracterizou o ano de 2015, fez muitas mulheres gritarem seus protestos, suas dores e angústias e mostrou o quanto ainda se tem que caminhar na busca de um mundo de igualdade de gênero e respeito às diferenças. Na esfera governamental, além dos retrocessos no Congresso, ainda houve a fusão dos ministérios e a Secretaria de Política para as Mulheres passou a compor uma única pasta que reuniu três secretarias no Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Os dados de violência são alarmantes: segundo o Mapa da Violência, o Brasil passou da 7ª para a 5ª posição no ranking mundial dos países com maior índice de homicídios de mulheres. A saúde integral da mulher no estado de Pernambuco tem sido prejudicada drasticamente: nos últimos dez anos, vários serviços de saúde pioraram ou desapareceram, como maternidades que foram fechadas, falta de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica ou sexual, além de falta de medicamentos e anticoncepcionais. No trabalho, a situação de desigualdade salarial atinge, mais ainda, as negras, que, segundo dados mostrados pelo Dieese, chegam a receber 40% a menos do que um homem branco pelo mesmo trabalho. Esses e outros problemas reforçam que a batalha deve ser constante e esse 8 de Março mostrou o quanto o lema “É Pela Vida das Mulheres” faz sentido na luta cotidiana.

comissao de comAtoUnif 8-3-16Ao lado, a comissão de comunicação do Ato Unificado  (foto: arquivo pessoal)

Créditos:

*Gabriela Falcão é jornalista e cientista social. Atualmente, cursa o doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco, integra o Fórum de Mulheres de Pernambuco e fez parte da comissão de comunicação do Ato Unificado no Recife.

Foto do topo: Rosilene Rocha / Colaborou na edição: Paula de Andrade (SOS Corpo)