Revolução Russa: Da subversão ao silêncio

* Por Lilián Celiberti
As mulheres foram protagonistas em todas as revoluções. Entretanto, embora seus corpos tenham sido perseguidos, torturados, encarcerados igualmente aos dos homens, seus olhares, suas lutas e opiniões, muitas vezes dissidentes, raramente ficaram registrados na história. Resgatar a memória dessas subversões e resistências foi uma tarefa tenaz das feministas desde o começo do movimento.

Evidentemente não há quem não associe a Revolução de Outubro aos homens de Lenin, Léon Trotsky ou Iósif Stalin, e talvez na memória coletiva só se registre o nome de Alexandra Kollontái. Muitas outras mulheres organizaram ações significativas, como as trabalhadoras que impulsionaram uma greve em fevereiro de 1917, que foi a antessala da greve geral que abriu caminho para a Revolução Russa, ou Nadezhda Krupskaia e Inessa Armand, editoras do jornal Rabotnitsa, censurado em junho de 1914 pelo governo e reeditado em 1917, às vésperas da revolução. Krupskaia exilou-se junto com Lenin, seu marido, e escreveu seu primeiro livro: A mulher trabalhadora.

Nadezhda Krupskaia

Nadezhda Krupskaia

Inessa Armand

Inessa Armand

Em 1917, o Rabotnitsa dizia: “Se uma mulher é capaz de subir em um andaime e lutar nas barricadas, então é capaz de ser uma mulher igual na família operária e nas organizações operárias”. A luta contra o patriarcado estava, para elas, no mesmo plano que o enfrentamento do capitalismo, embora não se expressasse com essas palavras.

É interessante ver como, ao longo da história, a experiência social das mulheres ultrapassa as dimensões e as categorias da política e incorpora a vida como um todo no debate público. Basta ler os artigos de Kollontái sobre o amor livre e o questionamento da família burguesa para ver a dimensão integral que a revolução propunha, mesmo em uma Rússia campesina, analfabeta e faminta.

Devido à guerra, as mulheres se incorporaram massivamente ao mercado de trabalho para substituir os homens. Calcula-se que, em Petrogrado, chegavam a 47% da força de trabalho. Por isso, de fevereiro a outubro, a participação das mulheres na revolução foi elevada. Em meados de abril, milhares de mulheres se mobilizaram em Petrogrado para exigir o direito ao voto e obtiveram a promessa do governo provisório de Alexander Kerensky de permitir o voto para todas as mulheres maiores de 20 anos na futura Assembleia Constituinte.

As jornadas de trabalho eram de 10 ou 12 horas, significando para as mulheres o abandono real das tarefas de cuidado. Não é de estranhar, portanto, que 40.000 lavadeiras protagonizaram em maio a primeira grande greve contra o governo provisório, reivindicando um aumento de salários, as oito horas de trabalho e melhores condições de trabalho. Nesse clima de organização e resistência, a voz rebelde de Kollontái apoiou a greve, mas seu pensamento foi além das reivindicações de direitos, para analisar as causas da opressão e avançar em propostas emancipatórias e libertárias.

A Revolução Russa significou uma conquista para as mulheres sem precedentes na história: o direito ao voto, ao aborto livre e gratuito, ao divórcio; a legitimidade dos filhos nascidos fora do matrimônio, a despenalização da prostituição e a homossexualidade.

Entendia-se como princípio “arrancar as mulheres da escravidão doméstica”, mediante a socialização do trabalho do lar e o cuidado dos filhos com creches e refeitórios públicos. Os primeiros anos da revolução foram um período de intensos debates e experimentação. Um dos eixos de debate mais inovadores e provocadores foi o ocorrido na família. Como destaca a historiadora Wendy Goldman, em A mulher, o Estado e a Revolução, o debate estava orientado por quatro princípios: 1) a união ou amor livre; 2) a necessária independência econômica de homens e mulheres para garantir as opções livres; 3) a socialização do trabalho doméstico, com a criação de lavanderias, creches, refeitórios, para que o cuidado das pessoas necessitadas fosse uma tarefa social coletiva, e não responsabilidade das mulheres; 4) a certeza de que, dadas essas condições, a família como tal, como unidade econômica e afetiva, tenderia a desaparecer.

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‘Mulher, Estado e Revolução’ analisa o papel das mulheres na Revolução Russa de 1917 e as lições deixadas por elas

Goldman ressalta: “A partir de uma perspectiva comparativa, o Código de 1918 se adiantava notavelmente em sua época. Não teria sido promulgada até o momento nenhuma legislação similar quanto à igualdade de gênero, ao divórcio, à legitimidade e à propriedade, nem na América nem na Europa. Contudo, apesar das inovações radicais do Código, os juristas destacaram rapidamente que essa legislação não é socialista, mas legislação para a era transicional”.

Em setembro de 1919, Lenin escrevia no Pravda: “A situação da mulher ainda continua sendo árdua devido a suas tarefas domésticas. Para conseguir a total emancipação da mulher e sua igualdade real e efetiva com o homem, é necessário que a economia nacional seja socializada e que a mulher participe no trabalho geral de produção. Só assim a mulher ocupará o mesmo lugar que o homem”.

Dez anos de experimentação revolucionária na produção, nas relações sociais e familiares, na sociedade, na economia e na cama, diriam as feministas do século XXI, é muito pouco para dimensionar as mudanças a que essa geração de mulheres e homens revolucionários se propôs na Revolução de Outubro.

Antes do décimo aniversário, o regime de Stalin reintroduziu o matrimônio civil como a única união legal reconhecido pelo Estado. Mais tarde, também suprimiu a seção feminina do Comitê Central do Partido, penalizou a homossexualidade e criminalizou a prostituição. Para Goldman, “a proibição do aborto em junho de 1936 foi acompanhada de uma campanha para desacreditar e destruir as ideias libertárias que tinham dado forma à política social ao longo da década de 1920”, “a doutrina da ‘extinção’, que em um momento tinha sido central para a compreensão socialista da família, do direito e do Estado, foi repudiada”.

Mais família, mais Estado, menos revolução. A esquerda política no mundo se afiliou a essa visão conservadora e limitante das relações sociais, e deixou fora do debate emancipador as relações de poder cotidianas entre homens e mulheres até meados dos anos 60, com o ressurgimento das lutas feministas. Aquela vanguarda subversiva foi, portanto, silenciada, deslocada e derrotada.

Quase um milhão de mulheres fizeram parte do Exército Vermelho; suas vozes são resgatadas do silêncio por Svetlana Alexiévichc em A guerra não tem rosto de mulher: “A guerra feminina tem suas cores, seus cheiros, sua iluminação e seu espaço. Tem suas próprias palavras. Nessa guerra não há heróis nem façanhas incríveis, apenas há seres humanos envolvidos em uma tarefa desumana. Nessa guerra, não são apenas as pessoas que sofrem, mas também a terra, os pássaros, as árvores. Todos os que habitam este planeta junto conosco. E sofrem em silêncio, o que é ainda mais terrível.” Os testemunhos que ela recolhe falam dessa guerra contra a vida vivida pelas mulheres, na qual só resta o silêncio, porque o que têm para dizer expressa uma dimensão da política que não encontra espaço para a escuta, o diálogo ou a enunciação. É o corpo agredido, é a violência, é o medo, é uma compreensão de que o que está em jogo é a vida toda, que necessita de muitos cuidados para se sustentar, matizes, cheiros e cores que não entram nos debates, nem nos sonhos, nem na imaginação das esquerdas que só pensam em estratégias de poder.

Mudar a vida e transitar por esses quatro princípios bolcheviques se revelou mais complexo que “tomar o poder”, precisamente porque é no campo das práticas cotidianas subversivas onde cresce a emancipação.

*Lilian Celiberti é coordinadora da organização feminista Cotidiano Mujer e participa da Articulación Feminista Marcosur (AFM).