Hardcore feminista fortalece luta antifascista em Recife

Afronta, banda feminista de crust/hardcore de Fortaleza que lança seu split ULTRIZ em tour pelo nordeste. Foto: Natercia Santana.

Nesta sexta-feira, 06 de setembro, a cena underground recifense vai ser ocupada por muito hardcore feminista. O Afrontour Hellcife é o evento que irá reunir diferentes bandas do gênero para o lançamento do split* ULTRIZ da banda feminista cearense de crust/hardcore Afronta, a partir das 19h no Darkside Studio, na Boa Vista. O evento é uma construção colaborativa de diferentes coletivas e bandas de punk, hardcore, grunge, stoner, grind formadas por mulheres da cidade de Recife e que tem o objetivo, além de ocupar um cena musical que majoritariamente é hegemonizada por homens, estimular o pensamento crítico da música e da arte como fios condutores de resistência ao fascismo.

Em entrevista ao SOS Corpo, Lara Buitron, militante feminista do Fórum de Mulheres de Pernambuco e da Coletiva MULEsta, falou sobre a organização do evento que prevê também um discussão importante sobre a construção da luta coletiva na rua como uma resposta aos avanços fascistas na sociedade promovidas pelo atual governo de extrema-direita.

SOS Corpo – Como surgiu a iniciativa de realizar o evento? 

Lara Buitron – O evento surge porque a Afronta é uma banda feminista de Fortaleza e que está em processo de divulgação do split que elas fizeram com a também banda feminista de São Paulo, a Eskröta, e elas trazem o lançamento para o nordeste. Foi quando elas entram em contato com as coletivas locais da cena underground para uma construção em conjunto do lançamento. Elas entraram em contato com a MULEsta e com a banda Arquivo Morto, que faz parte do coletivo misto M1. A banda Exsim foi também convocada pela Afronta. É importante frisar que são coletivas e bandas parceiras de longa data. Como um coletivo feminista dentro da cena underground, a gente considera fundamental fortalecer uma cena antifascista. A gente não acredita nessa história de música pela música. A gente acredita que produzir um show é produzir um espaço de discussão, de disseminação de informação de “faça você mesma”.

SOS Corpo – Qual o sentido de aliar arte, música e política como forma de resistência ao atual contexto que estamos vivendo?

Lara Buitron – Nesse momento a gente precisa pensar em diversas maneiras de contestar e desmascarar o desgoverno fascista e a gente vai numa linha de fazer propaganda antifascista pela ação. Pensando nisso a gente acredita que a arte é um fio condutor poderoso para estimular o debate. E no underground o ativismo é meio diferente né, o artevismo, do que a gente tá acostumada a ver no processo de arte popular. A gente é potencialmente agressiva, a gente mexe com sentimentos que a galera não quer mexer. A gente estimula a raiva como um sentimento antissistêmico, encara o nojo, o ódio, a raiva como força motriz da revolta. Por isso, pra gente é importante estar disseminando esse lado da Afronta, do hardcore, do underground em geral.

SOS Corpo – Além das apresentações musicais, está prevista uma roda de diálogo. Qual o objetivo dela?

Lara Buitron – A gente tenta sempre fazer uma roda de diálogo em todo show que a gente constrói e a roda nesse show especificamente é “a construção coletiva da luta na rua: uma resposta ao fascismo. A gente entende que a luta é cotidiana e ela precisa ser pensada nos espaços de prática que a gente ocupa, que no caso é o underground. A roda de punk, por exemplo, ainda intimida muito as mulheres, as pessoas não-binárias, trans, e a gente vem ocupando esses espaços, ocupando esses processos. E a gente entende isso, estamos numa disputa diária de boys e a rua é muito importante nesse sentido, mas a gente não quer ocupar a rua sem entender o porquê de estar lá. Por isso que a gente convidou algumas companheiras que atuam em movimentos sociais para conseguir mostrar que existem várias formas de combater o fascismo e que estar na rua, como no dia 7 de setembro, que o Grito dos Excluídos é uma resposta histórica ao mito da independência brasileira, e que no fim das contas o 7 de setembro como um feriado é apenas um feriado para o exército desfilar o seu poderio militar, e estar na rua nesse processo é importante para ser uma resposta, principalmente agora que a gente está nesse momento de fascismo social, que a gente corre perigo por estar andando na rua, quanto mais de estar ocupando ela. Aí a gente traz esse debate para estimular mesmo o pensamento crítico e entender o porquê é tão importante estar na rua.

Ouça aqui uma das músicas do split ULTRIZ das bandas Afronta e Eskröta: 

Sobre o evento: 

A cena underground sempre foi majoritariamente masculina, principalmente no som extremo, em resistência, trazemos para Recife a AFRONTA, banda cearense de  que enxerga no feminismo, nas ações antifascistas e na educAÇÃO o impulso para a transformação, que vem em tour pelo nordeste lançando o split ULTRIZ.

Mostramos que esses espaços devem ser confortáveis e ocupados por nós, chamamos a todes para encorajar mais mulheres a terem bandas, criarem coletivos, rodas de conversa, pra ser o que elas quiserem.

CoLaboram: MULEsta, Coletivas, M1 e bandas Exsim, Liar Wich, Surt e Arquivo Morto

AFRONTOUR HELLCIFE

06/setembro a partir das 19h

no Darkside Studio – Rua Barão de São Borja, 89

10$ pila

*Split é um produto musical gravado em parceria (featuring) por duas bandas, numa espécie de EP.