A prática do fazer popular no feminismo

Companheiras do Coletivo de Mulheres de Jaboatão durante ocupação política dos movimentos sociais na Praça do Derby, em Recife, em mobilização contra o golpe de 2016. Foto: Arquivo SOS Corpo

Diferentes grupos de mulheres em atuação em diferentes regiões e territórios, mas que são marcadas por lutas que giram em torno de um objetivo comum, o bem viver. São mulheres diversas que se reúnem para reivindicar moradia digna, acesso à saúde e à educação, saneamento básico, transporte público e outras pautas que envolvem toda a comunidade e ainda lutam pelos direitos de todas as mulheres, pelo fim da violência e do racismo. São mulheres negras, brancas, indígenas, lésbicas, quilombolas, que são artesãs, donas de casa, desempregadas, trabalhadoras rurais, domésticas, trabalhadoras urbanas, artistas, autônomas, professoras.

A diversidade é o perfil comum que as aproxima na luta por direitos e igualdade através de uma prática feminista popular, evidenciada aqui por meio da experiência partilhada de três organizações do movimento de mulheres do Brasil, durante a realização do curso Caleidoscópio nos dias 23 e 24 de agosto, e que teve como tema o “feminismo e os desafios de ser movimento social”, organizado pelo SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia. Aproveitamos o ensejo da presença de mulheres ligadas aos grupos para saber como se constrói o feminismo popular no fortalecimento da luta das mulheres em experiências de atuação na região metropolitana do Recife e no nordeste do Brasil.

Uma das organizações foi o Coletivo de Mulheres de Jaboatão dos Guararapes, representado por Neide Silveira, professora aposentada e militante feminista do Fórum de Mulheres de Pernambuco (FMPE). Segundo Neide, a mobilização das mulheres de Jaboatão vem de muito tempo, desde a década de 1970 elas se organizam para fazer o trabalho comunitário de lutar por direitos sociais. Mas o “corre-corre” de atividades formativas em torno das pautas feministas começa em 2003, quando o grupo passou a integrar o FMPE e começa a levar a história do feminismo para as rodas de conversa e atividades com as mulheres da comunidade. “Foi quando a gente descobriu que nós éramos feministas e não sabíamos”, conta.

Neide Silveira, fala sobre os desafios de atuação do Grupo de Mulheres de Jaboatão no curso Caleidoscópio. Foto: Déborah Guaraná/SOS Corpo

“Eu considero um feminismo popular essas mulheres que são donas de casa, que correm pra lá e pra cá, que são desempregadas, nós temos pessoas que participam do grupo de pescadoras, domésticas, professoras… a gente não tem um grupo específico de mulheres que são de uma determinada área, nosso grupo é muito misturado. Hoje nós somos um grupo feminista que faz a luta geral, mas nossa luta maior realmente é contra o feminicídio, contra o machismo, contra a própria questão do racismo, que é muito forte na comunidade”, explicou Neide.

Neide conta ainda que as atividades de formação política feitas pelo Coletivo junto à organizações feministas ajudaram na politização da luta contra a violência doméstica, contra o machismo nas relações familiares, mas que, ao mesmo tempo, gerou algumas dificuldades, sendo a maior delas, a de conseguir tirar as mulheres de casa, dos afazeres domésticos para se somarem à luta do Coletivo. Esse fato se dá pela expressão do sexismo na condição do ser mulher, mas as realidades comuns de opressão promovidas pelas estruturas que produzem as desigualdades sociais aproximou as mulheres da comunidade ao Coletivo de Mulheres de Jaboatão.

A aproximação surge na luta por creche, por acesso ao fornecimento de água e por moradia, algumas das lutas cotidianas que o Coletivo trava ao longo de sua história e que impacta diretamente a vida das mulheres de Jaboatão. A consciência da opressão que atravessa a trajetória de diferentes mulheres aproxima e traz um significado de pertencimento, de perceber que suas histórias apresentam um ponto de vista comum, feitas por as imagens de dor que são compartilhadas. Para Neide, essa dimensão de perceber que elas não estão sós é, com certeza, um dos fatores que colocam a atuação do Coletivo de Mulheres de Jaboatão como sendo de feminismo popular. 

“Com certeza, porque elas se sentiam isoladas, o sofrimento é maior. E a gente percebeu que essas mulheres às vezes só querem falar, uma pessoa pra conversar. Porque elas trabalham tanto dentro de casa, a gente conseguiu se libertar de ter que lavar, passar, cozinhar, pra poder sair de casa. A gente deixa tudo e sai. E pra essas mulheres isso ainda é muito difícil. E quando elas se encontram, elas se sentem felizes e essa felicidade dá uma energia muito boa pra gente. Isso é o que eu considero feminismo popular”, afirmou.

“O feminismo está na periferia há muito tempo”

A mesma certeza que Neide Silveira traz é compartilhada por Marília Nascimento, cientista social e militante feminista do FMPE. Ela acompanhou de perto durante os dois anos da pesquisa de mestrado que fez junto ao Espaço Mulher, grupo organizado de mulheres do bairro Passarinho, as ações do grupo em resistência ao descaso do poder público com a comunidade.

Marília Nascimento no curso Caleidoscópio. Foto: Fran Ribeiro/SOS Corpo

Localizado na periferia de Recife, o bairro faz fronteira com os municípios de Olinda e Paulista e tem 74,4 % de moradores que se autodeclaram negros. Passarinho sofre com altos índices de exclusão socioambiental, a falta de assistência de serviços públicos de qualidade como escola, hospitais, saneamento básico e moradia. A luta por moradia é, inclusive, uma marca de resistência que funda o surgimento do bairro, logo após a ocupação do território por moradores que viviam em lugares considerados de risco na década de 1980.

O grupo, que surge do encontro de mulheres negras na década de 1990, em sua maioria trabalhadoras domésticas que se encontravam na Kombi do vizinho para poder ir ao trabalho, já que o transporte público é um dos serviços públicos deficitários nas periferias brasileiras. Ao longo do trajeto elas partilhavam causos e experiências, falavam sobre saúde, violência e outros temas relacionadas à vida delas: mulheres negras, trabalhadoras, periféricas. Foi desse encontro que elas decidiram criar o grupo para continuar aprofundando os pontos de vista em comum, mas também para se organizar e lutar pelo direito ao bem viver.

“O feminismo popular é constituído do Espaço Mulher porque essas mulheres se organizam e fazem o enfrentamento em torno de pautas sociais básicas e que são fundamentais, que é o direito à moradia, saúde, educação, direito ao bem viver, você andar tranquilamente na rua e articula essas pautas sociais mais amplas que envolvem os sistemas de opressão com as pautas mais específicas do movimento feminista, como a saúde da mulher e o enfrentamento à violência contra a mulher”, explicou Marília.

Há anos elas estão na luta para garantir que o Estado disponibilize escolas com vagas suficientes e creches para atender as demandas da comunidade e a presença efetiva de um profissional médico para atendimento contínuo no posto de saúde. Atualmente a batalha se faz na resistência frente ao capital especulativo imobiliário que tenta desapossar mais de cinco mil famílias que habitam a Vila Esperança, e de onde começa uma das ações do grupo, o Ocupe Passarinho, que evidenciou o Espaço Mulher como um dos vários coletivos de feminismo popular em atuação em Pernambuco.

O Ocupe Passarinho é uma das ações de resistência organizado pelo Espaço Mulher. Foto: Ocupe Passarinho/Facebook

De acordo com Marília Nascimento, a identidade coletiva negra pauta a organização e dá sentido de pertencimento a um grupo social, fatores que marcam as ações do feminismo popular, como já apontado também pela atuação do Coletivo de Mulheres de Jaboatão. O que mais me marcou durante a pesquisa é a identidade coletiva negra que é o que mais se sobressaia, porque é o que toca primeiro, a raça, como esse corpo ocupa esse espaço social. Sempre a pauta racial esteve presente. Então o fato de se reconhecer enquanto mulher negra é fundamental para o fortalecimento das próprias ações delas”, apontou a pesquisadora.

Feminismo Popular para desconstruir o mito do feminismo branco e de classe média

Mobilizações que são feitas no porta a porta, de bicicleta, reuniões em associações de bairro, praças ou em sedes próprias, as práticas do feminismo popular muito se difere do chamado feminismo hegemônico, lugar marcado majoritariamente por mulheres brancas de classe média. Esse feminismo vem sendo criticado e desconstruído há anos dentro do próprio movimento feminista por militantes negras, que pautaram a necessidade latente de pensar a luta feminista a partir da intersecção das opressões de gênero, tendo a raça e a classe social como marcadores constitutivos das desigualdades operadas pelo sistema capitalista patriarcal e racista.

Essa noção da prática cotidiana, de trazer a narrativa de outras mulheres para o centro da organização e da atuação, bem como o “nós por nós” desde a produção do conhecimento, do partilhar as experiências às propostas de ações coletivas são características que marcam o fazer feminista popular. É o que se afirma também ao conhecer a história de organização do Movimento da Trabalhadora Rural do Nordeste, o MMTR-NE, movimento feminista dirigido e organizado pelas próprias mulheres rurais.

Mulheres do MMTR-NE. Foto: MMTR-NE/Facebook

O MMTR-NE é um movimento que vem se construindo regionalmente por trabalhadoras rurais feministas há mais de 30 anos, mulheres que estão nos roçados, no semiárido, no agreste, na zona da mata, em diferentes territórios e comunidades nos nove estados do Nordeste. “Com tranquilidade dá pra afirmar que o feminismo do MMTR-NE é um feminismo popular. É assim que mulheres compreendem aquilo que elas estão fazendo, como elas se compreendem como feministas populares”, afirma Gabriela Monteiro, militante do MMTR-NE, feminista negra e educadora política.

Gabriela realizou em co-autoria com outras militantes do movimento uma pesquisa de mestrado que apresenta a prática feminista preta, popular e decolonial do MMTR-NE em suas ações de articulação e atuação dentro dos movimentos sociais na luta pelos direitos das trabalhadoras do campo. Segundo a pesquisadora, ao longo dos 30 anos de existência do MMTR-NE as organizações feministas estiveram presentes ajudando o movimento a se organizar, a se consolidar enquanto organização a partir de atividades de formação política em torno das pautas do movimento feminista para as trabalhadoras rurais, a exemplo Escola Feminista de Formação Socioeconômica nos Bairros, que articulou também outros grupos, como a Rede Mulher e Democracia, o Centro de Mulheres do Cabo e a Casa da Mulher do Nordeste. E mesmo com a compreensão dos anos de formação política feminista, a mulheres do MMTR-NE não se afirmavam como feministas.

Gabriela Monteiro, militante do MMTR-NE, no curso Caleidoscópio. Foto: Débora Guaraná/SOS Corpo

“A partir dos anos 2000 o movimento começa a fazer uma reflexão e começaram a se fazer umas perguntas assim: o MMTR é feminista? É feminista. E você é feminista? E já ficava assim com uma interrogação no ar. E começaram a refletir: e aí, a gente é feminista ou não? E foi quando começou um amadurecimento dessa compreensão de que, ‘tá a gente pratica um feminismo, mas é um feminismo rural, é nosso, não sei se em outro lugar outras pessoas estão fazendo diferente ou parecido, mas a gente sabe que aqui a gente tá fazendo assim’… E isso se vincula muito à experiência da escola feminista autorganizada exclusivamente pela trabalhadoras rurais. Quando elas disseram ‘não, vamos fazer uma escola feminista, mas que seja nossa, com a nossa cara’,” explicou Gabriela.

Foi com esse processo de autonomia na construção de um feminismo a partir da realidade das trabalhadoras que elas compreenderam que sua prática era feminista e que se diferia e muito daquela que elas conheciam, um feminismo limitado à classe média intelectualizada e que às vezes não conseguia se sensibilizar para se transformar a partir da pluralidade e das múltiplas possibilidades de ser e se construir como mulher. E esse movimento, segundo Gabriela, se deu por meio de um outro entendimento de si, de um outro pertencimento, do ganho de autoestima e da ruptura com construção subjetiva de auto ódio que as mulheres, sobretudo as mulheres negras, são submetidas pelo imaginário social colonial brasileiro.

“Não tem como construir um feminismo popular sem passar por isso. Porque seria novamente uma reprodução daquilo que a gente tá criticando, que é uma construção de imagens, de valores externos. Não tem como você construir um feminismo popular que não passe, e isso é muito comum de ouvir entre as mulheres do MMTR, pelo ‘o nosso jeito de fazer’, elas demarcam muito isso, fazer do nosso jeito, contar a nossa história… Quer dizer, respeitar as experiências próprias, trazer as narrativas das mulheres pro centro do processo de autoformação e de identificação feminista”, concluiu Gabriela.

“Vendo o feminismo de Pernambuco não dá pra dizer que o feminismo brasileiro é um feminismo de mulheres de classe média brancas”

Para Carmen Silva, educadora do SOS Corpo e militante feminista, a construção do dia a dia do feminismo brasileiro se faz na prática dos feminismos de mulheres lésbicas, de mulheres negras, de mulheres de classes populares, não negras e assalariadas brancas que experienciam a luta desde os seus lugares sociais, todas organizadas com o objetivo em comum de alterar a situação em que nós mulheres vivemos no interior das relações sociais de dominação e exploração.

Militantes feministas de diferentes movimentos da região metropolitana de Recife participaram do curso Caleidoscópio nos dias 23 e 24 de agosto. Foto: Fran Ribeiro/ SOS Corpo

“Toda vez que a gente faz uma luta em qualquer lugar, em qualquer segmento para alterar a posição socialmente construída para as mulheres, a gente desloca as mulheres dessa posição, isso é o feminismo na prática. Aqui em Recife a gente tem uma experiência grande de ver esse movimento se construindo com mulheres de classes populares, com mulheres negras, periféricas, do interior, longe dos grandes centros urbanos e isso é uma riqueza muito grande. O que a gente tá nesse Caleidoscópio percebendo é que, além de fazer as lutas e de se organizar, e de se articular com outros grupos, as mulheres feministas de classes populares têm também desenvolvido uma reflexão, pensamento sobre si mesmas e esse pensamento tem sido sistematizado por elas em seus grupos e também em articulação com outros coletivos feministas e isso tem ajudado a ampliar a noção que é predominante sobre o movimento feminista”, avaliou a militante. 

Experiências em comum, consciência de si e do social, compreensão do ser coletivo e da força que ele tem são mais algumas percepções que podem ser captadas quando se fala, pensa e age dentro da prática do feminismo popular. Ações que produzem narrativas próprias, que deslocam as mulheres do lugar socialmente construído para nós e que produz conhecimento situado, dando diversidade à leitura e ao olhar sobre o mundo.

O feminismo popular é corpo, território, campo de luta em que os próprios grupos feministas populares produzem conhecimento sobre suas realidades em busca de transformação social. A prática feminista popular é revolucionária! Conheça abaixo algumas dessas narrativas que estão presentes nos livros da Série Cirandas, uma parceria do SOS Corpo com diferentes grupos feministas populares da região metropolitana do Recife, do Nordeste e do Norte do Brasil: 

Cirandas Feministas: experiências que se entrelaçam (obra coletiva).

Cirandas Feministas na Zona da Mata Sul: uma luta em movimento (obra coletiva).

Mulheres Negras e Populares do Norte e Nordeste: experiências que se entrelaçam (obra coletiva).