Nesta primavera comemoramos o cinquentenário da obra de Paulo Freire

Por Mércia Alves*

É no mês de setembro, junto com a vinda simbólica da primavera, que se comemora o cinquentenário da pedagogia do oprimido, celebrado em dois momentos fundamentais: o X Colóquio Internacional Paulo Freire e o Ato Pedagógico em comemoração aos cinquenta anos dessa obra e pelos 97 anos de nascimento do mestre da educação como prática de liberdade. Ambos eventos aconteceram no Recife, por meio de ação conjunta da Cátedra Paulo Freire, Centro Paulo Freire de Estudos e Pesquisas, SINTEPE (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Pernambuco) e Fafire (Faculdade Frassinetti do Recife). Um momento significativo para lembrar o legado de Paulo Freire num contexto político refratário às ideias e ideais transformadores e de afirmação do indivíduo como sujeito político da história.

Nós, do SOS Corpo, fomos convidadas a participar do Ato Pedagógico, cujo tema central da Mesa de Diálogo, realizada no dia 19 de setembro na UFPE, foi Pedagogia do Oprimido: Resistência e Superação. Um evento que contou com mais de 130 pessoas, entre estudantes, professores, educadores, militantes, dentre outros. Compartilharam deste diálogo o professor Heleno Araújo, do CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), e a professora e deputada estadual do PT, Tereza Leitão. A trajetória política dos escritos e aprendizados da pedagogia do oprimido atravessaram nossas histórias e a sua atualidade está em olhar o cenário político e trazer os elementos deste clássico da educação para refletir sobre os desafios no campo político e educativo na construção de um sociedade humanizadora, como nos ensinou Paulo Freire.

O cinquentenário da obra mais conhecida do Paulo Freire já é em si um ato de resistência diante do contexto de conservadorismo político, econômico e cultural que permeia o cenário dos países na América Latina e em especial o Brasil, tendo em vista a deflagração do golpe institucional em 2016. A pedagogia do oprimido, escrito em 1968 – o ano que não terminou, assim como 2016 –, foi publicado em mais de 25 idiomas e só chegou no Brasil em 1974, num contexto político de acirramento do regime autoritário,  com fechamento da ordem democrática e da ação política partidária e dos movimentos sociais. Essa história, marcada por violações, trouxe impactos na nossa cultura política. Mas, também foi marcado por ações de resistências e experiências educativas que estavam na contramão da ditadura. Muitos centros de cultura e educação popular e comunidades eclesiais de base resistiram aos enfrentamentos deste processo, o que permitiu que organizações como o SOS CORPO pudessem beber na fonte desta pedagogia no desenvolvimento dos processos educativos feministas com vistas ao fortalecimento organizativo das mulheres em movimentos.

É desafiante falar sobre 50 anos de um clássico no campo da educação, uma vez que não sou uma estudiosa da educação, ou das obras Freirianas, mas componho um coletivo político profissional feminista, o SOS CORPO, que tem 37 anos de existência e resistência, onde a educação, os processos formativos,articulados com os campos da pesquisa e comunicação, têm lugar central na contribuição com o fortalecimento individual e coletivo das mulheres. Entendo que  os processos formativos – educação não formal – voltados para o engajamento e fortalecimento organizativo, pautados pelo conceito da educação popular, com a perspectiva Paulo Freiriana, nos constitui no mundo como sujeito inquieto, questionador e coletivo. Aprendi com outros e outras que a transformação de si e do mundo se dá em diálogo entre divergentes e diferentes, por isso, então, sou parte deste legado que teima diariamente em construir novas relações humanas de igualdade na diversidade.

Para dialogar sobre este tema – questão que nos provoca pensamentos  –, pensei e repensei em várias chaves de leitura, voltei no tempo em que a contribuição de Paulo Freire estava presente em várias experiências educativas, ação políticas (movimento estudantil, formação da CUT, movimento de Direitos Humanos, a formação feminista) para encontrar os elementos que, nos tempos atuais, nos permitam desvelar a crise política instaurada com o golpe de 2016. A polarização política e as falas/faixas/posicionamentos que atentaram e atentam contra o pensamento de Paulo Freire, Marxista e de esquerda é parte de um caldo de cultura conservador que se alastra no cenário político como parte da negação de um campo democrático e popular que lutou por direitos e por relações mais igualitárias e contra privilégios. E, por fim, pensei: um livro que chega a meio século, atravessou gerações, está com mais de 60 edições, tornando-se um clássico, já é, em si, uma ação de resistência na disputa de narrativas que individualizam os sujeitos tanto no âmbito da economia, como da política e da cultura, narrativa esta que transforma a ação do sujeito em simples atitude consumista, capturando sua autonomia para um contexto de mercantilização e privatização da vida.

O legado de Paulo Freire está no reordenamento/reposicionamento do pensamento sobre a educação, fazendo-a extrapolar o espaço escolar, transformando-a num método de apreensão da realidade, de aprendizagem e de reconhecimento do eu, meu estar no mundo,na capacidade de transformá-lo como parte da consciência de si e do desvelar das situações contraditórias que geram opressão/dominação e subordinação, como expressão do sistema das relações sociais capitalista,racista e sexista.

A atualidade da obra bate à nossa porta e, se olharmos o presente, a conjuntura nos revela a carência, falência e afastamento das bases de pensamento crítico que nos instiga a ver o mundo desenhado por Freire, considerando a transformação das relações de opressão a partir de processos de aprendizagens que compreendem a realidade como ação histórica dos sujeitos. Vivemos uma nova etapa de acumulação capitalista, um momento de disputas de narrativas onde a relação entre opressor e oprimido, proprietários e trabalhadores são acirradas,expressando novas dimensões do processo de desigualdade e desumanização tão presentes na reflexão da pedagogia do oprimido. A consciência da situação de opressão, ou a falta dela, vem nos colocando em lados opostos e muitas vezes se expressa na sensação de pertencimento de oprimidos que se enxergam no lugar e atuando como opressores, o que revela o ódio ao diferente como parte do sistema de dominação. Assim, aparência e essência são maquiados. Será que este elemento não nos permite olhar para atualidade das reflexões de Freire?

A educação como prática e ato de liberdade é um desafio diário, sistemático. Para os que resistem e estão na contracorrente dos ideais conservadores neoliberais, a tarefa de radicalização, de expor e explodir os pilares da dominação e opressão é altamente revolucionário. O próprio Freire nos ilumina nesta questão ao trazer como parte do método o pensar dialógico, ação e mundo, mundo e ação e ação no mundo, como parte do papel educativo de desvelar a realidade, despertar consciência e provocar o engajamento como ação transformadora, a práxis. E a ação sobre a realidade objetiva é o motor da história para superar desigualdades.

O sistema de dominação, a cultura da subordinação de classe,raça e gênero se estabelecem como parte de uma cultura burguesa autoritária e opressora que tenta, por meio das instituições e mídia, reforçar modelos que alijam dos processos históricos a potência de homens e mulheres, em suas diversas vivências sexuais, para  transformar as relações de opressão. Isso é parte da chamada cultura do silêncio, que se espalha em várias dimensões da vida social, pública e privada, negando, por meio da ação autoritária, a voz e o diálogo entre os sujeitos.

Um sistema que cria e recria a todo momento mecanismos que nos engessam e emburrecem diante da plasticidade efêmera e superficial das relações, da leitura do mundo,  estabelece a contraposição entre diálogo e isolamento. As novas ferramentas da tecnologia, que deveriam estar a serviço da sociedade, da luta e da transformação, se revelam  mais um dos mecanismos de controle e dominação. E, com o crescimento de pensamento de base fundamentalista–religioso, esse silenciamento de vozes diferentes, modos de ser e viver diferentes, e portanto, contra-hegemônicos, revela o quão distante estamos de construir esse um outro mundo possível.

Como acreditamos na circularidade da vida, na potencialidade criativa e recriadora dos sujeitos e nas ações de resistência micro e macrossocietárias, visualizamos pontos de superação e de confluências históricas entre novas e velhas  formas de pensar e agir no mundo.

E pensando a partir do nosso lugar de uma organização feminista que tem como centro o fortalecimento das mulheres como sujeito político e o engajamento como parte da nossa ação coletiva de transformar a nós e ao mundo pelo feminismo, temos vários encontros entre a pedagogia feminista e a educação popular. Compreendemos os processos educativos como parte da construção das mulheres como sujeito político do feminismo, com sentido e intencionalidades políticas que buscam o engajamento e o fortalecimento organizativo.

A perspectiva feminista da ação educativa é inspirada na concepção da educação popular Freiriana, tomando como referência a educação como prática de liberdade; dialógica; valorização do sujeito história e cultura; conexão entre as dimensões objetivas e subjetivas e o caráter transformador de relações de opressão nas esferas pública e privada. As insígnias do feminismo, “o privado é público”, “o lugar de mulher é onde ela quiser”, mostram-nos o fortalecimento das mulheres e da luta feminista na construção de relações socais de sexo mais igualitárias e que conecta, portanto, essas dimensões processual e sistemática da superação das relações de opressão/dominação para autonomia. O método dialógico nos aponta caminhos e são pistas de como processos educativos rompem barreiras ao despertar consciências.

Por fim, como disse Paulo Freire, “a educação sozinha não muda o curso da história, mas contribui para mudar o rumo das coisas” – este é um dos seus legados, bem como a dimensão da emancipação humana e política como ato de liberdade. E como disse o professor Ernani, “Paulo Freire é um comprometido com a vida! Não pensa idéias, pensa na existência”. E é a resistência criativa que nos faz romper os ciclos de opressão ao longo da história.

*Mércia Alves é educadora do SOS Corpo. O texto teve revisão de Déborah Guaraná