A cidade corporificada: como debater o urbano a partir da leitura de gênero?

Essa foi a pergunta que deu o mote da participação de Mércia Alves no II Fórum Nacional BR Cidades, ocorrido entre os dias 2 a 4 de agosto na cidade de São Paulo. “Eu trouxe essa perspectiva a partir de um sentido mais largo: como é que as mulheres estão no ambiente do urbano como sujeito político?”. As provocações levantadas pela assistente social, militante feminista da Rede de Mulheres Negras, do Fórum de Mulheres de Pernambuco e educadora do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, trouxe o olhar sobre o espaço e a questão urbana a partir de uma perspectiva feminista antirracista e antissistêmica, linhas de atuação que marcam o viés político e teórico da pesquisadora.

“A perspectiva feminista vem no sentido de tornar visível as desigualdades de gênero no acesso à cidade. Porque essa é uma abordagem que tradicionalmente nos estudos, e até na militância não é feito. Você olha pra cidade como espaço físico, sem pensar quem são os sujeitos que habitam nesse ambiente territorial, que ele é marcado por uma desigualdade racial, de gênero e de classe. A ocupação das periferias urbanas é um retrato dessa desigualdade e ela precisa ser visível”, comenta.

De acordo com Mércia, é imprescindível para o olhar feminista sobre a cidade a perspectiva interseccional, pois ela permite uma leitura estrutural da organização do espaço dentro de uma sociedade que é racista, sexista e com um recorte de classe que evidencia as desigualdades sócio-históricas na construção e desenvolvimento das cidades brasileiras. A interseccionalidade permite ainda tornar visíveis as mulheres enquanto sujeitos políticos no espaço urbano.

“A gente traz a perspectiva do gênero no urbano, essas relações como homens e mulheres vivem essa produção e reprodução na cidade, porque as mulheres como parte desse sujeito político na cidade é apagada. Como uma força política que está contribuindo para a produção da riqueza, mas também na própria ação política e as mulheres, tradicionalmente, são invisíveis como sujeitos políticos que constroem a luta urbana. Elas estão nas lideranças dos movimentos, mas elas não são visíveis como parte dessa disputa de uma cidade como mais igualdade do ponto de vista da produção da riqueza social”, salientou a educadora.

Mércia Alves durante o II Fórum Nacional BR Cidades. Foto: SOS Corpo.

Direito à Cidade

Mércia Alves levou para a mesa de debate, que teve como tema Gênero, Raça, LGBTQ+ e Classe Social na Cidade, uma nova leitura para se pensar o Direito à Cidade, tema que ganhou forças nos últimos anos, mas que se mostra ainda frágil no que tange a se pensar as diferentes formas de viver e estar, uma vez que ainda se pensa a cidade de forma não corporificada.

“A situação hoje central é a desigualdade das mulheres para o acesso à terra, na questão da moradia, na própria vivência do ir e vir com a questão da mobilidade no sistema, que ele é altamente excludente no ponto de vista de você se sentir segura no seu caminhar na cidade, no momento que você sai para o trabalho ao chegar, por exemplo à noite. É um espaço que é segregador do ponto de vista físico e promotor de violências físicas”, finalizou.

Segundo a educadora, não tem como pensar a interseccionalidade apartada desse debate, por isso a importância do feminismo como ação política de incidência sobre as questões apontadas, sobretudo, em um contexto de regressão de direitos.

II Fórum Nacional BR Cidades

O BR Cidades surge de uma iniciativa de organizações e coletivos militantes na luta nacional pela reforma urbana, que com o contexto do golpe de 2016 e com o apoio da instauração da Frente Brasil Popular, lançam um projeto para as cidades, reposicionando o debate dentro do atual contexto político de perda de direitos. O objetivo é pensar a mobilidade urbana, o saneamento, o acesso à terra a partir do contexto de aumento das desigualdades, analisando como as atuais políticas dos governos neoliberais têm tratado esses aspectos junto às questões de classe, raça, gênero e juventude.

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