E agora, aonde vamos? …a saída é pela ponte

conjuntura

Por Carmen Silva (*)

Imagino que todas as militantes feministas iniciaram a semana com o peito apertado. Estamos apreensivas com esta conjuntura de polarização extrema em que nosso país se encalacrou. Qual o significado do dia 13 e do dia 15 de março? O que está por trás das mobilizações? O que pode vir pela frente? O que podemos pensar sobre a correlação de forças entre as classes neste momento? Como isso se articula com o recrudescimento de manifestações racistas, com o ódio de classe travestido de regionalismos e com a pauta fundamentalista que está sendo imposta? Que desafios nós, do movimento feminista e do conjunto do campo político dos movimentos sociais teremos que enfrentar nestes tempos que virão? Como atuar nesta conjuntura a partir de um lugar que vai além da polarização entre ‘sai’ e ‘fica’ e exige o respeito aos procedimentos democráticos instituídos com os quais a presidenta Dilma se elegeu, garantindo a continuidade do governo, mas exige também a mudança dos rumos do governo, no sentido de que as mulheres, as pessoas negras e toda a classe trabalhadora não sigam arcando com o peso das atuais medidas
de ajuste e nem do já antigo modelo de desenvolvimento.

No dia 13 a defesa de direitos e da reforma política era tema forte. Articulado da forma que foi, este momento, para quem via de fora, podia ser simplesmente uma vermelha defesa do governo. Nas ruas de Recife não fosse o grito da multidão “abaixo a rede globo, o povo não é bobo”, evocado pelas integrantes do Levante Popular da Juventude disputaram o microfone com a CUT, e junto com os movimentos de mulheres, puxaram uma ciranda de luta no final, esta teria sido uma passeata sindical. No dia 15 era clara a força dos que pediam o impechament da presidenta, somando com os que exortavam às forças armadas que os salvassem do comunismo e pediam a morte de Paulo Freire e Marx, todos entoando o hino nacional vestidos de verde e amarelo. Todos contra a corrupção!… porém eles não pedem o fim do financiamento das empresas para os partidos e as eleições, antiga bandeira dos movimentos sociais que há anos lutam pela reforma do sistema político e pelo fim da corrupção. Embora os números da av. Paulista sejam expressivos, a foto da manifestação do dia 15 em Salvador é a mais emblemática deste momento histórico. Na cidade mais negra do país o ‘povo’ nas ruas mostrava a sua brancura e a sua classe para quem quisesse ver. E também a sua posição política contrária às conquistas populares dos últimos anos, que não são muitas, mas, para eles, são insuportáveis a ponto de destilarem seu ódio racista.

O governo ensaia respostas dizendo que manifestações são democráticas, preparando um pacote anti-corrupção, e não sinaliza em nada com possíveis mudanças de rumo no seu modelo de desenvolvimento, na sua política econômica e na relação com aqueles e aquelas que garantiram a reeleição de Dilma no apagar das luzes do segundo turno em 2014. Os movimentos sociais vinculados à luta por direitos, dizem que só se garante democracia com participação direta dos setores hoje alijados do poder de decisão. Para nós do movimento feminista a luta por democracia direta, por financiamento público de campanhas eleitorais, pelo fim da sub-representação dos segmentos sociais alijados do poder político e pelo não retrocesso nos direitos conquistados segue sendo a razão para irmos às ruas. Não podemos aceitar o controle do capital sobre os nossos destinos. Menos ainda dos fundamentalistas de plantão no Congresso Nacional.

No sábado dia 14, depois do 13 e na expectativa do que viria a ser o 15, o Fórum de Mulheres de Pernambuco reuniu-se em Recife para trocar ideias sobre este momento histórico e pensarmos juntas sobre os desafios que temos que enfrentar. Para nós, da Articulação de Mulheres Brasileiras, movimento nacional do qual o fórum é parte, a polarização extrema nesta conjuntura é o ponto culminante de um processo em curso desde o governo Lula. Em 2011, quando lançamos o balanço do governo Lula [1], já dizíamos “o governo liderado por Lula foi marcado por contradições. Por um lado, desenvolveu políticas que se encaminham para o rumo de romper com o modelo neoliberal (…). Por outro lado, deixou intocado o sistema político excludente – patrimonialista, patriarcal e racista –  e não garantiu instrumentos para o exercício efetivo do poder popular nos processos de participação (…) e muito pouco se fez na democratização da comunicação”. Esta conta está sendo paga agora.

Em uma conjuntura internacional mais favorável, o governo petista, com sua coligação de centro direita, não foi capaz de enfrentar o grande capital [2] e nem duas estruturas do Estado que, sem mudanças, emperram todas as outras transformações: o sistema político na forma como está instituído e a estrutura da comunicação de massa no país. Hoje temos o Congresso Nacional mais reacionário de todo o período pós Ditadura, com um presidente fundamentalista encurralando o poder executivo e ameaçando direitos elementares conquistados a duras penas pelas mulheres e outros segmentos sociais minoritários politicamente. E temos a rede Globo mostrando o seu potencial de mobilização, sustentando grupos políticos de direita financiados pelo grande capital2. Capital que, diga-se de passagem, não perdeu muito nestes últimos tempos, com o projeto neodesenvolvimentista de inserção do Brasil em um lugar central no cenário econômico mundial.

Seguimos tendo críticas a este governo e entendendo que o risco que a polarização está gerando é muito grande e nos exige um posicionamento firme à esquerda. Nós, do movimento feminista, estamos presentes nesta luta com a força política das mulheres. Fizemos grandes e coloridas manifestações no 08 de março levando às ruas a defesa da legalização do aborto, das creches, do fim da violência sexista e racista, de igualdade no mundo do trabalho e paridade entre homens e mulheres nos espaços de poder. No dia 13 nos mobilizamos em defesa da democracia e dos direitos. Fizemos isso porque avaliamos que, neste momento, não há maiores indícios de possibilidades de um golpe militar, pois nenhuma força política orgânica e expressiva tem manifestado este interesse, porém a defesa do impechament pode levar a um outro tipo de golpe. O impedimento da presidenta, que pode ser decidido no Congresso, levaria um representante mais balizado da coalizão de classe no poder a ser o mandatário da República. Não fosse o PMDB um partido sem unidade e esta possibilidade já estaria dada. Tudo vai depender das mudanças na correlação de forças que este momento pode produzir.

Os interesses no plano econômico internacional indicam que o capital financeiro aprendeu muito com a crise iniciada em 1988 e que vai com tudo para manter ou conseguir o controle das grandes riquezas materiais no mundo. No caso brasileiro, além da disputada Amazônia com sua presença no mercado de carbono, temos a reserva petrolífera do pré-sal e compartilhamos com nossos vizinhos ao sul a maior reserva de água do planeta, o aquífero guarani. Não é à toa que o jornal O Globo, em editorial, defendeu a completa entrega do pré-sal para exploração estrangeira. É um território muito importante para correr riscos com governos com algum grau de independência. O governo norte-americano está dando provas disso ao fomentar o golpe no Paraguai, ameaçar a soberania da Venezuela e apoiar os ataques internos na Bolívia e na Argentina.

Além da situação econômica, estamos enfrentando no mundo todo, uma crise de representatividade dos partidos políticos de esquerda e dos sindicatos, estruturas até então consolidadas de organização da classe trabalhadora. Os movimentos sociais têm se colocado como alternativa política para grandes transformações. Todavia, muitas mobilizações que levam multidões às ruas não tem conseguido operar as mudanças que advogam em função das engrenagens do sistema e da ausência de uma articulação de ideias capaz de projetar um futuro mais justo e igualitário.

O momento exige muita reflexão mas também coragem para agir. O nosso movimento feminista, a AMB, tem se pautado ao longo da história como um movimento autônomo frente aos governos e aos partidos políticos. Desta forma temos construídos o nosso feminismo anti-patriarcal, antirracista e anti-capitalista. Isso tem sido importante para seguirmos impulsionando, em aliança com outros movimentos, a construção da força política das mulheres, como um sujeito próprio nesta conjuntura. Precisamos nos manter firmes nesta direção. Defender a democracia contra o impedimento da presidenta Dilma e defender a mudança dos rumos do governo para garantir nossos direitos que estão sendo violados.

A pergunta que nos angustia “e agora, aonde vamos?” tem resposta. A saída é pela ponte. Precisamos construir pontes entre os movimentos sociais que seguem firmes na luta por direitos, entre os movimentos feministas que permanecem no enfrentamento ao fundamentalismo, ao racismo e ao capital. E temos que exigir do governo e dos partidos do combalido campo democrático e popular que se dirijam a estas pontes para colocar-se em diálogo com nossas lutas.

(*) Carmen Silvia Maria da Silva compõe a equipe do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, é militante da AMB – Articulação de Mulheres Brasileiras e cursa o doutorado em sociologia na UFPE.

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Notas:

[1] AMB. Políticas Públicas para a Igualdade: Balanço de 2003 a 2010 e Desafios do Presente. Brasília,
2011.

[2] A exemplo de ‘revoltados on line’ e ‘movimento brasil livre’, como anunciado no Diário do Centro do Mundo.