25 de Julho – segunda parte: Mulheres negras se mobilizam pelo direito à moradia

O movimento das mulheres negras tem uma extensa e histórica pauta de lutas. Além de denunciar o preconceito, a discriminação racial, o difícil acesso ao serviço de saúde e a violência sofrida pelas mulheres no cotidiano, entre outras ações, também está engajado na batalha pelo direito à moradia. É o que ocorre no bairro de Passarinho, Zona Norte do Recife. Quem conta essa história na série em homenagem ao dia 25 de Julho é a artesã Edicléa Santos, do Espaço Mulher, que atua naquela comunidade desde 1999.

Cléa integra o Espaço Mulher, de Passarinho, desde 1999

Cléa integra o Espaço Mulher, de Passarinho, desde 1999

Cléa, como é mais conhecida, mudou-se para Passarinho em 1997. Mas já havia ingressado no movimento feminista quando passou a fazer parte do Grupo de Mulheres do Morro da Conceição, em 1985, que fazia um trabalho educativo, voltado para a saúde da mulher. “A questão racial e da violência doméstica ainda não eram muito discutidas naquela época”, lembra.

No Espaço Mulher, o campo de atuação foi ampliado. Além de saúde, discutia-se gênero, etnia, violência e a luta por moradia passou a integrar a pauta. “Há uma invasão na comunidade desde 2006 e os moradores vivem com medo de despejo”, conta. “Em 2014, o governador prometeu transformar a área em zona de interesse social (Zeis), mas até agora ninguém tem título de posse da terra.”

Para estimular a comunidade a se apropriar da área e denunciar a ausência de políticas públicas voltadas à população negra e carente, o Espaço Mulher passou a promover o Ocupe Passarinho desde o ano passado, evento que conta com feira agroecológica, artesanato e rodas de conversa, promovidas pelo movimento de mulheres. “O movimento é um transformador de consciências. É a faculdade para as que não tiveram a oportunidade nem de aprender a ler”, resume. “Eu não quero me transformar sozinha. Quero ver outras mulheres mudando comigo.”

Neste 25 de julho, Cléa reverbera a crítica do movimento de mulheres negras à persistente desigualdade de gênero e de raça. “Somos nós que ganhamos menos no trabalho, que temos menos qualidade de vida… Ainda estamos na periferia lutando por educação e saúde”, ressalta.

O maior desafio na atualidade, segundo Cléa, é resistir à perda de direitos já conquistados. “Estamos perdendo muito nessa atual conjuntura política. Por isso, nos juntamos e fomos às ruas protestar”, comenta. Ela aponta como exemplo de retrocesso o atendimento nos postos de saúde. “O serviço piorou muito. A maioria das mulheres com anemia falciforme é negra e não está conseguindo medicamento para se tratar”, denuncia.

A expectativa dela é que, no futuro, o 25 de julho possa ser celebrado com a conquista da igualdade e autonomia das mulheres. “Queremos viver num mundo mais justo, com mais liberdade, onde a gente possa sair nas ruas do jeito que a gente quiser e os homens não pensem que somos propriedades deles.” Ela também espera que a discriminação racial seja superada. “O preconceito contra os negros e negras ainda é grande. Quando vamos a uma loja, as atendentes sempre nos oferecem os produtos mais baratos.”

Imagem destacada: Brasil de Fato