A organização e ação das mulheres negras e populares

A organização das mulheres é uma ação bastante radical de resistência coletiva, potente o bastante para fazer diferença no cotidiano e ampliar a autoconfiança individual, mas também uma ação necessária à luta por direitos, por mudanças e transformações sociais.

Por Silvia Camurça, educadora do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia

Muito do que configura hoje a dinâmica e forma de agir das organizações de mulheres negras e de setores populares no Norte e Nordeste tem como origem a atuação das mulheres nas lutas sociais desde muitos anos, e muitas vezes em posição de liderança. Nos três anos do processo de fortalecimento de organizações de mulheres negras e populares que CESE e SOS Corpo realizaram no Norte e Nordeste, em diferentes encontros e oficinas, pudemos nos perceber herdeiras, herdeiras das lutas de muitas outras mulheres, negras, indígenas, que, ao longo da formação do Brasil-colônia, resistiram, por diferentes meios, à sua dominação e buscaram a liberdade para si mesmas e para os seus povos.

“Nunca é tarde para voltar e apanhar
aquilo que ficou atrás” esta é a idéia
atribuída ao ideograma Sankofa e que
inspira esta sistematização.

É forte a certeza de que existimos hoje porque resistimos no passado. Somos herdeiras das sobreviventes. Das que sobreviveram à escravidão e ao estupro colonial, das que se rebelaram e fugiram, das que sobreviveram à matança indígena, das que conquistaram um lugar para si e os seus nas matas, nas áreas desprezadas de antigamente, das que ocuparam terras nas periferias urbanas, das que migraram de um canto a outro, das que ocuparam sindicatos rurais para conquistar o direito à sindicalização. Somos herdeiras das que estiveram nas lutas camponesas quando nem sindicatos existiam. Dessas somos herdeiras de formas do pensar, do fazer e
agir que ainda estão presentes. Herdeiras de suas práticas.

Somos beneficiárias das conquistas de outras organizações e lutas das mulheres no Brasil. É o caso das organizações criadas por mulheres que lutaram pela abolição da escravatura, pela República, pelo direito universal das mulheres à educação e instrução pública, pelo direito ao voto, por políticas de saúde
pública, pela igualdade de direitos, contra a ditadura militar, pelo socialismo, enfim, nos beneficiamos de conquistas de muitas organizações de mulheres de várias matizes políticas e composições, que de alguma forma nos permitem trilhar hoje caminhos abertos pelas lutas de ontem…

Mas, no caso das mulheres negras e populares, a historiografia, geral e feminista, ainda lhes deve muito: mulheres, lutas e organizações negras e populares ainda seguem ‘apagadas’ da memória coletiva e da história ‘oficial’. É justo dizer que esta situação está mudando. Pela força e empenho das próprias mulheres e alianças que constroem, a história vai sendo recontada e, com isto, vamos recontando o país, trazendo a público a
presença e ação de sujeitos políticos que estavam lá, mas foram ocultados.

Contudo, ainda estamos às margens da historiografia oficial e a historiografia feminista brasileira está ainda muito referenciada pelo que ocorreu no centrosul do país, entre as mulheres das classes médias e majoritariamente brancas. Há muito por ser desvelado e conhecido. Por conta desta consciência, iniciamos, em
abril de 2015, o primeiro momento de intercâmbio dessa Ação ‘puxando pela memória’. No seminário inicial, apontamos os momentos mais relevantes da trajetória da organização negra e popular no Norte e Nordeste, com destaque para o surgimento das organizações de mulheres e sua ação. Foi um momento concentrado
na rememoração, na recordação, nas reminiscências. Este foi o caminho para promover entre nós (re)conhecimento de nós mesmas. Pois, se, para os movimentos, a memória coletiva é um saber que
fortalece sua presença pública, no caso das mulheres, mais ainda: para as mulheres ‘estar em si’ é um desafio, vez que somos muito demandadas a estarmos a serviço do outro: filhos, família, vizinhança, igrejas,
movimentos…

Foi na América Latina onde emergiu a ideia do
feminismo como um pensamento crítico e prática política.
Esta ideia parece potente para nos estimular a compreender e explicar o feminismo, para nós mesmas e para os outros.

Esta ideia está na base dos debates sobre feminismo que realizamos nestes três anos desta Ação, na qual esta concepção de feminismo sustentou a proposta metodológica que articulou momentos de autorreflexão sobre a experiência das mulheres, momentos de troca sobre concepções e críticas ao pensamento feminista e momentos de debate das práticas políticas, sua potência e limites no presente.

Dialogando com esta ideia de feminismo – como pensamento crítico e prática política – podemos explicitar uma compreensão do feminismo, válida para nós até o momento, e que contém os seguintes aspectos:

  • Como pensamento crítico, o feminismo não pode ser doutrina, que ‘se aprende a recitar’. Para ser crítico, um pensamento deve ler criticamente a experiência situada das mulheres pelo mundo afora e em diferentes momentos da história. Além de que, um pensamento crítico precisa ser visto e se colocar como pensamento que tem sua própria história e contexto. O feminismo é sempre pensamento e prática política situada na história e nas circunstâncias nas quais foi/é elaborado e vivido pelas mulheres;
  • Para ser crítico, este pensamento necessariamente deve ser também autocrítico, de modo a acolher novas contribuições de mais e mais mulheres que desenvolvam críticas às condições de seu viver nas suas sociedades (tempo-espaço de seu pensar crítico) e desenvolvam críticas ao próprio pensamento feminista, ou seja, o pensamento e a prática política feminista se renovam constantemente pelo novo que é pensado e pelas práticas renovadas em cada situação onde as mulheres instalam a luta feminista;
  • Novas contribuições das mulheres ao feminismo instalam novas contradições no  ‘corpo’ do pensamento crítico feminista e de sua prática, e quando estas contradições são enfrentadas no debate entre  feministas, o conjunto do pensamento crítico feminista se renova, ganha em capacidade de explicar
    melhor as diferentes condições do viver das mulheres na sua diversidade de experiências; a prática política feminista, quando confrontada criticamente, também se renova, e se torna mais potente para responder aos desafios do presente em cada contexto;
  • Sendo prática política, é desta fonte, a prática, que emerge o pensamento, ou seja, o pensar crítico nasce da ação das mulheres, que são o sujeito da prática, e a ação das mulheres está sempre situada em um
    contexto, espaço-tempo-lugar;
  • O pensamento já consolidado nasceu de práticas passadas e orienta práticas presentes, mas se renova com o pensar crítico a partir das práticas no presente;
  • Além disso, pela diversidade de situações vividas pelas mulheres na história e nos mais diversos lugares do mundo, não há uma mesma prática em todos os lugares, mas muitas práticas feministas, que podem até ser complementares ou contraditórias,
    mas serão sempre diversas;
  • Nascendo da prática, podemos dizer que todo feminismo nasce da luta das mulheres, fundada numa experiência comum em um momento da história e num dado território com contexto particular;
  • As práticas das mulheres se fazem por dentro das relações sociais de classe, raça e gênero, porque cada mulher está sempre situada numa classe, nas relações raciais/interétnicas e nas relações de gênero. Desta forma, as práticas feministas estão situadas num momento histórico e num território/contexto de luta e resistência das mulheres;
  • Por fim, na tradição de pensamentos críticos, prática e pensamento são inseparáveis, a prática precisa de um pensamento crítico que a oriente e o pensamento crítico só nasce de uma prática concreta. Ou seja, sem ação e luta das mulheres não existiria o feminismo nem como prática nem como pensamento crítico, nem no passado, nem no presente.

Por muito tempo, a referência de feminismo foi uma só: o feminismo surgido nos anos 1970 entre mulheres europeias e norteamericanas, cuja prática e pensamento refletia as problemáticas vividas naqueles contextos. As práticas e ideias ali desenvolvidas são válidas e usuais em várias partes do mundo, mas a transposição
pura e simples deste marco referencial de feminismo para outros contextos está hoje questionada como prática, pois é insuficiente para explicar a diversidade de situações vividas pelas mulheres e insuficiente
para orientar as diversas práticas de luta necessárias aos diferentes contextos da luta feminista, embora, como todo pensamento crítico, explique muitos dos problemas vividos pelas mulheres ainda nos dias de hoje.

Desde muito tempo, a prática e o pensamento feminista estiveram sendo criados e recriados, elaborados e
reelaborados, por diferentes ‘fontes’, por mulheres individualmente, por coletivos de mulheres, seja na perspectiva de classe, na perspectiva do antirracismo, pelas mulheres negras e indígenas e pelas latinoamericanas e também pelas mulheres de outros continentes. Hoje muitas mulheres, todas sujeitos do feminismo do presente, concretizam várias expressões e experiências de feminismo no mundo: o feminismo curdo, o feminismo na Índia, nas Filipinas, na África, na América Latina.

Contudo, devemos sempre destacar que, embora a luta das mulheres sempre tenha acontecido – porque os oprimidos são sujeitos e não apenas vítimas, e as mulheres resistem há muito tempo, o tempo todo e ao longo do tempo – o feminismo ganhou visibilidade no mundo, como movimento criado, constituído e liderado por mulheres e como força política das mulheres, no anos 1970, a partir da visibilidade alcançada nas lutas do feminismo das mulheres na Europa e Estados Unidos. A partir deste momento, pelo menos na história ocidental, podemos falar de um movimento de mulheres que organiza lutas e articula espaços de encontros entre coletivos feministas para debate e acordos sobre os rumos da luta, promove intercâmbios e debates, confronta visões divergentes no interior do próprio feminismo, articula ações de solidariedade e se internacionaliza. Ou seja, a partir deste momento, além de prática política e pensamento critico, podemos falar do feminismo como um movimento.

Nos anos 1970, estavam presentes debates feministas, lutas feministas e produção de pensamentos críticos feministas em outras partes do mundo, para além dos EUA e Europa, embora com pouca ou nenhuma
visibilidade, no Brasil, inclusive. Só recentemente registros da época ganharam força, visibilidade e centralidade no feminismo: o pensamento e práticas do feminismo negro e do feminismo lésbico são exemplos.

Esta diversidade de ação das mulheres no interior do feminismo, com distintas perspectivas críticas e partindo de diversas experiências historicamente situadas, consolidou a crítica ao universalismo da categoria homem, elaborada pelo feminismo europeu e norte-americano, e instalou a crítica ao universalismo da categoria mulher, que também não pode ser universal. As feministas socialistas denunciaram que a experiência de opressão da mulher branca europeia da aristocracia e da burguesia  não é a mesma experiência da mulher
branca europeia camponesa ou operária e apontaram para a desigualdade de classe entre mulheres.

No Brasil, nos Estados Unidos, nos demais países ex-colônias latinoamericanas, nos países da África e na Índia, as mulheres negras e indígenas denunciaram a desigualdade entre as mulheres brancas e as outras, não-brancas, apontando para diferenças nas formas de domínio patriarcal, que variam por classe e raça. Assim, com centenas de anos de luta das mulheres sendo resgatados e sistematizados, com o pensamento feminista, que tenta explicar a situação das mulheres, sendo continuamente criticado, problematizado e enriquecido, assumimos a ideia de que o conjunto do feminismo, em sua diversidade, compreende formas comuns de opressão sobre as mulheres em pelo menos quatro campos da vida:

– no mundo do trabalho;
– nas práticas políticas e nos sistemas políticos dos países;
– no controle e exploração do corpo e sexualidade das mulheres, incluindo a reprodução biológica;
– e no uso da violência como instrumento de dominação dos homens sobre as mulheres.

Ao que parece, estes são campos de ‘controle’ comuns ao sistema de dominação das mulheres. Mas,  destacamos, mesmo sendo ‘campos’ comuns, a experiência de opressão e formas de exploração vividas pelas
mulheres, variam por raça, classe e contexto sócio-histórico, pois o sistema de dominação também varia no espaço-tempo da história.

Os debates entre nós

No seminário inicial de 2015, quando ‘puxamos pela memória’ e resgatamos para nós mesmas os marcos da organização e das práticas das mulheres no Norte e Nordeste, realizamos um exercício de identificar o que nos une e caracteriza como mulheres negras e populares, e o que nos diferencia das outras mulheres nessas regiões e no interior do feminismo brasileiro. Ali destacaram-se alguns aspectos comuns a todas as mulheres feministas: a crítica à situação de subordinação aos homens, a disposição de resistir e lutar por mudanças, o interesse pela democracia, pela igualdade de condições de participação na política e a luta contra a violência sexista (de gênero).

Quanto ao que nos diferencia, ficou fortemente destacado que, no cotidiano, as relações de classe e o racismo impõem às mulheres negras e de setores populares experiências inteiramente distintas das mulheres brasileiras brancas de classe média alta ou da burguesia: a vivência da pobreza, a violação de direitos fundamentais e negação do ‘direito a ter direitos’. Ficaram apontadas também especificidades como a vivência da negritude e vivência de ser povo indígena, que trazem outras visões de mundo, distintas do “eurocentricismo judaico-cristão”, colocam a valorização da ancestralidade, de outras linguagens e línguas, bem como da relação com a natureza.

Naquele seminário, apontamos ainda que o contexto de vida das mulheres negras e populares no Brasil, com algumas particularidades no Norte e Nordeste, impõe ainda um conjunto de lutas que são do interesse das mulheres dos setores populares e das mulheres negras, e que não são abraçadas por outros setores do feminismo: a luta por territórios; a luta contra o genocídio dos jovens negros, travada pelo movimento de mulheres negras, no campo e nas cidades; pela reforma agrária e pela reforma urbana; a luta contra a pobreza; contra os grandes projetos de desenvolvimento e a busca por alternativas econômicas solidárias e que garantam um ‘bem viver’; a luta contra o agronegócio e pela agricultura familiar agroecológica; as lutas por direitos sociais, como o SUS de qualidade, assistência social, educação pública e gratuita, políticas de promoção da igualdade. Essas vivências de opressão, de exploração, no passado e no presente, e estas lutas e causas do presente diferenciam as organizações de mulheres negras e de setores populares, e seus/suas aliadas(os), no interior do feminismo. Esta diferença explica as palavras-chave que se destacaram ao apontarmos as forças das mulheres negras e populares no Norte e Nordeste: resistência e resiliência.

Resistência e resiliência

Adotamos a ideia de que, no plano coletivo, resistência é sempre um movimento de resistência,
nunca uma atitude passiva. Os movimentos de resistência aglutinam pessoas e organizações
que atuam juntas e somam esforços para resistir a uma situação de invasão do território
ou usurpação do poder por um grupo ou uma autoridade, ou resistir a uma prática de
exploração do próprio grupo. Fala-se, assim, da resistência à ditadura, resistência dos povos
indígenas à colonização, resistência da população negra à escravização. Às vezes, o próprio
feminismo é apontado como um movimento de resistência das mulheres à sua opressão.
No plano individual, também se usa resistência para nomear a disposição e capacidade de pessoas,
em situações muito limitadas, conseguirem desenvolver práticas individuais para sobreviver com a
situação que não podem mudar. No plano individual, resistência é uma atitude oposta à acomodação,
e é chamada de resistência passiva, ou seja, mesmo de forma passiva oferecer resistência, não se
deixar levar facilmente… Às vezes, no uso individual deste conceito, resistência se confunde com
resiliência, que significa a capacidade das pessoas de se refazerem de situações difíceis. A resiliência
ajuda a pessoa a não sucumbir, não se afundar numa situação, e por isto contribui para que a pessoa
possa criar estratégias de resistência individual. A ações de resistência e a resiliência são práticas
que podemos aprender e desenvolver para usar como recurso em várias situações de nossas vidas.

Nos seminários realizados em 2016, o tema da experiência comum esteve em foco, em um momento através da memória da casa de infância (Salvador, primeiro semestre) e em outro momento através de grupos de reflexão (Belém, segundo semestre). Nos dois momentos, emergiram muitos aspectos comuns na diversidade de experiências singulares entre mulheres dos setores populares e mulheres negras.

Quanto ao feminismo, ficou fortemente colocada a exigência de diversificar as perspectivas de feminismo e aprofundar a crítica ao feminismo branco e eurocêntrico como insuficiente para explicar toda a  situação das mulheres negras e populares. Ficou apontada a necessidade de seguir aprofundando a leitura crítica das diferentes contribuições hoje colocadas para interpretar a experiência das mulheres e de dar lugar à disputa de narrativas sobre as mulheres em sua diversidade em nosso país.

Compreendemos que estes são desafios que irão avançar, em grande medida, na luta, pela ação das próprias mulheres negras e populares e, especialmente, pela garantia dos espaços de enfrentamento do debate nos espaços dos movimentos de mulheres. É urgente, mas ao mesmo tempo será processual, porque há enorme diversidade nas formas de se pensar feminismo: há quem o considere apenas teoria; quem o considere um jeito de ser ou  fazer ou atitude individual; quem o coloque em oposição a movimento de mulheres; quem o perceba como prática coletiva ou movimento no interior do movimento das mulheres, quem compreenda que equivale a toda ação e movimento de resistência das mulheres.

Nesta diversidade, com suas tensões e contradições, é que aquelas que acolhem o feminismo como referência de sua prática e pensamento farão o enfrentamento do debate.

Seguiremos debatendo, sempre que der, por entre as lutas, os fazeres e os encontros.

 

E, depois de três anos vivendo juntas essas experiências que fortaleceram a organização do movimento de mulheres negras e populares no Norte e Nordeste, mais de 20 mulheres se reencontram em Recife para mostrar ao mundo que a auto-organização é o que de mais radical as mulheres podem fazer para enfrentar tudo aquilo que as oprime e explora.

O que: Lançamento do livro Mulheres Negras e Populares
e debate sobre estratégias de fortalecimento do movimento
Quando: Sexta, 27 de abril
Horário: a partir das 19h
Onde: SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia