A marcha continua para as Mulheres Negras e Populares do Norte e Nordeste do país

A conclusão foi tirada do Encontro inter-regional encerrado sábado, em Salvador, e que reuniu representantes de organizações de mulheres negras e de setores populares do Norte e Nordeste.

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“Governo golpista, machista e sexista não nos representa, só nos violenta”. Essa é uma das conclusões tiradas do Encontro Inter-regional Norte e Nordeste de Organizações de Mulheres Negras e dos Setores Populares, encerrado sábado (04/06) em Salvador. Assim como as demais, a mensagem foi elaborada coletivamente, de acordo com a metodologia denominada “Formação na ação”, e faz parte de um elenco de diretrizes que vão contribuir na atuação d as participantes do encontro e de suas organizações sociais na luta por mais direitos e contra retrocessos sociais na atual conjuntura do país.

Técnicas de comunicação foram utilizadas na condução dos debates, na formulação de conteúdos e de estratégias para o enfrentamento da atual conjuntura política do país. As frases, hashtags, palavras de ordem e de desordem, passam a ser adotadas como diretrizes e motes para campanhas, entre outras ações, respondendo ao apelo de uma das criações do encontro: “Crise? Crie resistência!!”.

Já na sexta-feira (03/06) as mulheres colocaram em ação as deliberações do encontro, coordenando um debate público com o tema “Desafios da conjuntura à luta das mulheres negras e dos setores populares por direitos e políticas no Brasil”, lotando o auditório da Biblioteca Central dos Barris. A atividade teve o caráter de ponto alto da metodologia, a partir da gravação de depoimentos baseados nos debates e nos conteúdos construídos em conjunto. Além da produção e distribuição de um panfleto e do debate.

A frase “As mulheres negras seguem em marcha!” também foi reafirmada no Encontro, que reuniu integrantes de organizações sociais dos nove Estados do Nordeste, Pará, Amapá e Tocantins. Elas decidiram que não estão dispostas a perder, mas, sim, conquistar mais direitos. “Continuamos em marcha porque esse modelo civilizatório que coloca milhões de nós fora dos processos está falido. O Brasil precisa se constituir como um país da diversidade” declarou Valdecir Nascimento, coordenadora do Odara – Instituto da Mulher Negra.

Priscila Estêvão, do Fórum Nacional da Juventude Negra, disse que “o governo de transição tem representado um profundo retrocesso dos direitos constitucionais de minorias como negros, pobres, homossexuais”. Ela destacou que a maior evidência disso foi a exclusão dos ministérios da Igualdade Racial, de Direitos Humanos e das Mulheres, “sem falar no Ministério da Cultura, cuja extinção só foi revertida por causa da pressão popular”. Mas a jovem destacou também que as mídias alternativas têm contribuído com a democracia ao mostrar um outro olhar dos fatos, diferente da posição de veículos convencionais alinhados ao golpe. Sobre isso, as mulheres concluíram: “Rede Globo – inimiga da democracia e das mulheres negras!”

No Encontro, realizado pela CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço e SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, com apoio financeiro da União Europeia as participantes afirmam ainda que “Sem as Mulheres Negras, o Brasil para!”. Valdecir Nascimento foi além, declarando que as pessoas negras talvez sejam as mais privilegiadas para falar sobre um novo Brasil porque, “do lugar que ocupamos, somos nós que temos condições de falar e de apresentar soluções para a exclusão e a opressão que afetam mais da metade da população brasileira.”

Para Eliete Paraguassu, da Articulação de Pescadoras, “as declarações nas votações do golpe foram reveladoras das pessoas para as quais eles querem estar à frente do governo”. Ela destacou que os atos do governo interino intensificam a exclusão dos segmentos historicamente discriminados, a exemplo da extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que cuidava da titulação de territórios quilombolas. “Agora, quem vai dizer se a gente é ou não quilombola é Temer”, completou, referindo-se à medida que transferiu para a Casa Civil a competência do reconhecimento das comunidades quilombolas.

Do encontro também saiu a conclusão de que “O golpe que nos sangra a alma, fortalece a nossa luta!”, o que reforça a fala de Celenita Gualberto, da Coordenação Estadual Quilombola do Tocantins: o que foi dito por ela no que se refere a transferência das demandas sobre a regularização das terras quilombolas para o Ministério da Educação, de que “as mulheres negras sempre estiveram e estarão na luta, brigando por seus direitos, e que esse momento de retrocessos políticos do país, em vez de nos enfraquecer, nos fortalece”.

Articulação

O Encontro Inter-regional Norte e Nordeste de Organizações de Mulheres Negras e dos Setores Populares é parte da Ação Mulheres Negras e Populares: Traçando Caminhos, Defendendo Direitos, iniciada em 2015, com  ações previstas até 2017. A iniciativa é voltada para o fortalecimento da luta e auto-organização de pescadoras, quilombolas, indígenas, trabalhadoras rurais, seguidoras das tradições de matriz africana, jovens entre outros grupos de mulheres do campo e da cidade. As atividades incluem apoio a momentos de formação e desenvolvimento de ações de comunicação envolvendo 09 Estados do Nordeste, além do Amapá, Tocantins e Pará.

Durante o Encontro as participantes compartilharam experiências, discutiram os rumos da política nacional e as recorrentes ameaças de retrocessos nas conquistas sociais dos últimos anos.

A ação Traçando Caminhos, Defendendo Direitos visa principalmente contribuir para a integração social e melhoria das condições de vida de mulheres negras e de mulheres de setores populares em situação de pobreza.