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Resenha – “Em tempos tão etéreos, o materialismo bate à porta” (sobre o livro “O patriarcado desvendado”)

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“Independentemente da concordância e uso ou não dos conceitos desta corrente teórica, a importância desta publicação está no fato de possibilitar a circulação em português de uma elaboração tão fecunda e marcante no movimento feminista francês (…)”

Por Carmen Silva*

A teoria feminista tem várias vertentes, todas em construção permanente e com profundas diferenças entre si. De acordo com o contexto histórico e a correlação de forças políticas no interior do próprio movimento, na academia ou mesmo na sociedade em geral, uma ou outra vertente ganha maior relevância. Neste jogo de poder em torno do conhecimento, a elaboração de sujeitos políticos menos poderosos sempre fica invisibilizada e muitas vezes correntes teóricas contra-hegemônicas, marginalizadas.

O Coletivo Brecha Lésbica, editou em espanhol e, agora, o SOS Corpo, em português, textos importantes do pensamento feminista materialista francês, produzidos na década de 1970 e 1980, no livro Patriarcado Desvendado, que até então foram pouquíssimos divulgados no Brasil. A apresentação de Jules Falquet e Ochy Curiel ilumina e ajuda os/as leitores/as atuais a compreenderem o debate feminista trazido por Nicole Claude Mathieu, Monique Wittig, Colette Guillaumin e Paola Tabet, esta italiana, no primeiro período da revista Questions Féministes e sua relação profunda com o feminismo como movimento social.

São textos antigos, é verdade, mas com os quais o debate atual – predominante em muitas universidades e redes sociais, na internet sobre o que são as mulheres – ganha contornos históricos e, seguramente, um maior aprofundamento. São escritos fundacionais de um modo de pensamento materialista sobre as mulheres em franco contraponto com o naturalismo e essencialismo, tão fortes no debate atual. Estas teses, ainda nos anos 1970, como disse Falquet e Curiel, já questionavam a naturalização do sexo e não apenas do gênero, assim como faz hoje Judith Butler.

Para o pensamento feminista materialista francês (sim, porque há outros, em outros lugares!) homens e mulheres não se definem pelo biológico e nem pela cultura, mas pelas relações sociais materiais, concretas e históricas. Não se trata, portanto, de uma teoria focada nos indivíduos, mas em grupos sociais com contradições entre si, o que sugere uma abordagem histórica dialética, mas o marxismo é apenas uma das perspectivas materialistas possíveis, não necessariamente adotada por esta corrente, que se distinguia do feminismo socialista situado historicamente naquele período.

Inúmeros debates que pautam o movimento feminista no Brasil, hoje, podem beber nesta fonte para fundamentar seus argumentos ou contestar os seus contrários, a exemplo das questões relativas ao trabalho doméstico, ao corpo, à transgeneridade, à prostituição, entre outros.

Independentemente da concordância e uso ou não dos conceitos desta corrente teórica, a importância desta publicação está no fato de possibilitar a circulação em português de uma elaboração tão fecunda e marcante no movimento feminista francês, muito embora, muitas entre nós, no Brasil, vejam o feminismo francês a partir das imagens produzidas de fora, notadamente a partir da produção americana. O feminismo materialista francês, a partir de Christine Delphy, entende o grupo social mulheres como uma classe social construída no modo de produção doméstico, que existe em articulação com o modo de produção industrial e dá a base material para o sistema patriarcal. A classe das mulheres seria construída pela exploração do trabalho doméstico das esposas pelos maridos no interior das relações de casamento.

Colette Guillaumim reflete sobre as relações de sexagem nas quais se dá a apropriação das mulheres pelos homens e a consequente implicação deste mecanismo para o plano ideológico. Ela discute a sexização e racialização e possibilita, deste modo, compreender como estas relações sociais de sexo e raça estão imbricadas. Monique Wittig trata da resistência à apropriação de si pelos homens e discute a lesbianidade como uma prática política de resistência. Nicole Claude Mathieu enfrenta a binaridade dos sexos e a sua hierarquização, defendendo que a complementariedade é criada pela exploração que se dá na divisão sexual do trabalho. Para ela, a tentativa de viver individualmente fora do padrão de gênero hegemônico não acaba com a exploração e os privilégios que estão estruturados materialmente no mundo. A discussão de Paola Tabet, também em bases materialistas, toma outro caminho, mas também aquece o debate atual. Ela reflete sobre o continuum entre matrimônio e prostituição, como forma de intercâmbio da sexualidade por sobrevivência material. Tabet também aborda o acesso diferenciado por sexo ao conhecimento, abrindo as veredas para as elaborações a partir das margens, em voga hoje com as teorias do ponto de vista feminista e as ideias de descolonialidade do saber e do poder.

Inúmeros debates que pautam o movimento feminista no Brasil, hoje, podem beber nesta fonte para fundamentar seus argumentos ou contestar os seus contrários, a exemplo das questões relativas ao trabalho doméstico, ao corpo, à transgeneridade, à prostituição, entre outros. Fundamentalmente está em questão um modo de interpretar a realidade a partir da materialidade das relações sociais, e não das relações intersubjetivas ou pessoalizadas. Patriarcado desvendado não fala precisamente sobre a maioria destes temas, nos moldes nos quais eles estão sendo discutidos atualmente, mas é um pensamento que pode criar condições propícias para interpretação da situação social das mulheres, das relações sociais de sexo e de gênero.

  • Carmen Silvia Maria da Silva compõe a equipe do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, é militante da AMB – Articulação de Mulheres Brasileiras e cursa doutorado em Sociologia na UFPE.

Artigo extraído da seção “resenha” dos Cadernos de Crítica Feminista, Ano VIII N. 7, SOS Corpo: Recife, 2014. No prelo.